Os grandes radiotelescópios do mundo estão construídos em lugares remotos pela mesma razão que levou Paul Gauguin a navegar para Taiti: para trabalharem bem, precisam de estar longe da civilização. À medida que o tráfico-rádio civil e militar aumentou, os radiotelescópios foram tendo de se esconder — seqüestrados, digamos, num obscuro vale de Porto Rico, ou exilados num imenso deserto restolhoso do Novo México ou do Cazaquistão. Como a radinterferência continua a aumentar, torna-se cada vez mais lógico construir os telescópios completamente fora da Terra. Os cientistas que trabalham nestes observatórios isolados mostram propensão para serem pertinazes e determinados. As esposas abandonam-nos e os filhos saem de casa na primeira oportunidade, mas os astrônomos resistem e agüentam. Raramente pensam em si próprios como sonhadores. O pessoal científico permanente de observatórios remotos tende a ser constituído pelos práticos, pelos experimentalistas, pelos peritos que sabem muito a respeito de concepção de antenas e análise de dados e muito menos a respeito de quasars ou pulsars. De um modo geral, não tinham anelado pelas estrelas na infância; tinham estado demasiado ocupados a reparar o carburador do carro da família.
Depois de receber o seu doutorado, Ellie aceitou colocação como investigadora associada no Observatório de Arecibo, uma grande taça com trezentos e cinco metros de largura, fixada ao chão de um vale de carste nos sopés dos montes do Noroeste do Porto Rico. Com o maior radiotelescópio do planeta, sentiu-se ansiosa por utilizar o seu detector maser para observar o máximo de objetos astronômicos que pudesse — planetas e estrelas próximos, o centro da Galáxia, pulsars e quasars. Como membro em tempo inteiro do pessoal do Observatório ser-lhe-ia destinada uma quantidade significativa de tempo para observação. O acesso aos grandes radiotelescópios é vivamente competitivo, pois os projetos de investigação que valem a pena são muito mais do que a capacidade dos aparelhos permite. Por isso, o tempo de telescópio reservado ao pessoal residente é uma condição prévia de valor incalculável. Para muitos dos astrônomos é a única razão que os levaria a aceitar viver em lugares tão remotos.
Ela esperava também examinar algumas estrelas próximas, em busca de possíveis sinais de origem inteligente. Com o seu sistema detector seria possível ouvir as perdas-rádio de um planeta como a Terra, mesmo que ele se encontrasse a alguns anos-luz de distância. E uma sociedade avançada que pretendesse comunicar conosco seria indubitavelmente capaz de possuir uma força de transmissão muito maior do que a nossa. Se Arecibo, utilizado como um telescópio de radar, era capaz de transmitir um megavátio de energia para um lugar específico do espaço, então uma civilização apenas um bocadinho avançada em relação à nossa poderia, pensava ela, transmitir cem megavátios ou mais. Se estavam a transmitir intencionalmente para a Terra com um telescópio tão grande como o de Arecibo, mas com um emissor de cem megavátios, Arecibo seria capaz de os detectar virtualmente em qualquer ponto da Galáxia da Via Láctea. Quando pensava cuidadosamente no assunto, surpreendia-a o fato de, na procura de inteligência extraterrestre, o que podia ser feito se encontrar à frente do que tinha sido feito. Achava insignificantes os recursos que tinham sido destinados àquela questão. Sentia dificuldade em encontrar um problema científico mais importante.
As instalações de Arecibo eram conhecidas pela gente local como El Radar. A sua função era, de modo geral, obscura, mas proporcionava mais de cem postos de trabalho, que faziam muita falta. As jovens da localidade eram seqüestradas dos astrônomos do sexo masculino, alguns dos quais podiam ser vistos a quase todas as horas do dia ou da noite, cheios de energia nervosa, praticando jogging ao longo do caminho circunferencial que contornava o disco. Em conseqüência disso, as atenções concentradas em Ellie depois da sua chegada, embora não fossem inteiramente mal acolhidas, não tardaram a desviar-lhe a atenção da sua investigação.
A beleza física do lugar era considerável. Ao crepúsculo olhava pelas janelas de controle e via nuvens de tempestade pairarem sobre o outro bordo do vale, logo a seguir a uma das três imensas torres das quais estavam suspensas as antenas de corneta e o seu recém-instalado sistema maser. No cimo de cada torre brilhava uma luz vermelha para avisar e fazer afastar quaisquer aviões que improvavelmente se tivessem desviado para aquela remota paisagem. Às quatro da manhã costumava ir até ao exterior a fim de tomar um pouco de ar e esforçar-se por compreender um coro maciço de milhares de rãs terrestres locais chamadas coquis, nome que era uma onomatopéia do seu grito lamentoso.
Alguns astrônomos viviam perto do Observatório, mas o isolamento, agravado pela ignorância da língua espanhola e pela inexperiência de qualquer outra cultura, tendia a impeli-los, e às suas mulheres, para a solidão e a anomia. Alguns tinham decidido viver na Base Aérea de Ramey, que possuía a única escola de língua inglesa das imediações. Mas a viagem de automóvel de noventa minutos também aumentava o seu sentimento de isolamento. Ameaças repetidas de separatistas porto-riquenhos, erradamente convencidos de que o Observatório desempenhava qualquer missão militar importante, aumentavam a sensação de histeria sufocada, de circunstâncias dificilmente controladas.
Muitos meses depois, Valerian fez uma visita. Nominalmente, encontrava-se ali para fazer uma conferência, mas ela sabia que parte do seu objetivo era verificar como ela se ia dando e proporcionar-lhe o possível apoio psicológico. A sua investigação estava a correr muito bem. Ellie descobrira o que parecia ser um novo complexo de nuvens moleculares interestelares e obtivera alguns excelentes dados de elevada resolução temporal sobre a pulsar do centro da nébula do Caranguejo. Completara até a investigação mais sensível até aí realizada de sinais de uma dúzia de estrelas próximas, mas sem resultados positivos. Houvera uma ou duas regularidades suspeitas. Observara de novo as estrelas em questão e não conseguira encontrar nada fora do vulgar. Se olhamos para muitas estrelas, mais cedo ou mais tarde a interferência terrestre ou a concatenação de ruído ocasional produzirá um padrão que por momentos nos faz palpitar o coração. Acalmamo-nos e conferimos. Se não se repete, consideramo-lo espúrio. Esta disciplina era essencial se ela queria preservar algum equilíbrio emocional em face do que procurava. Estava decidida a ser tão tenaz e lúcida quanto possível, mas sem abandonar a sensação de maravilhamento que antes de mais nada a impulsionava.
Recorrendo às escassas provisões que tinha no frigorífico comunitário, improvisou um almoço-piquenique rudimentar e Valerian sentou-se com ela mesmo na periferia do disco taciforme. Viam-se ao longe trabalhadores a reparar ou a substituir os painéis, calçando sapatos de neve especiais para não rasgarem as chapas de alumínio e não se despencarem no solo, em baixo, pelas aberturas.
Valerian mostrou-se encantado com o progresso dela. Trocaram pequenos mexericos e falaram de assuntos científicos especiais correntes. A conversa desviou-se para a SETI, como a procura de inteligência extraterrestre começava a ser chamada.
— Alguma vez pensou em trabalhar nisso a tempo inteiro, Ellie? — perguntou ele.
— Não, não pensei muito. Mas também não é realmente possível, pois não? Que eu saiba, não existe em parte alguma do mundo nenhuma instalação importante destinada à SETI em tempo inteiro.
— Não, mas poderá existir. Há uma probabilidade de que dúzias de discos adicionais sejam acrescentados ao Very Lar e Array e o transformem num observatório dedicado à SETI. Claro que fariam também um pouco do tipo habitual da radioastronomia. Seria um interferômetro estupendo. Trata-se apenas de uma possibilidade, é dispendioso, exige vontade política autêntica e, na melhor das hipóteses, está a anos de distância. É somente uma coisa para pensar.
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