— Peter, acabo de examinar umas quarenta e tal estrelas próximas de tipo espectral mais ou menos solar. Estudei a linha de hidrogênio de vinte e um centímetros, que toda a gente diz ser a freqüência de aviso óbvia, porque o hidrogênio é o átomo mais abundante do universo, etc. E fi-lo com a sensibilidade mais elevada jamais experimentada. Não existe a sombra de um sinal. Talvez não exista ninguém lá. Talvez toda esta história seja um desperdício de tempo.
— Como a vida em Vênus? Isso não passa de conversa de desiludida. Vênus é um mundo infernal; é apenas um planeta. Mas há centenas de milhares de milhões de estrelas na Galáxia. Você observou somente um punhado delas. Não acha um pouco prematuro desistir? Resolveu um milésimo milionésimo do problema. Provavelmente muito menos do que isso, se tiver em consideração outras freqüências.
— Bem sei, bem sei. Mas não tem a sensação de que, se eles estão nalgum lado, estão em todo o lado? Se seres realmente avançados vivem a mil anos-luz de distância, não seria natural terem um posto avançado no nosso quintal das traseiras? Bem sabe que uma pessoa podia trabalhar eternamente na SETI e nunca se convencer de que completara a busca.
— Oh, começa a parecer o Dave Drumlin! Se não conseguimos encontrá-los durante o tempo da sua vida, não está interessado. Estamos apenas a iniciar a SETI. Você sabe quantas possibilidades existem. Esta é a altura de deixar abertas todas as opções. Esta é a altura de ser otimista. Se vivêssemos em qualquer época anterior da história humana, poderíamos passar toda a nossa vida a pensar no assunto sem podermos fazer nada para encontrar a resposta. Mas este momento é único. É a primeira vez que alguém tem possibilidade de procurar inteligência extraterrestre. Você fez o detector para procurar civilizações nos planetas de milhões de outras estrelas. Ninguém garante o êxito. Mas consegue imaginar coisa mais importante? Suponha-os ali, a enviar-nos sinais sem ninguém na Terra a escutar. Isso seria ridículo, seria grotesco. Não se envergonharia da sua civilização se tivéssemos meios de escutar e nos faltasse a energia, a garra, para o fazer?
Duzentos e cinqüenta e seis imagens do mundo esquerdo perpassaram à esquerda. Duzentos e cinqüenta e seis imagens do mundo direito deslizaram à direita. Ela integrou as quinhentas e doze imagens numa visão envolvente do que a cercava. Estava profundamente embrenhada numa floresta de grandes folhas ondulantes, umas verdes, outras estioladas, quase todas maiores do que ela. Mas não tinha dificuldade nenhuma em subi-las, equilibrar-se precariamente, de vez em quando, numa folha inclinada, cair para a branda almofada das folhas horizontais de baixo e depois continuar sem hesitar o seu caminho. Sabia que estava centrada na pista. Na pista torturantemente recente. Não se importaria nada, se a tal pista a guiasse, de escalar um obstáculo cem ou mil vezes mais alto do que ela. Não precisava de torres nem de cordas; já estava equipada. O terreno imediatamente à sua frente recendia a um odor marcador deixado recentemente — tinha de ser — por outra batedora do seu clã.
Conduziria a comida; conduzia quase sempre. A comida apareceria espontaneamente. Batedoras descobri-la-iam de volta. Às vezes, a comida era uma criatura muito parecida com ela própria; outras, era apenas um matacão amorfo ou cristalino. Ocasionalmente era tão grande que se tornavam necessárias muitas do seu clã, trabalhando juntas, elevando-o e empurrando-o sobre as folhas dobradas, para o levar para casa. Estalou as mandíbulas, num antegosto.
— O que me preocupa mais — continuou ela — é o oposto, a possibilidade de eles não estarem a tentar. Podiam comunicar conosco, sim senhor, mas não o fazem porque não vêem nenhuma utilidade nisso. E como olhou para baixo, para a beira da toalha de mesa que tinham estendido sobre a erva… como as formigas. Ocupam a mesma paisagem que nós. Têm muito que fazer, coisas em que ocupar-se. Em certo nível, estão muito conscientes do seu ambiente. Mas nós não tentamos comunicar com elas. Por isso, não creio que tenham a mais vaga idéia de que existimos.
Uma grande formiga, mais empreendedora do que as suas companheiras, aventurara-se a avançar pela toalha de mesa e marchava com desenvoltura ao longo da diagonal de um dos quadrados encarnados e brancos. Reprimindo um pequeno estremecimento de repugnância, ela atirou-a, com um piparote desajeitado, novamente para a erva — onde era o seu lugar.
CAPÍTULO III
Ruído branco
Melodias ouvidas são doces, mas as não ouvidas são mais doces.
JOHN KIATS «Ode on a Grecian Um» (1820)
As mentiras mais cruéis são muitas vezes ditas em silêncio.
ROBERT LOUIS STEVENSON Virginibus Puerisque (1881)
Os impulsos viajavam havia anos através do grande escuro entre as estrelas. Ocasionalmente, interceptavam uma nuvem irregular de gás e poeira e um pouco da energia era absorvida ou disseminada. Os restantes prosseguiam na direção primitiva. À frente deles havia uma tênue luminosidade amarela, que aumentava lentamente de brilho entre as outras luzes invariáveis. Agora, embora para os olhos humanos continuasse a ser um ponto, era de longe o objeto mais luminoso do céu preto. Os impulsos estavam a encontrar uma horda de gigantes bolas de neve.
Uma mulher esbelta, com trinta e tantos anos, entrava no edifício da administração de Argus. Os seus olhos, grandes e afastados um do outro, suavizavam-lhe a estrutura óssea angulosa do rosto. Uma bandelette de tartaruga prendia-lhe, sem apertar, o cabelo comprido e escuro na base do pescoço. Envergando com despreocupação uma T-shirt de malha e uma saia de caqui, seguiu por um corredor do primeiro andar e transpôs uma porta onde se lia: E. Arroway — diretora. Quando retirou o polegar do fecho acionado por pressão digital, um observador poderia ter reparado num anel que usava na mão direita, com uma pedra vermelha singularmente leitosa que não parecia encastoada por um profissional. A mulher acendeu um candeeiro, procurou numa gaveta e finalmente tirou uns auscultadores. Momentaneamente iluminada na parede ao lado da secretária estava uma citação das Parábolas de Franz Kafka:
Agora as Sereias têm uma arma ainda mais fatal
do que o seu canto, ou seja, o seu silêncio…
Talvez alguém pudesse ter escapado ao seu cantar;
mas ao seu silêncio, certamente nunca.
A mulher apagou a luz com um gesto da mão e dirigiu-se para a porta, na semiobscuridade.
Na sala de controle certificou-se rapidamente de que estava tudo em ordem. Através da janela podia ver alguns dos cento e trinta e um radiotelescópios que se estendiam por dezenas de quilômetros através do deserto restolhoso do Novo México, qual estranha espécie de flor mecânica esticando-se na direção do céu. A tarde estava no princípio e ela estivera levantada até tarde na noite anterior. A radioastronomia pode fazer-se durante o dia, porque o ar não dispersa as ondas de rádio do Sol como dispersa a luz visível normal. Para um radiotelescópio apontando para qualquer lado menos para muito perto do Sol, o céu é negro como breu. Exceto para as ondas de rádio.
Para além da atmosfera da Terra, do outro lado do céu, há um universo fervilhante de radiemissão. Estudando ondas de rádio podemos aprender coisas a respeito de planetas, estrelas e galáxias, acerca da composição de grandes nuvens de moléculas orgânicas que pairam entre as estrelas, acerca da origem, da evolução e do destino do universo. Mas todas estas radiemissões são naturais — causadas por processos físicos, elétrons espiralando no campo magnético galáctico, ou moléculas interestelares colidindo umas com as outras, ou os ecos distantes do vermelho do Big Bang passando dos raios gama na origem do universo para as domesticadas e frias ondas de rádio que enchem todo o espaço da nossa época.
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