Com os olhos ainda fechados, toquei no peito. Tinha a camisola vestida. Se adormecera sem me despir, isso significava que estava de vigia. Apeteceu-me chamar: «Olaf!», e sentei-me bruscamente.
Estava num hotel e não no Prometheus. Lembrei-me de tudo: dos labirintos da estação, da rapariga, da minha iniciação, do seu medo, do penhasco azulado do Terminal sobre o lago negro, da cantora, dos leões…
Ao procurar a casa de banho encontrei ocasionalmente a cama: estava numa parede e descia num rotundo quadrado cor de pérola quando se premia qualquer coisa. Na casa de banho não havia banheira, não havia nada além de placas brilhantes no tecto e uma pequena depressão para os pés, forrada de um plástico esponjoso. Também não parecia um chuveiro. Senti-me como um homem de Neanderthal. Despi-me rapidamente e depois fiquei com a roupa na mão, pois não havia cabides. Mas havia um pequeno compartimento na parede e atirei tudo para lá. Perto, vi três botões: azul, encarnado e branco. Premi o branco. A luz apagou-se. O vermelho. Ouviu-se um som esguichante, mas não era água e sim um vento forte, que soprava ozono e mais qualquer coisa. Envolveú-me; gotas densas e cintilantes formaram-se-me na pele, efervesceram e evaporaram-se e nem sequer tive a sensação de humidade. Era como se uma quantidade de eléctrodos macios me massajasse os músculos. Experimentei o botão azul e o vento mudou. Agora parecia trespassar-me, o que me causava uma sensação muito peculiar. Pensei imediatamente que se uma pessoa se habituasse àquilo acabaria por gostar. Na Adaptação, em Luna, não tinham aquilo; tinham apenas casas de banho vulgares. Perguntei a mim mesmo porquê. O meu sangue circulava com mais força e eu sentia-me bem. O único problema era não saber como lavar os dentes nem com quê. Desisti, a esse respeito. Na parede havia mais uma porta onde se lia: «Roupões de banho.» Olhei lá para dentro, mas não vi roupões nenhuns: apenas três garrafas metálicas, um pouco parecidas com sifões. Mas, entretanto, eu secara por completo e não precisava de me enxugar.
Abri o compartimento onde metera a roupa e tive um choque: estava vazio. Ainda bem que colocara as cuecas em cima do compartimento! Apenas com elas vestidas, voltei ao quarto e procurei um telefone, a fim de averiguar o que acontecera à minha roupa. Foi uma trabalheira. Finalmente lá o encontrei junto da janela — mentalmente, ainda chamava janela ao écran da televisão. Saltou da parede quando comecei a praguejar alto: creio que reagiu ao som da minha voz. Que mania idiota aquela de esconder as coisas nas paredes! Perguntei pela minha roupa ao recepcionista que atendeu.
— Pô-las no compartimento da lavandaria — respondeu um barítono suave. — Estará pronta dentro de cinco minutos.
«Admissível», pensei. Sentei-me perto da secretária, cujo topo se colocou prestavelmente debaixo fio meu cotovelo no momento em que me inclinei para a frente. Como funcionava aquilo? Não havia necesidade de me preocupar com esses pormenores; a maioria das pessoas beneficia da tecnologia da sua civilização sem a entender.
Fiquei ali sentado nu, apenas com as cuecas, a considerar as possibilidades. Podia ir para a Adaptação. Se se tratasse apenas de uma apresentação da tecnologia e dos costumes, não teria hesitado, mas em Luna reparara que, ao mesmo tempo, tentavam instilar-nos maneiras especiais de abordar os assuntos e até o julgamento dos fenómenos. Por outras palavras, começavam com uma escala de valores preparada e se uma pessoa os não aceitava, atribuíam isso — e, em geral, tudo — a conservadorismo, resistência subconsciente, hábitos enraizados, etc. Eu não tinha intenção nenhuma de desistir desses hábitos e dessa resistência enquanto não estivesse convencido de que aquilo que me ofereciam era melhor — e as lições da noite anterior não tinham feito nada para que mudasse de ideias. Não queria escola infantil nem reabilitação, certamente não com tal polidez e imediatamente. Era curioso não me terem aplicado a tal betrização. Tinha de descobrir porquê.
Podia procurar um de nós: Olaf. Isso estaria em evidente contravenção das recomendações da Adaptação. Sim, porque eles nunca ordenavam; repetiam constantemente que agiam no melhor dos meus interesses, que podia fazer o que me apetecesse, até saltar da Lua para a Terra (o chistoso Dr. Abs), se tinha assim tanta pressa. Por mim, estava decidido a ignorar a Adaptação, mas isso podia não convir a Olaf. De qualquer modo, escrever-Ihe-ia. Tinha a sua morada.
Trabalho. Tentar arranjar emprego? Em que qualidade? Piloto? E efectuar carreiras Marte-Terra-Marte? Era especialista nesse género de coisa, mas…
De súbito, lembrei-me de que tinha algum dinheiro. Não era exactamente dinheiro, pois agora tinha outro nome qualquer, mas isso não fazia diferença nenhuma, quanto a mim, na medida em que tudo se podia obter com ele. Pedi à recepcionista uma ligação para a cidade. No receptor, um cantar distante. O telefone não tinha números nem disco. Precisaria de indicar o nome do banco? Tinha-o escrito num cartão, mas o cartão estava com a minha roupa. Fui ver à casa de banho e lá estava no compartimento, recém-lavada. Os meus objectos, incluindo o cartão, estavam nas algibeiras.
O banco não era um banco: chamava-se Omnilox. Disse o nome e. rapidamente, como se tivessem esperado o telefonema, uma voz áspera respondeu:
— Aqui Omnilox.
— Chamo-me Bregg, Hal Bregg, e disseram-me que tinha uma conta aberta aí… Gostaria de saber qual o seu montante.
Ouvi um estalido e outra voz, mais alta, perguntou:
— Hal Bregg?
— Sim.
— Quem abriu a conta?
— Cosnav, Cosmic Navigation, por ordem do Instituto Planetológico e da Comissão de Assuntos Cósmicos das Nações Unidas, mas isso foi há 127 anos.
— Tem alguma identificação?
— Não. Tenho apenas um cartão da Adaptação de Luna, do director Oswann…
— Isso serve. A situação da conta: 26 407 ets.
— Ets?
— Sim. Deseja mais alguma coisa?
— Gostaria de levantar algum din… quero dizer, alguns ets.
— Em que forma? Talvez deseje um caLiter?
— Que é isso? Um livro de cheques?
— Não. Poderá pagar imediatamente a contado.
— Está bem.
— De que importância deverá ser o caLster?
— Francamente não sei… cinco mil…
— Cinco mil. Óptimo. Quer que lho mandemos ao hotel?
— Sim. Espere… esqueci-me do nome deste hotel.
— Não é daquele de onde está a falar?
— É o Alcaron. Mandar-lhe-emos o calster imediatamente. Só mais uma coisa: a sua mão direita não se modificou, pois não?
— Não. Porquê?
— Por nada. Se se tivesse modificado, teríamos de adaptar o calster. Recebê-lo-á muito em breve.
— Obrigado — agradeci, e desliguei.
Vinte e seis mil… A quanto equivaleria isso? Não fazia a mínima ideia. Qualquer coisa começou a zumbir. Um rádio? Era o telefone. Levantei o auscultador.
— Bregg?
— Sim. — O meu coração bateu mais depressa, mas apenas durante um momento; reconheci a voz dela. — Como soube onde eu estava? — perguntei, pois ela não falou imediatamente.
— Soube por um infor. Bregg… Hal… escute, queria explicar-lhe…
— Não tem de explicar nada, Nais.
— Está zangado. Mas tente compreender…
— Não estou zangado.
— Francamente, Hal… Venha hoje a minha casa. Vem?
— Não, Nais. Diga-me, por favor: quanto é 26 mil ets?
— Quanto? Que quer dizer? Hal, tem de vir.
— Bem… quanto tempo se pode viver com essa quantia?
— Quanto tempo quiser. No fim de contas, viver não custa nada. Mas esqueçamos isso. Hal, se quisesse…
— Espere. Quantos se gasta num mês?
Читать дальше