— Excelente, senhor. Poderá ser enviado por ulder, o que não lhe custará nada.
— Deveras? Eu também sigo para lá de ulder.
— Nesse caso, indique-nos a data e pô-lo-emos no seu ulder. Será a maneira mais simples. A não ser que prefira…
— Não, não. Como disse está bem.
Paguei o automóvel — afinal o calster dava muito jeito — e saí da loja de antiguidades envolto no cheiro de couro e borracha. Exótico.
Com a roupa não tive sorte. Daquilo que conhecia não existia quase nada. Pelo menos, descobri o segredo das misteriosas garrafas que se encontravam no hotel, no compartimento onde se lia: «Roupões de banho.» Náo só roupões desse género, mas também fatos, peúgas, camisolas, roupa interior — era tudo feito poV spray. Compreendi como isso podia agradar às mulheres, pois fazendo esguichar de algumas dúzias de garrafas um líquido que solidificava imediatamente em tecidos de textura macia ou áspera — veludo, pele ou metal maleável —, podiam ter uma nova criação sempre que quisessem, só para uma ocasião. Claro que nem todas as mulheres o faziam pessoalmente: havia salões especiais de plasticização (era então isso que Nais fazia!). Mas a moda de roupa justa que resultava de tal processo não me atraía muito. E vestir-me mediante o manejo de um sifão parecia-me uma chatice desnecessária. Havia algumas coisas prontas a vestir, mas não me serviam. Até os tamanhos maiores eram quatro números abaixo do meu. No fim, decidi-me por roupas em garrafas, pois compreendi que a minha camisa não aguentaria muito mais tempo. Claro que podia mandar vir o resto das minhas coisas do Prometheus, mas a bordo não tinha fatos nem camisas brancas, vestuário que era muito pouco preciso a quem se encontrava nas imediações da constelação de Fomalhaut. Comprei também diversos pares de calças semelhantes ao cotim, que pareciam calças de jardineiro, mas que tinham pernas relativamente largas e cuja altura poderia ser aumentada. Paguei um et por tudo, ou seja, o preço das calças. O resto foi de graça. Pedi que mandassem as roupas para o hotel e deixei-me convencer a ir a uma loja de modas, por simples curiosidade. Fui recebido por um indivíduo com ar de artista, que começou por me avaliar visualmente e concordou que eu deveria usar roupas soltas. Compreendi que não se encontrava particularmente encantado comigo. Nem eu com ele. Acabei por adquirir algumas camisolas, que ele me fez enquanto eu esperava. Parei de braços levantados e ele deitou-se ao trabalho, a esguichar de quatro garrafas ao mesmo tempo. O líquido no ar, branco como espuma, assentava quase instantaneamente e dele surgiram camisolas de várias cores. Uma tinha uma risca atravessada no peito, vermelho sobre preto. Reparei que a parte mais difícil era terminar a gola e as mangas. Isso exigia claramente habilidade.
Mais rico com a experiência, que aliás me não custara nada, encontrei-me na rua, sob o sol quente do meio-dia. Havia menos gleeders, mas, em contrapartida, por cima dos telhados, viam-se mais veículos em forma de charuto. As pessoas desciam nas escadas rolantes para níveis mais baixos; toda a gente tinha pressa, só eu dispunha de tempo. Durante cerca de uma hora aqueci-me ao sol, debaixo de um rododendro com uma espécie de cascas lenhosas deixadas pelas folhas mortas, e depois regressei ao hotel. No átrio, em baixo, adquiri um aparelho para me barbear. Quando comecei a barbear-me na casa de banho notei que tinha de me inclinar ligeiramente para usar o espelho, embora me lembrasse de que anteriormente fora capaz de me ver erecto. A diferença era mínima, mas um momento antes, ao despir a camisa, notara algo de estranho: ela estava mais curta. Como se tivesse encolhido. Observei-a cuidadosamente. Nem as mangas nem o colarinho apresentavam qualquer mudança. Coloquei-a em cima da mesa. Era a mesma camisa, mas quando voltei a vesti-la quase me não chegava abaixo da cintura. Eu é que mudara, não a camisa; crescera. Pensamento absurdo, mas que me preocupou. Telefonei ao infor do hotel a pedir a morada de um médico, de um especialista de medicina cósmica. Se fosse possível, preferia não ir a correr para a Adaptação. Após um breve silêncio, quase como se o autómato do outro lado hesitasse, ouvi a morada. Morava um médico na mesma rua, a alguns quarteirões de distância. Fui consultá-lo. Um robot conduziu-me a uma sala grande e penumbrenta, onde não se encontrava ninguém.
O médico não tardou a aparecer. Parecia ter saído de um retrato de família do escritório do meu pai. Era baixo, mas robusto, e tinha cabelo grisalho e uma barbicha branca e usava óculos de aros de ouro — os primeiros óculos que via num rosto humano desde que desembarcara. O seu nome era Dr. Juffon.
— Hal Bregg? — perguntou. — É o senhor?
— Sou, sim.
Observou-me em silêncio.
— De que se queixa?
— Na realidade, de nada, doutor. Sucede apenas que… — e contei-lhe as minhas estranhas observações.
Sem uma palavra, abriu uma porta à minha frente. Entrei num pequeno consultório.
— Dispa-se, por favor.
— Tudo? — perguntei, quando só me restavam as calças.
— Sim.
Examinou-me nu.
— Já não existem homens como você — murmurou, como se falasse consigo próprio.
Auscultou-me o coração através de um estetoscópio frio, que me encostou ao peito. «E em mil anos isso nào mudará», pensei, e o pensamento causou-me um pequeno prazer. Mediu-me a altura e depois mandou-me deitar. Observou a cicatriz debaixo da clavícula direita, mas não disse nada. Examinou-me durante quase umã hora.
Reflexos, capacidade pulmonar, electrocardiograma, tudo. Quando me vesti, sentou-se a uma pequena secretária preta. A gaveta rangeu quando a abriu à procura de qualquer coisa. Depois de tanta mobília que seguia uma pessoa, como que possessa, a velha secretária agradou-me.
— Que idade tem?
Expliquei-lhe a situação.
— Tem o corpo de um homem na casa dos trinta — observou. — Hibernou?
— Hibernei.
— Quanto tempo?
— Um ano.
— Porquê?
— Regressámos com propulsão acelerada. Foi necessário estarmos dentro de água. Havia a absorção do choque, como o doutor compreende, e portanto, como seria difícil conservarmo-nos conscientes dentro de água durante um ano…
— Claro. Pensei que tivesse hibernado mais tempo. Podemos facilmente subtrair esse ano. Em vez de quarenta, apenas trinta e nove.
— E… as outras coisas?
— Não é nada, Bregg. Quanto apanhou?
— Aceleração? Dois gs.
— Aí tem. Pensou que estava a crescer? Não está. Trata-se simplesmente dos discos intervetebrais. Sabe o que são?
— Sei. Bocados de cartilagem na espinha…
— Exactamente. Estão a expandir-se, agora que se libertou de todo esse peso. Qual é a sua altura?
— Quando parti, 1,97 m.
— E depois disso?
— Não sei. Não me medi. Havia outras coisas em que pensar, como sabe.
— Agora tem 2,02 m.
— Maravilhoso! E isso continuará durante muito tempo?
— Não. Provavelmente já terminou… Como se sente?
— Óptimo.
— Parece tudo demasiado leve, não parece?
— Agora cada vez menos. Na Adaptação, em Luna, deram-me comprimidos para reduzir a tensão muscular.
— Desgravitizaram-no?
— Sim, nos primeiros três dias. Disseram que não era suficiente, ao fim de tantos anos, mas por outro lado não quiseram manter-nos fechados mais tempo, depois de tudo quanto…
— E o seu estado de espírito?
— Bem… — hesitei. — Há momentos… Tenho a sensação de que sou um homem de Neanderthal que foi trazido para a cidade…
— Que tenciona fazer?
Falei-lhe da vila.
— Podia fazer pior, talvez, mas…
— A Adaptação seria melhor?
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