— Sério? É interessante. Era um doutorzinho muito activo… Sabia que aguentei 79 gs para ele, durante segundo e meio?
— Não está a brincar?
Sorri.
— Tepho-o escrito. Mas isso foi há cento e trinta anos. Agora quarenta já seriam de mais para mim.
— Bregg, hoje ninguém aguentaria vinte!
— Porquê? Por causa da betrização?
Ficou calado. Pareceu-me que sabia qualquer coisa que não me queria dizer. Levantei-me.
— Bregg, já que falámos do assunto, tenha cuidado.
— Com quê?
— Consigo e com os outros. O progresso nunca é grátis. Libertámo-nos de mil perigos e conflitos, mas tivemos de o pagar. A sociedade amoleceu, enquanto você é… você pode ser duro. Compreende-me?
— Compreendo — respondi, a pensar no homem que se rira no restaurante, mas que se remetera ao silêncio quando eu me aproximara dele. — Doutor, acabo de me lembrar de uma coisa… A noite passada encontrei um leão… ou melhor, dois leões. Por que seria que não me fizeram mal nenhum?
— Agora não há predadores, Bregg… A betrização… Encontrou-os a noite passada? E que fez?
— Cocei-lhes o pescoço — respondi, e exemplifiquei. — Mas aquela história da Ilíada é um exagero, doutor. Apanhei um grande susto. Quanto lhe devo?
— Não pense nisso. E se alguma vez precisar…
— Obrigado.
— Mas não guarde para muito tarde… — acrescentou, quase como se falasse para si mesmo, enquanto eu saía.
Só na escada compreendi o significado das suas palavras: tinha quase noventa anos…
— Regressei ao hotel. No átrio estava um barbeiro. Um robot, naturalmente. Eu estava muito guedelhudo, com uma quantidade de cabelo a saltar as orelhas. Nas têmporas era onde tinha mais cabelos grisalhos. Quando o trabalho ficou pronto, pareceu-me que tinha um ar um pouco menos selvagem. Numa voz melodiosa, o robot perguntou-me se queria que escurecesse o cabelo.
— Não — respondi.
— Aprex?
— Para que é isso?
— Para as rugas.
Hesitei. Sentia-me estúpido, mas talvez o doutor tivesse razão.
— Está bem — concordei.
O robot cobriu-me a cara com uma camada de geleia de cheiro forte, que endureceu e se transformou numa máscara. Depois aplicou-me compressas e eu senti-me grato por ter o rosto tapado.
Subi. Os embrulhos com o vestuário líquido já estavam no meu quarto. Despi-me e fui à casa de banho, onde havia um espelho.
Sim, podia inspirar terror. Ignorara que parecia um gigante de circo. Peitorais entalhados, torso, todo eu era músculos. Quando levantava o braço e flectia o peito, aparecia nele uma cicatriz da largura da palma da minha mão. Tentei ver a outra, perto da omoplata, por causa da qual me tinham chamado um felizardo, porque se o estilhaço tivesse penetrado mais três centímetros para a esquerda me teria desfeito a espinha. Bati na tábua do meu estômago.
— Animal — disse, virado para o espelho.
Apetecia-me um banho, um banho a sério, não o vento de ozono, e pensei com satisfação antecipada na piscina da vila. Resolvi vestir uma das coisas novas, mas não fui capaz de me separar das calças. Por isso vesti apenas a camisola branca, embora preferisse muito mais a velha camisola preta de cotovelos remendados, e dirigi-me para o restaurante.
Metade das mesas estavam ocupadas. Passei por três salas até chegar ao terraço, de onde podia ver os grandes bulevares e a infindável sucessão de gleeders. Sob as nuvens, como o pico de uma montanha azul no ar distante, erguia-se o Terminal.
Pedi o almoço.
— Que quer? — perguntou o robot, e fez menção de me entregar uma lista.
— Não tem importância — respondi. — Um almoço normal.
Só quando comecei a comer notei que as mesas à minha volta estavam vazias. Procurara isolar-me, automaticamente. Nem sequer me apercebera disso. Não sabia o que estava a comer. Já nãotinha a certeza de haver tomado a decisão certa. Umas férias, como se quisesse recompensar-me, já que mais ninguém tinha pensado nisso. O criado aproximou-se silenciosamente.
— Sr. Bregg?
— Diga.
— Tem uma visita… no seu quarto.
— Uma visita?
Pensei imediatamente em Nais. Bebi o resto do líquido escuro e efervescente e levantei-me. Senti olhares fixos nas minhas costas, enquanto me afastava. Teria sido agradável poder serrar lOcm à minha altura. No meu quarto encontrava-se sentada uma mulher jovem, que nunca tinha visto antes. Usava um vestido cinzento flocoso, com tufos encarnados nos braços.
— Sou da Adaptação — apresentou-se. — Hoje falei consigo.
— Ah, foi você?!
Tornei-me um pouco mais reservado. Que queriam agora de mim?
Sentei-me devagar.
— Como se sente?
— Óptimo. Hoje fui a um médico, que me examinou. Está tudo em boa ordem. Aluguei uma vila. Quero ler um pouco.
— Muito sensato. Clavestra é ideal para isso. Terá montanhas, sossego…
Ela sabia que era Clavestra. Andariam a espiar-me? Fiquei imóvel, à espera.
— Trouxe-lhe uma coisa… da nossa parte.
Apontou para um pequeno embrulho que estava em cima da mesa.
— É o mais moderno que há — afirmou, com uma animação que parecia artificial. — Antes de se deitar liga esta máquina e ao fim de cerca de uma dúzia de noites aprenderá da maneira mais fácil possível, sem qualquer esforço, muitas coisas úteis.
— Deveras? Isso é útil.
Ela sorriu-me e eu sorri-lhe também, como um aluno bem comportado.
— É psicóloga?
— Sou. Adivinhou.
Hesitou e eu compreendi que queria dizer qualquer coisa.
— Diga o que tem a dizer — convidei.
— Não ficará zangado comigo?
— Por que haveria de ficar zangado?
— Porque… compreende… a maneira como está vestido é um pouco…
— Bem sei. Mas gosto destas calças. Talvez com o tempo… — Ah, não me refiro às calças! A camisola.
— A camisola? — Fiquei surpreendido. — Fizeram-na hoje para mim. É a última palavra em moda, não é?
— Sim, mas não devia tê-la inflado. Dá-me licença?
— Faça favor — respondi, suavemente.
Ela inclinou-se para a frente e tocou-me no peito com os dedos estendidos. Soltou um pequeno grito.
— Que tem aí?
— Nada, além de mim próprio — redargui, com um sorriso cínico.
Apertou os dedos da mão direita com os da esquerda e levantou-se. De súbito, a minha calma, misturada com uma satisfação maliciosa, tomou-se fria como gelo.
— Por que não se senta?
— Mas… Lamento muitíssimo, eu…
— Não pense nisso. Trabalha há muito tempo na Adaptação?
— Vou no segundo ano.
— Ah! É o seu primeiro paciente?… — Apontei um dedo a mim próprio e ela corou um pouco. — Posso perguntar-lhe uma coisa?
As suas pálpebras palpitaram. Terá julgado que lhe ia fazer uma pergunta inconveniente?
— Com certeza.
— Como conseguem que o céu seja visível a todos os níveis da cidade?
Arrebitou.
— É muito simples: televisão. Era assim que lhe chamavam há muito tempo. Nos tectos estão instalados écrans que transmitem o que está por cima da Terra — o céu, as nuvens…
— Mas os níveis não são assim tão altos… Têm edifícios de quarenta andares…
— É uma ilusão — respondeu, a sorrir. — Os edifícios só são parcialmente reais; a sua continuação é uma imagem. Compreende?
— Compreendo como se faz, mas não compreendo a razão.
— É para que as pessoas que vivam a cada nível não se sintam privadas em sentido nenhum…
— Ah! sim, isso é inteligente. Mais uma coisa. Vou comprar livros. Pode sugerir-me algumas obras da sua especialidade? Uma visão global…
— Quer estudar Psicologia? — Estava surpreendida.
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