— Não. Mas gostaria de saber o que se fez em todo este tempo.
— Recomendo-lhe Mayssen.
— Que é isso?
— Um manual escolar.
— Preferia algo maior. Extractos, monografias… É sempre melhor ir à fonte.
— Isso poderá ser… derfiasiado difícil.
Sorri cortesmente.
— Talvez não. Qual seria a dificuldade?
— A psicologia tomou-se muito matemática.
— Também eu. Pelo menos até à altura da minha partida, há cento e tal anos. Preciso de saber mais?
— Mas não é um matemático…
— Por profissão, não sou, mas estudei a matéria. No Prometheus. Havia muito tempo livre, sabe?
Surpreendida e desconcertada, não disse mais nada. Deu-me um bocado de papel com uma lista de títulos. Quando se foi embora, voltei para a secretária e sentei-me pesadamente. Até ela, uma empregada da Adaptação… Matemática? Como era possível? Um homem selvagem. «Odeio-os», pensei, «odeio-os». Mas odiava quem? Não sabia. Toda a gente. Sim, toda a gente. Tinha sido ludibriado. «Mandaram-me para lá sem saber o que estavam a fazer. Não devia ter regressado, como Venturi, Arder, Thomas… mas regressei para os assustar, para andar por aí como uma consciência culpada que ninguém quer. Sou inútil.» Se ao menos fosse capaz de chorar! Q Arder era. Dizia que não deviamos ter vergonha das lágrimas. Talvez eu tivesse mentido ao médico. Nunca tinha falado disso a ninguém, mas não tinha a certeza se o teria feito por mais alguém. Talvez tivesse. Pelo Olaf, mais tarde. Mas não tinha a certeza absoluta disso. Arder! Destruíram-nos e nós acreditávamos neles, nunca deixávamos de sentir que a Terra estava por nós, presente, tinha fé em nós, se importava connosco. Ninguém falava disso. Para quê falar do que é óbvio?
Levantei-me. Não podia estar quieto. Comecei a andar de um lado para o outro.
Bastava. Abri a porta da casa de banho, mas claro, não havia água para chapinhar a cara. Estúpido. Histerismo.
Voltei para o quarto e comecei a fazer as malas.
Passei a tarde numa livraria. Que não tinha livros. Não tinha sido impresso nenhum havia quase meio século. E como eu os desejara, depois dos microfilmes que constituíam a biblioteca do Prometheus! Não teria essa sorte. Já não era possível caminhar entre estantes, sopesar os volumes na mão, sentir-lhes o peso, a promessa de apaixonante leitura. A livraria parecia mais um laboratório de electrónica. Os livros eram cristais com o conteúdo gravado. Podiam ser lidos com a ajuda de um opton, que era semelhante a um livro, mas tinha apenas uma página entre as capas. Um toque e apareciam nele sucessivas páginas de texto. Mas os optons eram pouco usados, disse-me o robot vendedor. O público preferia os lectons: os lectons liam alto, podiam ser regulados para qualquer voz, ritmo e modulação. Só se imprimiam, numa imitação plástica de papel, publicações científicas, que tinham uma distriuição muito limitada. Por isso, todas as minhas aquisições couberam numa algibeira, embora devessem constar de quase 300 títulos. Um punhado de milho de cristal, os meus livros. Escolhi um certo número de obras de história e sociologia, algumas sobre estatística e demografia, e o que a rapariga da Adaptação me recomendara sobre psicologia. Um par dos maiores manuais de matemática — maiores, claro, no aspecto do conteúdo e não do seu tamanho físico. O robot que me serviu era ele próprio uma enciclopédia, em virtude de, como se disse, estar directamente ligado, por intermédio de catálogos electrónicos, a padrões de todos os livros da Terra. Por norma, uma livraria só tinha «cópias» simples de livros e quando alguém queria determinado livro o conteúdo da obra era gravado num cristal.
Os originais — cristomatrizes — não se viam; estavam gravados atrás de chapas de aço esmaltadas, azul-pálido. Assim, podia-se dizer que um livro era impresso todas as vezes que alguém o queria. Os problemas das edições, da sua quantidade e do seu esgotamento tinham cessado de existir. Na realidade, tratava-se de um grande progresso, mas eu lamentei o desaparecimento dos livros. Ao ser informado de que havia livrarias de segunda mão que tinham livros de papel, procurei uma. Fiquei decepcionado, pois não havia praticamente obras científicas. Literatura ligeira, alguns livros infantis e algumas séries de antigos periódicos.
Comprei (só se pagavam os livros antigos) alguns contos de fadas de quarenta anos atrás, a fim de ficar a saber o que consideravam, agora, contos de fadas, e dirigi-me a uma loja de artigos de desporto. Aí a minha decepção não teve limites. O atletismo só existia numa forma insignificante. Corrida, lançamento, saltos, natação; mas quase não havia desportos de combate. Não havia boxe e aquilo a que chamavam «luta» era perfeitamente ridículo, uma troca de empurrões em vez de um combate respeitável. Observei um combate do campeonato do mundo na sala de projecções do estabelecimento e julguei que rebentava de raiva. Em certas passagens desatei a rir como um maluco. Fiz perguntas a respeito do estilo livre americano, do judo, do ju-jitsu, mas ninguém percebeu do que estava a falar. Compreensível, dado que o râguebi tinha morrido sem deixar herdeiros, como uma actividade em que se verificavam recontros violentos e danos físicos. Havia hóquei, mas não era hóquei! Jogavam com equipamentos tão inflados que pareciam enormes bolas. Era interessante ver as duas equipas chocar uma com a outra, mas tratava-se de uma farsa e não de um desafio. Mergulho, sim, mas só de uma altura de quatro metros. Pensei imediatamente na minha (minha!) piscina e comprei uma prancha desdobrável, para acrescentar à que devia ter em Clavestra. Aquela desintegração era obra da betrização. Que touradas, lutas de galos e outros espectáculos sangrentos tivessem desaparecido, não me incomodava, e também nunca fora entusiasta do boxe profissional. Mas a papa tépida que restava não me atraía minimamente. Tolerara apenas no negócio turístico a invasão do desporto pela tecnologia. Mas ela aumentara, especialmente nos desportos subaquáticos.
Dei uma olhadela a vários equipamentos para mergulhar: pequenos torpedos eléctricos que se podia usar para viajar ao longo do fundo de um lago; barcos a motor; hidroplacas que se moviam sobre uma almofada de ar comprimido, e microgleders aquáticos, tudo munido de dispositivos especiais de segurança contra acidentes. As corridas, que desfrutavam de considerável popularidade, não as considerava um desporto. Claro que não havia cavalos nem automóveis: máquinas accionadas por controlo à distância disputavam as corridas e podia-se apostar nelas. A competição perdera a importância. Explicaram-me que os limites da capacidade física do homem tinham sido atingidos e que os recordes existentes só poderiam ser derrubados por uma pessoa anormal, por algum monstro de força ou velocidade. Racionalmente, tive de concordar com iso. E a popularidade universal das disciplinas atléticas que tinham sobrevivido à dizimação merecia orgulho. No entanto, ao fim de três horas de observação saí, deprimido.
Pedi que me enviassem para Clavestra o equipamento de ginástica que tinha escolhido. Depois de pensar um bocado, resolvi não comprar um barco a motor. Qugiiaomprar um iate, mas não havia nenhum decente, isto é, com velas sériiye bolinas; havia apenas uns barcos miseráveis que asseguravam tal estabilidade que me era impossível compreender como velejar neles poderia dar prazer a alguém.
Anoitecia quando regressei ao hotel. Do ocidente avançaram flocosas nuvens avermelhadas, o Sol já se pusera, a Lua começava a mostrar o seu quarto crescente e no zénite brilhava outra, um enorme satélite qualquer. No alto, por cima dos edifícios, passavam enxames de máquinas voadoras. Havia menos peões e mais gleeders e estavam a aparecer, a atravessar a estrada, aquelas luzes metidas em aberturas, cujo propósito ainda desconhecia. Meti por um caminho de regreso diferente e fui ter a um grande jardim. Ao princípio pensei que era o parque do terminal, mas a montanha da estação brilhava ao longe, na parte setentrional e mais elevada da cidade.
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