Contornei o lago. O colosso parecia guiar-me com a sua subida luminosa e imóvel. Sim, era preciso coragem para desenhar tal forma, para lhe dar a crueldade do precipício, a obstinação e a aspereza de penhascos e picos, mas sem cair na imitação mecânica, sem perder nada, sem falsificar. Voltei à muralha de árvores. O azul do Terminal, pálido contra o céu negro, ainda se via através dos ramos. Mas, finalmente, desapareceu, oculto pelo bosque. Afastei com as mãos os gravetos; silvas prendiam-se à camisola e batiam nas pernas das minhas calças; o orvalho, sacudido de cima, caía como chuva na minha cara. Meti algumas folhas na boca e mastiguei-as; eram folhas novas e amargas. Pela primeira vez desde o meu regresso senti que já não desejava, não procurava, não necessitava de uma única coisa; bastava-me andar às cegas para a frente, através daquela escuridão, no bosque murmurante. Teria imaginado que seria assim, 10 anos antes?
O matagal abriu-se e surgiu um carreiro sinuoso. O saibro rangeu debaixo dos meus pés, a brilhar levemente. Embora preferisse a escuridão, caminhei a direito para um círculo de pedra, onde se encontrava de pé uma figura humana. Não sabia de onde vinha a luz que a banhava; o lugar estava deserto e à sua volta havia bancos, uma mesa caída e areia solta e funda. Senti os meus pés enterrarem-se nela e achei-a morna, apesar da frescura da noite.
Debaixo de uma abóbada suportada por colunas rachadas e em ruínas encontrava-se uma mulher de pé, como se estivesse à minha espera. Pude ver-lhe a cara, o fluir de centelhas dos discos de diamantes que lhe ocultavam as orelhas, o vestido branco que a sombra da noite tomava prateado. Aquilo não era possível. Um sonho? Encontrava-me ainda a dúzias de passos dela quando começou a cantar. Entre as árvores invisíveis a sua voz era fraca, quase infantil, e eu não conseguia distinguir as palavras que cantava. Mas talvez não ouvesse palavras. Tinha a boca semiaberta, como se bebesse, e no seu rosto não havia nenhum sinal de esforço, não havia nada além de um olhar fixo, como se tivesse visto alguma coisa impossível de ver e fosse disso que cantava. Receoso de que me visse, caminhei cada vez mais devagar. Já me encontrava no halo de luminosidade que cercava o círculo de pedra. A sua voz tomou-se mais forte, a apelar para a escuridão, a suplicar; os seus braços pendiam como se tivesse esquecido que os tinha, como se naquele momento não tivesse mais nada além da voz e se perdesse nela, como se tivesse deitado fora tudo o mais e estivesse a dizer adeus, sabendo que com o último som moribundo algo mais do que a canção terminaria. Nunca imaginara que tal coisa fosse possível. Ela calou-se e eu continuei a ouvir a sua voz. De súbito, soaram passos ligeiros atrás de mim: era uma rapariga que corria para a cantora, seguida por alguém. Com uma gargalhada curta e gutural voou pelos degraus acima e correu através da cantora. Ouem a perseguia surgiu à minha frente, em contornos escuros, e desapareceram ambos. Ouvi ainda uma vez o riso provocante da rapariga e fiquei como um bloco de madeira, pregado na areia, sem saber se devia rir ou chorar. A cantora inexistente trauteava suavemente qualquer coisa. Não quis ouvir. Afastei-me na escuridão como uma criança a quem tivessem mostrado a falsidade de um conto de fadas. Tinha sido uma espécie de profanação. A sua voz perseguiu-me, enquanto eu caminhava. Descrevi uma curva, o caminho continuava, e vi sebes a brilhar tenuemente, ramos húmidos de folhas suspensas sobre uma cancela de metal. Abri-a. Havia mais luz, atrás dela. As sebes terminaram numa clareira larga; da erva irrompiam pedregulhos, um dos quais se moveu e aumentou em tamanho. Vi as chamas pálidas de dois olhos. Parei. Era um leão. O animal levantou-se pesadamente, primeiro os quartos dianteiros. Finalmente vio-o todo, a cinco passos dc mim. Tinha uma juba rala e emaranhada. Espreguiçou-se uma, duas vezes, e com uma lenta ondulação dos ombros aproximou-se de mim, sem fazer o mínimo ruído. Mas eu já me refizera.
— Pronto, pronto, porta-te bem — disse.
Nâo podia ser real, era um fantasma como a cantora, como os outros que vira junto dos carros pretos… Bocejou a um passo de distância. Na caverna escura da boca brilharam as presas. Fechou as mandíbulas com um som que lembrou um cadeado a ser fechado e chegou-me às narinas o fedor do seu hálito.
Rosnou. Senti pingos da sua saliva e, antes que tivesse tempo para me aterrorizar, bateu-me no quadril com a enorme cabeça e roçou-se contra mim, a ronronar. Senti um estremecimento idiota no peito…
Apresentou-me a parte inferior do pescoço, com a pele pesada e solta. Meio consciente, comecei a coçá-lo, a afagá-lo, e ele ronronou ainda mais. Atrás dele brilhou outro par de olhos, outro leão… não, era uma leoa, que o afastou. A garganta do leão emitiu um som, mas era um ronrom e não um rugido. A leoa persistiu. Ele bateu-lhe com uma pata e ela rosnou furiosamente.
«Isto ainda acabará mal», pensei. Estava indefeso e os leões estavam tão vivos e eram tão genuínos quanto era possível imaginar. Encontrava-me entre o fedor forte dos seus corpos. A leoa continuava a rugir. De súbito, o leão soltou a juba áspera das minhas mãos, virou a enorme cabeça para ela e rugiu também. Ela estendeu-se no chão, silenciosa.
«Tenho de ir andando», disse-lhes mudamente, apenas com os lábios. Comecei a recuar na direcção da cancela, lentamente. Não foi ura raomento agradável, mas o leão pareceu não reparar em mim. Deitou-se pesadamente e voltou a parecer um pedregulho alongado. A leoa aproximou-se e bateu-Ihe com o focinho.
Quanto fechei a cancela atrás de mim tive de fazer um grande esforço para não desatar a correr. Tinha os joelhos um pouco fracos e a garganta seca, e quando pigarreei o pigarro transformou-se numa gargalhada descabelada. Lembrei-me do que dissera ao leão: «Pronto, pronto, porta-te bem», convencido de que era apenas uma ilusão.
As copas das árvores recortavam-se mais distintamente no céu; começava a alvorecer. Senti-me grato por isso, pois não sabia como sair do parque, que entretanto ficara completamente vazio. Passei pelo círculo de pedra onde a cantora aparecera; na alameda seguinte deparou-se-me um robot a aparar a relva. Não sabia nada a respeito de nenhum hotel, mas disse-me como chegaria à escada rolante mais próxima. Creio que desci vários níveis e ao desembocar na rua, no fundo, fiquei surpreendido por ver de novo o céu por cima de mim. Mas a minha capacidade de me surpreender estava quase esgotada. Já tinha a minha conta de surpresas. Caminhei um bocado. Lembro-me de que, mais tarde, me sentei junto de uma fonte, embora talvez não fosse uma fonte. Levantei-me e caminhei na luz que alastrava do novo dia, até acordar do meu entorpecimento defronte das grandes e brilhantes montras e das letras ígneas do Alcaron Hotel.
No cubículo do guarda-portão, que parecia uma banheira gigantesca virada ao contrário, estava sentado um robot de belo estilo e semitransparente, com braços compridos e delicados. Sem perguntar nada, estendeu-me o livro de registo de hóspedes; assinei-o e subi, a segurar num pequeno bilhete triangular. Alguém — não faço ideia quem — me ajudou a abrir a porta — ou melhor, a abriu por mim. Paredes de gelo e, nelas fogos em circulação. Debaixo da janela, à minha aproximação, emergiu uma cadeira do nada e deslizou para debaixo de mim. O tampo de uma mesa começara também a descer, a formar uma espécie de secretária, mas o que eu queria era uma cama. Não vi nenhuma e nem sequer tentei procurar: deitei-me na fofa carpete e adormeci imediatamente na luz artificial do quarto sem janela, porque o que eu tomara por janela era, evidentemente, uma televisão. Adormeci por isso com o conhecimento de que, atrás da placa de vidro, uma cara gigantesca me fazia caretas, meditava, ria, tagarelava… Libertou-me um sono que parecia a morte, um sono em que até o tempo se imobilizou.
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