Na alta estrada da montanha olhou para o horizonte meridional e captou um vislumbre da constelação Centauro. Na disposição daquelas estrelas, os antigos Gregos tinham visto uma criatura quimérica, meio homem, meio cavalo, que ensinara sageza a Zeus. Mas Ellie nunca conseguia distinguir nenhum padrão que se parecesse, ainda que remotamente, com um centauro. Era Alpha Centauro, a estrela mais brilhante da constelação, que a encantava. Era a estrela mais próxima, apenas a 4,25 anos-luz de distância. Na realidade, Alpha Centauro era um sistema triplo, dois sóis a orbitar-se apertada e mutuamente e um terceiro, mais distante, orbitando ambos. Vistas da Terra, as três estrelas amalgamavam-se e formavam um ponto de luz solitário. Em noites especialmente claras, como aquela, conseguia por vezes vê-lo a pairar algures sobre o México. De vez em quando, em ocasiões em que o ar estivera carregado de poeira do deserto após diversos dias consecutivos de tempestades de areia, ia de carro para as montanhas, a fim de conseguir um pouco de altitude e transparência atmosférica, saía do automóvel e observava o sistema estelar mais próximo. Os planetas eram ali possíveis, embora muito difíceis de detectar. Algum podia estar a orbitar de perto qualquer dos sóis triplos. Uma órbita mais interessante, com alguma estabilidade mecânica celeste razoável, era a figura de um oito, que se desenhava à volta dos dois sóis interiores. Como seria, perguntava-se, viver num mundo com três sóis no céu? Provavelmente ainda mais quente do que o Novo México.
Ellie reparou, com um agradável pequeno estremecimento, que a auto-estrada alcatroada de duas vias estava ladeada de coelhos. Já os vira antes, especialmente quando os seus passeios de carro a tinham levado até ao Texas Ocidental. Estavam com as quatro patas assentes no chão, nas lombas da estrada; mas, à medida que cada um era momentaneamente iluminado pelos novos faróis de quartzo do Thunderbird, erguia-se nas patas traseiras, paralisado, com as dianteiras frouxamente pendentes. Era como se ao longo de quilômetros houvesse uma guarda de honra de coelhos a saudá-la, enquanto ela cortava ruidosamente a noite. Olhavam para cima, mil narizes rosados a estremecer, dois mil olhos brilhantes a luzir no escuro, enquanto aquela aparição se lançava velozmente direita a eles.
Talvez fosse uma espécie de experiência religiosa, pensou. Pareciam ser, na sua maioria, coelhos jovens. Talvez nunca tivessem visto faróis de automóveis. Pensando bem, os dois intensos feixes de luz a deslocar-se a uma velocidade de duzentos e trinta quilômetros por hora constituíam um espetáculo muito interessante. Apesar dos milhares de coelhos que ladeavam a estrada, parecia nunca haver nenhum no meio, perto da linha divisora das duas vias, nunca se verificava uma corridinha atrapalhada para fora do caminho, nunca um triste corpo morto, de orelhas estendidas no pavimento. Mas por que motivo se alinhavam eles ao longo da estrada? Talvez isso tivesse alguma coisa a ver com a temperatura do asfalto, pensou. Ou talvez eles andassem apenas a forragear na vegetação rasteira próxima e sentissem curiosidade a respeito das luzes brilhantes que se aproximavam. Mas seria razoável que nunca nenhum deles desse uns saltitos curtos para visitar os seus primos do outro lado da estrada? Que imaginariam que a auto-estrada era? Uma presença estranha no seu meio, uma presença de função insondável, construída por criaturas que a maior parte deles nunca vira? Duvidava que algum sentisse sequer curiosidade a tal respeito…
O silvo dos pneus na auto-estrada era uma espécie de ruído branco, e ela descobriu que estava involuntariamente — também ali — atenta a um padrão sonoro. Adquirira o hábito de escutar atentamente muitas fontes de ruído branco: o motor do frigorífico, que ligava automaticamente no meio da noite; a água a correr para o seu banho; a máquina de lavar quando lavava a roupa no pequeno compartimento-lavandaria adjacente à cozinha; o rugir do oceano durante uma breve viagem para natação subaquática autônoma que fizera à ilha de Cozumel, à saída do Iucatão, viagem que encurtara devido à sua impaciência em voltar para o trabalho. Escutava essas fontes quotidianas de ruído fortuito e tentava determinar se havia nelas menos padrões aparentes do que na estática interestelar.
Estivera na cidade de Nova Iorque no mês de Agosto anterior, para uma reunião da URSI (a abreviatura francesa da União de Rádio Científica Internacional). Os metropolitanos eram perigosos, tinham-lhe dito, mas o ruído branco era irresistível. No claca-claca daquela via férrea subterrânea parecera-lhe ouvir uma pista e fizera resolutamente gazeta a meio dia de reuniões, viajando da Rua 34 para Coney Island, voltando ao centro de Manhattam e seguindo depois, por uma linha diferente, para a mais remota Queens. Mudara de comboio numa estação em Jamaica e depois regressara, um pouco ruborizada e ofegante — no fim de contas, era um quente dia de agosto, recordara a si mesma — a assinatura da convenção. Às vezes, quando o comboio subterrâneo se inclinava ao descrever uma curva acentuada, as lâmpadas interiores apagavam-se e ela via uma sucessão regular de luzes, a brilhar num fundo azul-elétrico, a desfilar velozmente, como se se encontrasse nalguma impossível nave espacial interestelar hiper-relativista, lançada através de um aglomerado de jovens estrelas azuis supergigantes. Depois, quando o comboio entrava numa reta, as luzes interiores reacendiam-se e ela voltava a tomar consciência do cheiro acre, do balançar de passageiros vizinhos agarrados às alças suspensas do teto, das miniaturais câmaras de televisão de vigilância (fechadas à chave em caixas protetoras e subseqüentemente tornadas «cegas» com sprays de tinta), do estilizado mapa multicor representando o sistema completo de transporte subterrâneo da cidade de Nova Iorque e do guincho de alta freqüência dos travões quando paravam nas estações.
Sabia que tudo aquilo era um pouco excêntrico. Mas ela sempre tivera uma vida de fantasia ativa. Muito bem, era um pouco compulsiva no tocante a escutar ruído. Não via que isso pudesse fazer algum mal. Ninguém parecia aperceber-se muito do fato. De qualquer modo, estava relacionado com o seu trabalho. Se tivesse propensão para tais coisas, talvez tivesse podido deduzir a despesa da sua viagem a Cozumel do seu imposto de rendimento, a pretexto do som das vagas. Enfim, talvez estivesse a tornar-se obsessiva.
Apercebeu-se, com um sobressalto, que chegara à estação o Rockefeller Center. Ao passar apressadamente através de uma acumulação de jornais diários abandonados no chão da carruagem do metropolitano, um cabeçalho do News-Post prendera-lhe o olhar: GUERRILHEIROS OCUPAM KALIL JOSURC. Se gostamos deles, são combatentes da liberdade, pensou. Se não gostamos deles, são terroristas. No caso improvável de não sermos capazes de formar uma opinião, são temporariamente apenas guerrilheiros. Num outro bocado de papel próximo via-se uma grande fotografia de um homem de aspecto saudável e confiante sob o cabeçalho: COMO O MUNDO TERMINARÁ. EXCERTOS DO NOVO LIVRO DE REV. BILY JO RANKIN. EXCLUSIVO DESTA SEMANA NO NEWS-POST. Lera os títulos de raspão e tentara imediatamente esquecê-los. Ao dirigir-se, através das multidões azafamadas, para o hotel da reunião, desejava chegar a tempo de ouvir a exposição de Fujita sobre design de radiotelescópio homormófico.
Sobreposto ao chiar dos pneus havia um som surdo nas costuras de remendos de pavimento, que tinham sido revestidos por diferentes brigadas de cantoneiros do Novo México em épocas diferentes. E, se uma mensagem interestelar estivesse a ser recebida pelo Projeto Argus, mas muito lentamente — um bit de informação em cada ora, digamos, ou em cada semana, ou em cada década? E se houvesse murmúrios muito antigos, muito pacientes, de alguma civilização emissora que não tinha nenhuma maneira de saber que nos cansamos de reconhecimento de padrões ao fim de segundos ou minutos? Supondo que eles viviam dezenas de milhares de anos. E faalaavaam muiiito devaaagaar. Argus nunca o saberia. Poderiam existir criaturas com uma vida tão longa? Haveria na história do universo tempo suficiente para criaturas que se reproduziam muito devagar evoluírem para um estádio de alta inteligência? A decomposição estatística de elos químicos, a deterioração dos seus corpos de acordo com a segunda lei da termodinâmica, não os forçaria a reproduzirem-se com uma freqüência mais ou menos igual à dos seres humanos? E a ter períodos de duração de vida como o nosso? Ou poderiam eles habitar nalgum mundo velho e frígido onde até as colisões moleculares ocorressem com uma lentidão extrema, talvez apenas de uma seqüência por dia? Imaginou ociosamente um radiemissor de concepção reconhecível e familiar colocado num penhasco de gelo metânico, fracamente iluminado por um distante e enfezado Sol vermelho, enquanto, cá muito em baixo, ondas de um oceano de amônia batiam implacavelmente na costa — gerando incidentalmente um ruído branco indistinguível do da rebentação de Cozumel.
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