O oposto era igualmente possível: faladores rápidos, porventura criaturinhas maníacas, mexendo-se com movimentos rápidos e convulsivos, que transmitiam uma mensagem rádio completa — o equivalente a centenas de páginas de texto inglês — num nanossegundo. Claro que, se o nosso receptor tinha um passa-banda muito estreito, que só permitia escutar uma minúscula faixa de freqüências, éramos obrigados a aceitar a constante têmpora longa. Nunca conseguiríamos detectar uma modulação rápida. Era uma conseqüência simples do teorema integral de Fourrier e estreitamente relacionada com o princípio da incerteza de Heisenber. Assim, por exemplo, se tivéssemos um passa-banda de um kilohertz, não poderíamos compreender um sinal modulado a uma velocidade maior do que um milissegundo. Seria uma espécie de borrão sônico. Os passa-bandas de Argus eram mais estreitos do que um hertz, por isso, para serem detectados, os emissores tinham de estar a modular muito lentamente, mais lentamente do que um bit de informação por segundo. Modulações ainda mais lentas — mais longas do que horas, digamos — podiam ser detectadas facilmente, desde que estivéssemos dispostos a apontar um telescópio à fonte durante esse espaço de tempo e que fôssemos excepcionalmente pacientes. Havia tantos bocados do céu para explorar, tantas centenas de milhares de milhões de estrelas para investigar! Não era possível passar o tempo todo concentrado apenas nalgumas delas. Perturbava-a a idéia de que, na sua pressa de efetuarem uma exploração completa o céu em menos do que a duração de uma vida humana, de escutarem todo o céu em mil milhões de freqüências, tivessem abandonado tanto os faladores frenéticos como os lacônicos laboriosos.
Mas certamente, pensou, eles saberiam melhor do que nós as modulações de freqüências que eram aceitáveis. Deviam ter tido experiência prévia de comunicação interestelar e civilizações recém-emergentes. Se havia uma larga faixa de prováveis ritmos de impulsos que a civilização receptora adotaria, a civilização emissora utilizaria essa faixa. Modulação a microssegundos ou modulação a horas, que lhes custaria isso? Deveriam, quase todos eles, possuir engenharia superior e recursos energéticos enormes pelos padrões da Terra. Se quisessem comunicar conosco, facilitar-nos-iam as coisas. Enviariam sinais em muitas freqüências diferentes. Utilizariam muitas escalas diferentes de tempo de modulação. Saberiam como somos atrasados e teriam compaixão.
Assim sendo, por que motivo não recebêramos nenhum sinal? Seria possível que Dave tivesse razão? Nenhuma civilização extraterrestre em parte alguma? Todos aqueles milhares de milhões de mundos a deteriorar-se, sem vida, estéreis? Seres inteligentes apenas neste obscuro canto de um universo incompreensivelmente vasto? Por muito esforçadamente que tentasse, Ellie não conseguia tomar a sério semelhante possibilidade. Emalhetava-se perfeitamente com temores e pretensões humanas, com doutrinas não provadas acerca de vida depois da morte, com pseudociências como a astrologia. Era a encarnação moderna do solipsismo geocêntrico,
CAPÍTULO IV
Números primos
Não haverá nenhuns morávios na Lua, para que nem um missionário tenha ainda visitado este nosso pobre planeta pagão para civilizar a civilização e cristianizar a cristandade?
HERMAN MELVILLE White Jucket (1850)
Só o silêncio é grande;
tudo o mais é fraqueza.
ALFRED DE VIGNY La Mort du Loup (1864)
O vácuo preto e frio tinha ficado para trás. Os impulsos aproximavam-se agora de uma comum estrela anã amarela e já tinham começado a derramar-se pelo séquito de mundos daquele obscuro sistema. Tinham passado, palpitantes, por planetas de gás de hidrogênio, penetrado em luas de gelo, transposto as nuvens orgânicas de um mundo frígido onde os precursores da vida começavam a agitar-se e atravessado um planeta que já deixara o seu apogeu mil milhões de anos para trás. Agora, os impulsos estavam a espraiar-se contra um mundo tépido, azul e branco, que girava contra o pano de fundo das estrelas.
Havia vida neste mundo, vida extravagante na sua quantidade e variedade. Havia aranhas saltadoras nos cumes gelados das montanhas mais altas e vermes comedores de enxofre nos vapores quentes que esguichavam para cima através das escarpas dos leitos dos oceanos. Havia seres que só podiam viver em ácido sulfúrico concentrado e seres que eram destruídos por ácido sulfúrico concentrado; organismos que eram envenenados pelo oxigênio e organismos que sobreviviam exclusivamente no oxigênio, que respiravam, realmente, oxigênio.
Uma forma de vida particular, com um mínimo de inteligência, alastrara recentemente pelo planeta. Tinham postos avançados nos leitos dos oceanos e em órbita a baixa altitude. Tinham enxameado para todos os nichos e escaninhos do seu pequeno mundo. A fronteira que assinalava a transição da noite para o dia estava a desviar-se para ocidente e, obedecendo ao seu movimento, milhões desses seres efetuavam ritualmente as suas abluções matinais. Vestiam sobretudos e dhotis [2] Tanga usada pelos Hindus na Índia. (N. da T.)
; bebiam infusões de café, chá ou dente-de-leão, conduziam bicicletas, automóveis ou bois; e fugidiamente pensavam em problemas escolares, perspectivas para as plantações vernais e no destino do mundo.
Os primeiros impulsos da seqüência de ondas de rádio insinuaram-se através da atmosfera e das nuvens, embateram na paisagem e foram parcialmente re-refletidos para o espaço. Enquanto a Terra girava debaixo delas, chegaram impulsos sucessivos que invadiram não somente este planeta, mas também todo o sistema. Muito pouca da energia foi interceptada por qualquer dos mundos. A maior parte dela prosseguiu em frente, sem esforço — enquanto a estrela amarela e os seus mundos acompanhantes mergulhavam, numa direção completamente diferente, no negrume de tinta.
Envergando um casaco de dacron com a palavra Marauders por cima de uma estilizada bola de vôlei de feltro, o funcionário de serviço, que iniciava o turno noturno, aproximou-se do edifício de controle. Um grupo de radioastrônomos ia naquele momento a sair para jantar.
— Há quanto tempo andam vocês à procura de homenzinhos verdes? Há mais de cinco anos, não é, Willie?
Brincaram cordialmente com ele, mas o homem detectou uma certa irritação nas suas brincadeiras.
— Dêem-nos uma aberta, Willie — disse outro. — O programa de luminosidade dos quasars vai de vento em popa, mas demorará eternamente se só dispusermos de dois por cento de tempo de telescópio.
— Claro, Jack, claro.
— Willie, estamos a olhar para trás, para a origem do universo. Também há uma grande parada no nosso programa… e nós sabemos que existe ali um universo; vocês não sabem se existe um único homenzinho verde.
— Discutam o assunto com a doutora Arroway. Estou certo de que ela gostará de ouvir a vossa opinião — respondeu com certo azedume.
O funcionário de serviço entrou na área de controle. Fez uma inspeção rápida a dúzias de écrans de televisão que monitorizavam o progresso da radiopesquisa. Tinham acabado de examinar a constelação Hércules. Tinham espreitado para o coração de um grande enxame de galáxias para lá da Via Láctea, o Aglomerado de Hércules — a cem milhões de anos-luz de distância; tinham apontado, à M-13, um enxame de trezentos mil estrelas, mais estrela menos estrela, gravitacionalmente unidas e movendo-se em órbita à volta da Galáxia da Via Láctea a vinte e seis mil anos-luz de distância; tinham examinado Ras Algethi, um sistema duplo, e Zeta e Lambda Herculis algumas estrelas diferentes do Sol, algumas semelhantes, e próximas dele. A maior parte das estrelas que podemos ver a olho nu encontram-se a menos de alguns centos de anos-luz de distância. Haviam monitorizado cuidadosamente centenas de pequenos sectores do céu no interior da constelação de Hércules em mil milhões de freqüências diferentes e não tinham ouvido nada. Em anos anteriores tinham investigado as constelações imediatamente a ocidente de Hércules: Serpens, Corona Borealis, Boõtes, Canes Venatici… e também não tinham ouvido nada.
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