O funcionário de serviço reparou que alguns dos telescópios estavam orientados para procurar em Hércules alguns dados que faltavam. Os restantes apontavam, como que de olhar enfastiado, para uma extensão adjacente de céu, a constelação seguinte a leste de Hércules. As pessoas do Mediterrâneo Oriental, havia alguns milhares de anos, parecera um instrumento musical de cordas e tinha sido relacionada com o herói da cultura grega Orfeu. Era uma constelação chamada Lira.
Os computadores movimentavam os telescópios para acompanharem as estrelas de Lira desde que nasciam até que se punham, acumulavam os radiofótons, vigiavam a saúde dos telescópios e processavam os dados num formato conveniente para os seus utilizadores humanos. Até um funcionário de serviço era qualquer coisa como uma condescendência. Passando por um frasco de drops, uma máquina de café, uma frase em runas élficas retirada de Tolkien pelo Artificial Intelligence Laboratory de Stanford e um autocolante de pára-choques que dizia «buracos negros estão fora de vista», Willie aproximou-se da consola de comando. Acenou simpaticamente com a cabeça ao funcionário que estivera de serviço de tarde e estava agora a reunir os seus apontamentos e a preparar-se para sair e ir jantar. Em virtude de os dados recolhidos naquele dia estarem convenientemente sumarizados em âmbar no mostrador principal, Ellie não teve necessidade de perguntar quais tinham sido os progressos das horas precedentes.
— Como vê, nada de importante. Houve um pointing glitch — pelo menos era o que parecia — em 1949 —, disse o outro, a apontar vagamente na direção da janela. — O grupo dos quasars libertou os um-dez e um-vinte há cerca de uma hora. Parece que estão a obter dados muito bons.
— Sim, já ouvi dizer. Eles não compreendem…
A sua voz emudeceu quando uma luz de alarme se acendeu com decoro na consola à sua frente. Num mostrador identificado «Intensidade versus Freqüência» subia um aguçado espigão vertical e, é um sinal monocromático.
Outro mostrador, rotulado «intensidade versus Tempo», apresentava um conjunto de impulsos a mover-se da esquerda para a direita e depois a sair do écran.
— Aquilo são números — disse Willie, baixinho. — Alguém está a emitir números.
— Provavelmente, é alguma interferência da Força Aérea. Vi um Awacs, provavelmente de Kinland, cerca das dezesseis horas. Talvez estejam a enganar-nos para se divertirem.
Tinham-se feito acordos solenes para salvaguardar pelo menos algumas radiofreqüências para a astronomia. Mas, precisamente porque essas freqüências constituíam um canal desimpedido, às vezes os militares achavam-nas irresistíveis. Se alguma vez rebentasse a guerra global, talvez os radioastrônomos fossem os primeiros a saber, com as suas janelas abertas para o cosmo a transbordar de ordens para satélites de condução de combate e avaliação de estranhos em órbita geossíncrona e com a transmissão de ordens e lançamento codificadas para distantes postos estratégicos avançados. Mesmo sem nenhum tráfico militar, ao escutar mil milhões de freqüências simultaneamente, os astrônomos tinham de contar com alguma interferência. Relâmpagos, ignições de automóveis e satélites de difusão direta, tudo isto constituía fontes de interferências de rádio. Mas os computadores tinham o seu número, conheciam as suas características e ignoravam-nas sistematicamente. Aos sinais mais ambíguos, o computador escutava-os com maior cuidado e certificava-se de que não correspondiam a nenhuma lista dos dados que estava programado para compreender. De vez em quando passava uma aeronave de inteligência eletrônica em missão de treino — ocasionalmente com um disco de radar recatadamente disfarçado de disco voador na sua garupa — e Argus detectava subitamente sinais inequívocos de vida inteligente. Mas verificava-se sempre tratar-se de vida de uma espécie peculiar e triste, inteligente até certo ponto e apenas muito tangencialmente extraterrestre. Alguns meses antes, um F29E, com medidas defensivas eletrônicas state-of-the-art, sobrevoou-os a dois mil e quatrocentos metros e fez soar os alarmes de todos os cento e trinta e um telescópios. Aos olhos não militares dos astrônomos, a radioassinatura tinha sido suficientemente complexa para poder ser uma plausível primeira mensagem de uma civilização extraterrestre. Verificaram, porém, que o radiotelescópio mais ocidental recebera o sinal um minuto inteiro antes do mais oriental, e depressa se tornou evidente tratar-se de um objeto que atravessava o delgado invólucro de ar que circunda a Terra, e não uma emissão de alguma civilização inimaginavelmente diferente das profundezas do espaço. Este agora era quase com certeza a mesma coisa.
Os dedos da sua mão direita estavam enfiados em cinco receptáculos regularmente espaçados de uma caixa baixa colocada na sua secretária. Desde a invenção daquela engenhoca que conseguia poupar meia hora por semana. Mas, na verdade, não tivera grande coisa que fazer com essa meia hora extra.
— E estava a contar tudo a Mistress Yarborough. É a da cama ao lado, agora que Mistress Wertheimer faleceu. Não pretendo gabar-me, mas acho-me com direito a muito crédito pelo que tens feito.
— Sim, mãe.
Observou o brilho das unhas e achou que precisavam de mais um minuto, talvez um minuto e meio.
— Estive a pensar naquela vez no quarto ano… lembras-te? Chovia e tu não querias ir à escola, e pediste-me que no dia seguinte escrevesse um bilhete a dizer que faltaras por teres estado doente. E eu recusei-me. Disse: «Ellie, além de se ser bonita, a coisa mais importante do mundo é ter instrução. Não podemos fazer grande coisa quanto à boniteza, mas podemos fazer alguma quanto à instrução. Vai para a escola. nunca se sabe o que poderás aprender hoje.» Não é verdade?
— Sim, mãe.
— O que quero dizer é se não foi isso que te disse nessa altura.
— Foi, mãe, eu lembro-me.
O brilho dos quatro dedos estava perfeito, mas o polegar ainda tinha um aspecto mate-baço.
— Por isso, fui buscar as tuas galochas e o teu impermeável — era um daqueles amarelos, compridos, ficavas muito engraçada com ele — e corri contigo para a escola. E foi nesse dia que não conseguiste responder a uma pergunta na aula de Matemática de Mister Weisbrod, não foi? Ficaste tão furiosa que foste direita à biblioteca do colégio e leste a respeito do assunto até ficares a saber mais do que Mister Weisbrod. Ele sentiu-se impressionado. Disse-me.
— Disse-lhe? Não sabia isso. Quando falou com Mister Weisbrod?
— Foi numa reunião de pais com professores. Ele disse-me: «Aquela sua pequena tem gênica.» Ou palavras com o mesmo sentido. «Ficou tão furiosa comigo que se tornou uma verdadeira especialista na matéria». «Especialista», foi o que ele disse. Eu sei que te contei isto.
Tinha os pés apoiados numa gaveta da secretária e estava recostada na cadeira giratória; a única coisa que a estabilizava eram os dedos enfiados na máquina de envernizar. Sentiu o «besouro» quase antes de o ouvir e endireitou-se bruscamente.
— Mãe, tenho de desligar.
— Tenho a certeza de que te contei esta história antes. Tu é que nunca prestas atenção ao que eu digo. Mister Weisbrod era um homem simpático, embora tu nunca tenhas conseguido ver o seu lado bom.
— Mãe, tenho mesmo de desligar. Detectamos um tipo qualquer de bogey.
— Bogey?
— A mãe sabe o que é, uma coisa que pode ser um sinal. Já falamos a esse respeito.
— Aqui estamos nós a pensar que a outra não está a ouvir. Tal mãe, tal filha.
— Adeus, mãe.
— Deixo-te desligar se me prometeres que logo a seguir me telefonas.
— Está bem, eu prometo.
Durante toda a conversa, a carência e a solidão da mãe tinham despertado em Ellie um desejo de terminar a conversa, de fugir. Detestava-se por isso.
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