Henry sentou-se. Esfregou os olhos com as costas da mão, num gesto que tinha desde criança.
– Posso – disse ele, numa voz que mal se ouvia. – Claro que posso, apesar de não saber como.
Só foram necessários dois dias.
Liguei para o quarto de Vance, do hall do hotel.
– Vou subir – falei, segurando o telefone com uma das mãos e a pesada mala com a outra.
– Ótimo! – disse ele.
Esperei que ele contasse as notas, o que ele fez lenta e cuidadosamente. Não tinha perguntado a Henry de onde ele tirara o dinheiro, nem ele me dissera.
– Está certo – disse Vance, quando acabou de contar. – Obrigado.
– Pode ficar com a mala – ofereci.
– Muito obrigado. – E acompanhou-me até a porta.
Peguei o carro e saí correndo. Queria chegar ao hospital antes que proibissem a entrada de visitantes. Telefonara ao meio-dia e falara com Lily. Fabian estava descansando tranqüilamente, dissera ela. Queria dizer-lhe que, conforme ele previra, o homem viera exigir os cem mil dólares e que eu fora obrigado a devolvê-los.
Quando entrei no hospital, a recepcionista deteve-me.
– Chegou demasiado tarde, Sr. Grimes – disse-me ela. – O Sr. Fabian faleceu às quatro horas da tarde. Tentamos avisar o senhor, mas…
– Não faz mal – atalhei, espantado com a calma da minha voz. – Lady Abbott está no hospital?
A recepcionista sacudiu a cabeça.
– Acho que ela foi embora. Disse que não tinha mais nada a fazer aqui e que procuraria tomar esta noite mesmo um avião para Londres.
– Muito bem – falei. – Boa noite. Amanhã de manhã voltarei para cuidar do funeral.
– Boa noite, Sr. Grimes – disse ela.
Fui andando lentamente para East Hampton. Agora, já não havia pressa. Não queria voltar já para casa. Dirigi o carro para o celeiro, agora às escuras, com o cartaz recém-pintado "The South Fork Gallery" em pequenas letras sobre a porta. "Cuide bem dos negócios", dissera Fabian. Tirei o chaveiro e abri a porta. Sentei-me num banco no meio da galeria, sem acender a luz, pensando no homem alegre, desonesto, astuto, marcado por uma cicatriz, que morrera naquele dia e que, pelos termos do contrato que tínhamos assinado no escritório do advogado, em Zurique, agora me deixava livre e absurdamente rico. As lágrimas vieram-me lentamente aos olhos.
Levantei-me e acendi as luzes. Depois, fiquei de pé no meio da sala e olhei para os quadros das andanças do pai de Ângelo Quinn brilhando nas paredes.
***
[1]Taverna, botequim.
[2]"Chato." Em francês no original.
[3]Boneca." Em francês no original.
[4]"Novos-ricos." Em francês no original.
[5]"Ofício." Em francês no original.
[6] Equilíbrio. Em francês no original.
[7] “Muito bem”. Em francês no original