– Meu Deus! – exclamei.
– Eu lhe avisei, logo de início – disse ele -, que não era um sujeito admirável.
Bati-lhe de leve na cabeça.
– Ora, o dinheiro não é tudo, meu amigo – falei. – Você me ensinou muitas coisas.
As lágrimas subiram-lhe aos olhos.
– O dinheiro não é tudo – repetiu. E logo depois riu. – Sabe o que estou pensando? Que foi uma sorte eu ficar ferido. De outra maneira, ninguém iria acreditar que tudo não passava de uma farsa publicitária para promover Priscilla Dean.
A enfermeira entrou no quarto e olhou severamente para mim, de modo que me levantei.
– Cuide dos negócios – disse Fabian, à guisa de despedida.
Lily chegou na tarde do dia seguinte. Fui esperá-la no Aeroporto Kennedy para levá-la ao hospital. Como sempre, ela estava muito elegante, no mesmo casaco marrom que usara em Florença. Quase não falou, durante o caminho. Mas fumou sem parar. Tive de comprar dois maços de cigarros na estrada. Dissera-lhe que o médico considerava boas as chances de Fabian se recuperar, mas ela limitara-se a assentir com a cabeça.
– O médico também disse – falei eu, quebrando o silêncio, quando passávamos por Riverhead – que Miles tem uma enorme cicatriz no peito e no abdome. Disse que parecia um ferimento a granada. Você sabe do que se trata? Perguntei a Miles, mas ele disse que preferia não falar nisso.
– Claro que sei da cicatriz – retrucou Lily. – Vi-a na primeira vez que fomos para a cama juntos. Ele parecia ter vergonha dela, como se fosse algo que o diminuísse. Você sabe como ele é vaidoso. É por isso que nunca pratica natação e sempre usa camisa e gravata. Não lhe fiz perguntas, mas depois de algum tempo ele mesmo me contou. Foi piloto na guerra… suponho que lhe tenha dito isso…
– Não – disse eu.
Ela sorriu através da fumaça do cigarro.
– Sempre discreto e reservado, o nosso Miles. Bem, ele foi piloto durante a guerra. Deve ter sido um ótimo piloto. Soube, por velhos amigos meus americanos, que o conheceram, que ele tem quase todas as medalhas que um governo grato pode conferir. – Lily torceu ironicamente a boca. – No inverno de 1944, deram-lhe uma missão nos céus da França. Segundo ele me disse, uma missão praticamente suicida, num tempo horrível. Claro que não entendo nada disso, mas numa coisa dessas tendo a acreditar nele. Disse-me que o comandante do seu esquadrão era um louco e irresponsável conquistador de glórias. Seja como for, Miles e seu melhor amigo foram derrubados sobre o Pas de Calais. O amigo morreu e Miles foi feito prisioneiro pelos alemães, que cuidaram dele… à maneira alemã. A cicatriz é resultante disso. Quando o hospital em que ele estava internado foi tomado pelas forças aliadas, ele pesava menos de cinqüenta quilos. Aquele homenzarrão. – Lily ficou por um tempo calada, fumando. – Segundo ele me disse, foi então que decidiu que já tinha feito o suficiente em prol da humanidade. Isso explica um pouco a sua maneira de viver, você não acha?
– Um pouco – concordei. – Você acreditava, quando ele se fazia passar por um rico proprietário inglês?
– Claro que não. Ríamos um bocado. Eu lhe ensinei uma porção de anglicismos. Você se envolveu em muitos negócios com ele, não?
– Em vários – disse eu.
– Lembra-se de que o preveni sobre ele, a respeito de dinheiro?
– Lembro-me.
– Ele o enganou?
– Um pouco.
– A mim também. Querido Miles! – Riu. – Pode não ser muito honesto, mas é um homem que sabe viver e gosta de dar alegria aos outros. Não sei, mas talvez isso seja mais importante do que ser honesto. – Acendeu outro cigarro. – Custa pensar que ele esteja morrendo.
– Talvez não morra – disse eu.
– É, talvez.
Não falamos mais até chegarmos ao hospital.
– Gostaria de estar com ele a sós – disse Lily, quando paramos à porta do belo prédio de tijolos vermelhos.
– Naturalmente – falei. – Vou deixar suas malas no hotel. E estarei em casa, se você precisar de mim. – Beijei a e vi-a entrar no hospital.
Estava escuro, quando cheguei a casa. Havia um carro que eu não conhecia diante do portão. "Mais repórteres", pensei, aborrecido. O carro de Evelyn não estava na garagem e decerto Anna deixara entrar quem quer que fosse. Abri com a minha chave. Um homem estava sentado na sala, lendo um jornal. Levantou-se quando me viu entrar.
– Sr. Grimes…? – perguntou.
– Sim, sou eu.
– Tomei a liberdade de esperar pelo senhor em sua casa – explicou ele. Era um homem magro, de cabelo louro e ar intelectual, corretamente vestido num terno de verão cinza-escuro, camisa branca e gravata colorida. Não parecia um repórter. – Meu nome é Vance – disse ele. – Sou advogado. Vim aqui, a pedido de um cliente, apanhar cem mil dólares.
Dirigi-me ao armário onde guardávamos as bebidas e preparei um uísque para mim.
– Aceita um drinque? – perguntei ao homem.
– Não, muito obrigado.
Trouxe a bebida na mão e sentei-me numa poltrona, diante de Vance. Ele permaneceu de pé, franzino e nada ameaçador.
– Estava sempre à espera de que vocês aparecessem.
– Levou algum tempo – disse ele, numa voz seca, baixa e educada, difícil de agüentar por muito tempo sem entediar. – Não foi fácil segui-lo. Felizmente… – Indicou o jornal. – O senhor se transformou num herói, da noite para o dia.
– Assim parece – concordei. – Não há como uma boa ação para a pessoa brilhar neste mundo perdido.
– Exatamente – assentiu ele.
Olhou em volta da sala. O bebê estava chorando em seu quarto.
– Bela casa! – falou ele. – Gostei da vista.
– Pois é – falei. Sentia-me muito cansado.
– Meu cliente mandou-me avisar-lhe que o senhor tem três dias para entregar o dinheiro. Ele é um homem razoável.
Fiz que sim com a cabeça. Até isso foi com esforço.
– Estarei no Hotel Blackstone. A menos que o senhor prefira o St. Augustine. – Sorriu, um sorriso de caveira.
– O Blackstone está bom – disse eu.
– Nas mesmas condições em que o senhor o encontrou, por favor – disse Vance. – Em notas de cem dólares.
Fiz de novo que sim.
– Bem – disse ele -, acho que está tudo combinado. Agora, preciso ir andando.
Já na porta, ele parou.
– O senhor não perguntou quem é o meu cliente – falou.
– Não.
– Ainda bem. Se tivesse perguntado, eu não lhe poderia dizer. Mesmo assim, posso afirmar-lhe que a sua… a sua fuga… teve as suas vantagens. O sacrifício de devolver o dinheiro pode ser amenizado pelo fato de saber que a sua fuga poupou diversas pessoas importantes… muito importantes, de um considerável embaraço.
– Já ganhei o dia – falei.
Eram nove horas quando entrei no elevador do apartamento da 52 ndStreet, East. Pedira a Anna para dizer a Evelyn que fora chamado subitamente à cidade, a negócios, e que só voltaria dali a um dia ou dois. Podia ter telefonado para Evelyn, mas não quis ter que lhe explicar tudo.
Henry abriu-me a porta do apartamento. Peguei-o quando já ia saindo. Ele e Madeleine tinham bilhetes para o teatro, mas, quando eu lhe disse que precisava falar com ele urgentemente, Henry prontamente assentiu. Parecia preocupado, ao me abrir a porta. Madeleine estava na sala, toda pronta para sair. Também ela parecia preocupada.
– Talvez fosse melhor falarmos a sós, Hank – disse eu.
Mas ele sacudiu a cabeça.
– Preferia que ela ficasse, se você não se importa.
– Muito bem – disse eu. – Não vou demorar. Preciso de cem mil dólares, Hank. Em notas de cem. Não tenho tempo de mandar buscar o dinheiro na Europa e não o tenho aqui. Só disponho de três dias. Será que você me pode arranjar cem mil dólares em três dias?
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