– O senhor é judeu? – perguntei, quando ele me passou a garrafa.
– Não. O meu colega é que é. Aprendi com ele. L’chaim. "À vida", segundo eu recordava de uma canção de Um violinista no telhado.
– Acho que vou beber também – falei, erguendo a garrafa. – Uma noite como esta faz um homem ficar meio bombardeado.
– Isto não é nada – retrucou o tira. – Você precisava ver o que nós vemos.
– Posso imaginar – disse eu, bebendo.
– Bem – falou o policial -, preciso ir andando. Vai vir um detetive, de manhã. Deixe o quarto trancado até ele chegar, ok?
– Vou avisar o meu colega do dia.
– Plantão da noite – disse o policial. – Você consegue dormir bem de dia?
– Mais ou menos.
– Eu, não – disse o tira, abanando queixosamente a cabeça. – Olhe só para as minhas olheiras!
– Está precisando de uma boa noite de sono! – comentei, olhando para as olheiras dele.
– Quem sou eu! – exclamou o homem, enfiando brutalmente um dedo no olho. – Bem, pelo menos não houve crime. A gente tem que dar graças a Deus pelas pequenas coisas – acrescentou, surpreendentemente. Um vocabulário que incluía Deus numa tirada filosófica!
Acompanhei-o até a porta da frente.
– Um bom dia para você – disse o policial.
– Obrigado. Para você também.
– Ah! – exclamou ele.
Vi-o subir lentamente para a radiopatrulha e acordar o colega. Logo depois, o veículo descia a rua silenciosa. Tranquei a porta e voltei para o escritório. Peguei no telefone e disquei. Tive de esperar pelo menos dez toques para que atendessem. "Este país está em completa decadência", pensei. "Ninguém se mexe."
– Western Union – disse a voz.
– Quero mandar um telegrama para Chicago – falei, dando o nome e o endereço, soletrando "Ferris" bem devagar.
– A mensagem, por favor? – A voz parecia irritada.
– Lamento informar John Ferris faleceu esta manhã, três e trinta. Queiram entrar contato comigo imediatamente. Assinado, H. M. Drusack, gerente Hotel St. Augustine, Manhattan. – Quando a resposta chegasse, Drusack estaria de serviço e eu estaria longe, a salvo. Não havia necessidade de que a família, em Chicago, soubesse o meu nome. – Quanto é, por favor?
O funcionário disse-me quanto era. Anotei a importância numa folha de papel. O velho Drusack ia pô-la na conta de Ferris. Eu o conhecia.
Tomei outro trago de uísque e depois instalei-me na cadeira giratória e peguei a Bíblia. Tinha tempo de ler os provérbios antes que o meu plantão acabasse.
Tomei um táxi para casa, após contar ao meu colega do dia o que se passara, ou quase tudo. Deixei, como de hábito, o envelope para o bookmaker meu amigo, com um bilhete dizendo-lhe para apostar cinco dólares em Ask Gloria, no segundo páreo das corridas de Hialeah. Enquanto fosse possível, convinha aparentar que aquele era um dia igual a todos os outros.
Mesmo no East Eighties, onde eu morava, não eram raros os assaltos a qualquer hora. O táxi era um luxo, mas aquele não era um dia para ser assaltado. Tinha tirado o tubo da prateleira, aproveitando que o meu colega estava ocupado no balcão. Não havia ninguém no hall quando eu saí e, mesmo que houvesse, que havia de extraordinário no fato de um homem sair com um tubo de papelão embrulhado em papel pardo?
Minha mente funcionava bem e eu não estava nem um pouco com sono. Geralmente, quando o tempo estava bom, caminhava as trinta e poucas quadras até meu apartamento, parando para tomar o café da manhã numa cafeteria da Second Avenue, antes de me deitar e dormir até as duas da tarde. Mas hoje eu sabia que não ia poder dormir, que não tinha necessidade de dormir.
Quando abri a porta do meu apartamento conjugado, as janelas deixando entrar a fria luz cinzenta do inverno, fui direto à geladeira da kitchenette, tirei uma garrafa de cerveja e abri-a, sem sequer despir o sobretudo. A seguir, bebendo de vez em quando um gole de cerveja, rasguei o papel que embrulhava o tubo de papelão. Com uma faca, consegui abrir um dos lados do tubo. Estava cheio, de cima a baixo, de notas de cem dólares.
Tirei as notas uma por uma, alisei-as e agrupei-as em pilhas de dez, sobre a mesa da cozinha. Quando terminei, havia cem pilhas. Cem mil dólares, que cobriam toda a mesa. Acabei com a cerveja. Não sentia nenhuma emoção, nem medo, euforia ou remorso. Olhei para o relógio de pulso. Vinte para as nove. Os bancos só abririam dali a vinte minutos.
Tirei uma maleta do armário e coloquei dentro o dinheiro.
Ninguém mais tinha a chave do apartamento, mas para que correr riscos? Mala na mão, desci e saí para a avenida. Na quadra seguinte havia uma papelaria e comprei uma caixa de elásticos e três grandes envelopes pardos, os maiores que havia na loja.
Depois, voltei ao apartamento, tranquei a porta, despi o sobretudo e o paletó e pus metodicamente um elástico em volta de cada pilha de notas, antes de enfiá-las num dos envelopes. Reservei mil dólares, que guardei na carteira, para uso imediato.
Fechei os envelopes, fazendo uma careta ante o gosto da cola na língua. Tirei depois outra garrafa de cerveja da geladeira, enchi um copo e fui bebendo calmamente, sentado à mesa, diante da pilha formada pelos grossos envelopes.
Alugara o apartamento mobiliado e só os livros eram meus. Mesmo assim, não eram muitos. Quando terminava de ler um livro, geralmente jogava-o fora. O aquecimento era deficiente, e, quando me sentava na única poltrona esgarçada para ler, costumava vestir o anoraque, que pendia de um gancho atrás da porta de entrada. Nessa manhã, embora fizesse o frio de sempre e embora eu estivesse em mangas de camisa, sentia-me perfeitamente bem.
Sabia que ia ter de me mudar. E largar o emprego. E sair da cidade. Não tinha ainda nenhum plano, mas sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém apareceria, à procura de cem mil dólares.
No banco, fizeram-me assinar duas vezes em cartões separados. Minha letra estava bastante firme. Os envelopes fechados, contendo o dinheiro, estavam em cima da mesa, diante do jovem subgerente que me atendia, com um rosto assexuado de seminarista. A conversa entre nós foi curta e estritamente comercial. Tinha-me barbeado e vestido adequadamente. Conservava ainda dois ternos decentes, relíquias dos velhos tempos, e tinha posto uma roupa sóbria, cinzenta, com uma camisa azul-clara e gravata azul-escura. Queria dar a impressão de que era um cidadão acomodado, talvez não rico, mas modestamente próspero, um homem cauteloso, industrioso, que podia ter algumas ações e letras de câmbio demasiado valiosas para guardar em casa.
– Seu endereço, por favor? – pediu o subgerente.
Dei o endereço do St. Augustine. Se alguém chegasse a me procurar no banco, o que era pouco provável, não encontraria nenhuma pista do meu paradeiro.
– O senhor vai ser a única pessoa autorizada a ter acesso ao cofre?
"Claro, irmão!", pensei. Mas respondi apenas:
– Sim.
– São vinte e três dólares anuais. Prefere pagar em dinheiro ou em cheque?
– Em dinheiro. – Dei-lhe uma nota de cem dólares. A expressão dele não se alterou. Sem dúvida, achava que eu parecia o tipo de homem capaz de andar com uma nota de cem dólares no bolso. Tomei isso como um bom sinal. O subgerente alisou cuidadosamente a nota com um gesto litúrgico e pediu a um dos caixas para fazer o troco.
Permaneci sentado à mesa, acariciando um dos envelopes pardos com as pontas dos dedos. Não gaguejara uma só vez em toda a manhã.
O subgerente voltou, deu-me o troco e fez um recibo, que dobrei e guardei na minha carteira. Depois, segui o homem até a câmara subterrânea, onde ficavam as caixas-fortes. Havia no ar um silêncio higiênico quase religioso, que fazia com que a gente hesitasse em falar mais alto do que num sussurro. Vitrais de igreja não me pareceriam deslocados, ali. A parábola dos talentos. O encarregado dos cofres entregou-me uma chave e conduziu-me por um silencioso corredor de dinheiro.
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