Uma mala de tamanho médio mas de aparência cara, de couro, estava aberta em cima da pequena penteadeira. Junto dela havia uma carteira velha e um clipe de notas, de ouro, com algumas notas presas. Na mala, viam-se três camisas limpas, muito bem dobradas.
Sobre a penteadeira havia algumas moedas. Contei o dinheiro no clipe: quatro notas de dez dólares e três de um. Deixei cair o clipe de novo e peguei a carteira. Dentro dela havia dez notas novinhas, de cem dólares cada. Assobiei baixinho. Fosse o que fosse que tinha acontecido nessa noite ao velho, ele não fora roubado. Coloquei as dez notas de novo na carteira, que por sua vez pus cuidadosamente em cima da penteadeira. Não me ocorreu tirar nenhuma nota. Eu tinha sido criado assim. "Não roubarás." Não farás uma porção de coisas.
Olhei para a maleta aberta. Junto das camisas havia duas cuecas muito bem passadas, uma gravata listrada, dois pares de meias, um pijama azul. Fosse ele quem fosse, o hóspede do número 602 ia ficar em Nova York mais tempo do que havia planejado.
O cadáver no chão me oprimia, como se eu fosse em parte responsável por ele. Peguei um dos cobertores sobre a cama e joguei-o em cima do corpo, cobrindo com ele o rosto, os olhos abertos, os lábios que, apesar de mudos, pareciam gritar. Senti-me mais confortável, a morte era agora apenas uma forma geométrica no chão.
Voltei ao corredor para apanhar o tubo de papelão. Não havia nele etiquetas, endereços ou qualquer identificação. Ao levá-lo para o quarto, vi que o grosso papel pardo tinha sido rasgado bem em cima. Ia pô-lo sobre a penteadeira, junto dos outros pertences do morto, quando vislumbrei uma ponta de papel verde que saía pela abertura. Puxei-a. Era uma nota de cem dólares, não nova, como as cédulas da carteira, mas velha e amassada. Segurei o tubo a fim de poder olhar para dentro dele. Até onde eu podia ver, estava cheio de notas. Permaneci um momento imóvel; depois, enfiei a cédula que tinha puxado novamente para dentro do tubo, alisando o papel pardo da melhor maneira possível.
Com o tubo debaixo do braço, saí do quarto, apaguei a luz e fechei a porta do apartamento 602 com a chave-mestra. Tudo isso com gestos rápidos e precisos, quase automáticos, como se toda a vida eu tivesse ensaiado para aquele momento, como se não houvesse alternativas.
Peguei o elevador para o hall e abri a porta do cubículo vizinho ao escritório. Sobre o cofre havia uma prateleira cheia de papel de carta, contas velhas e revistas rasgadas, tudo apanhado nos quartos. Retratos de políticos falecidos, mulheres nuas que agora já não estariam em condições de ser fotografadas – mortos ilustres, mulheres desejáveis, assassinos de monóculo, artistas de cinema, autores famosos -, uma coletânea de acontecimentos recentes e antigos do panorama americano. Sem hesitar, estendi o braço e empurrei o tubo contra a parede até ficar fora da vista, por trás de todos aqueles testemunhos de escândalos e prazeres.
Voltei para o escritório iluminado e telefonei pedindo uma ambulância.
Depois sentei-me, desembrulhei novamente o sanduíche e abri a garrafa de cerveja. Enquanto comia e bebia, olhei para o livro de registro. O hóspede do número 602 era um tal John Ferris, que entrara na tarde do dia anterior dando como endereço permanente um número na North Michigan Avenue, em Chicago, Illinois.
Estava terminando a minha cerveja quando a campainha tocou e vi dois homens saindo de uma ambulância. Um vestia um avental branco e carregava uma maca dobrada. O outro trajava um uniforme azul e trazia na mão uma maleta preta, mas eu sabia que não era médico. Em Manhattan, não se desperdiçam médicos em ambulâncias, aproveitam-se os enfermeiros capazes de prestar primeiros socorros sem matar os pacientes no local. Quando eu estava abrindo a porta, uma radiopatrulha aproximou-se e um policial saiu.
– Que foi que houve? – perguntou o policial, homem troncudo, de queixada escura e olheiras profundas.
– Um velho morreu lá em cima – respondi.
– Vou com eles, Dave – disse o policial para seu colega ao volante. Ouvi o rádio do carro transmitindo ordens, despachando policiais para acidentes, casos de homens surrando mulheres, suicídios, ruas onde homens de aspecto suspeito tinham sido vistos entrando em edifícios.
Calmamente, conduzi o grupo através do hall. O enfermeiro era jovem e bocejava como se não dormisse há semanas. As pessoas que trabalham à noite têm todas o ar de estarem sendo castigadas por algum pecado sem nome. No chão despido do hall, os sapatos do policial pareciam ter solas de chumbo. Subindo no elevador, ninguém falou. Não prestei qualquer informação. Um cheiro de medicamentos encheu o elevador. Carregam o hospital com eles, pensei. Teria preferido que a radiopatrulha não tivesse chegado junto com a ambulância.
Quando saímos no sexto andar, abri a porta do apartamento 602 e entrei na frente. O enfermeiro puxou o cobertor de cima do morto, inclinou-se sobre ele e colocou o estetoscópio no peito do homem. O policial ficou aos pés da cama, percorrendo com os olhos os lençóis manchados de batom, a mala em cima da penteadeira, a carteira e o clipe de dinheiro ao lado.
– Você quem é, cara? – perguntou-me ele.
– Sou recepcionista da noite.
– Qual é o seu nome? – perguntou ele, num tom de acusação, como se tivesse a certeza de que eu lhe daria um nome falso. Que teria ele feito, se eu tivesse respondido: "Meu nome é Ozimandias, rei dos reis"? Provavelmente puxaria do seu livrinho preto e escreveria: "Testemunha declara chamar-se Ozimandias. Na certa, um apelido". Era um verdadeiro policial noturno, fadado a patrulhar uma cidade às escuras, pulando de inimigos e de emboscadas.
– Meu nome é Grimes – respondi.
– Cadê a mulher que esteve com ele?
– Não tenho idéia. Abri a porta para uma mulher à uma da manhã. Talvez fosse a dita. – Espantosamente, não gaguejei.
O enfermeiro levantou-se e, tirando o estetoscópio dos ouvidos, declarou, secamente:
– Está morto.
Ora, eu podia ter afirmado isso sem precisar chamar uma ambulância! Quantos movimentos inúteis numa grande cidade!
– De que foi que ele morreu? – perguntou o policial. – Está ferido?
– Não. Deve ter sido um enfarte.
– Alguma coisa a fazer?
– Acho que não – disse o enfermeiro. – Só a rotina. – Inclinou-se novamente, revirou as pálpebras do morto e examinou-lhe os olhos sem vida. Depois, apalpou o pescoço com mãos suaves e hábeis.
– Você parece saber o que está fazendo, amigo – comentei. – Deve ter muita prática.
– Estou no segundo ano de medicina – respondeu ele. – Faço isto para poder comer.
O policial aproximou-se da penteadeira e pegou no clipe de dinheiro.
– Quarenta e três dólares – falou. – E, na carteira… – As espessas sobrancelhas se ergueram, ao revistá-la. Tirou para fora as notas e contou-as. – Dez notas de cem! – exclamou.
– Puxa vida! – assobiei. Mas, pela maneira como o policial me olhou, vi que não conseguia enganá-lo.
– Quanto é que havia na carteira quando você descobriu o cara? – perguntou ele. Não era um tira simpático e humano. Talvez fosse diferente quando estivesse no plantão de dia.
– Não tenho a menor idéia – respondi. O fato de não gaguejar já era um triunfo.
– Vai me dizer que não olhou?
– Não olhei.
– Ah, é? E por quê?
– Por que o quê? – Ainda bem que eu tinha ar de garoto.
– Por que você não olhou?
– Nem pensei nisso.
– É… – repetiu o tira, mas não insistiu. Contou de novo as notas. – Tudo em notas de cem. Um cara com tanto dinheiro podia escolher um lugar melhor para esticar as canelas do que isto aqui. – Recolocou as cédulas na carteira. – Vou levar isto para a delegacia – disse. – Algum de vocês quer contar?
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