Minha sorte começou a mudar em Nova York e, com a entrada do inverno, vi que tinha de procurar emprego se quisesse continuar a comer. Foi então que o recepcionista noturno do St. Augustine foi assaltado pela segunda vez.
Coloquei as últimas contas do dia 15 de janeiro no arquivo. Eram três horas da manhã do dia 16 de janeiro. Feliz aniversário! Levantei-me e espreguicei-me. Estava com fome, de modo que apanhei o sanduíche e a garrafa de cerveja.
Estava desembrulhando o sanduíche, quando ouvi a porta da escada de emergência se abrir no hall e passos rápidos de mulher. Estendi a mão para o interruptor e o hall ficou todo iluminado. Uma mulher jovem avançou, quase correndo para o balcão. Era altíssima e ainda por cima usava esses sapatos de plataforma e saltões que fazem as mulheres parecerem membros da tribo dos watusis. Vestia um casaco branco, imitando pele, e tinha na cabeça uma peruca loura que não enganava ninguém. Reconheci-a. Era uma prostituta que tinha entrado pouco depois da meia-noite, com o homem do apartamento 610. Olhei para o relógio. Passava um pouco das três horas da manhã. A farra tinha sido longa, no 610, e a mulher mostrava isso. Correu para a porta da frente, apertou sem resultado o botão enguiçado e depois voltou para o balcão. Bateu ruidosamente com os dedos no vidro sobre o balcão.
– Abra a porta, moço! – quase gritou. – Quero sair. Tirei a chave da gaveta sob o balcão onde guardava a pistola e fui até o escritório, onde havia um enorme cofre encostado na parede, ao lado de vários pequenos cofres para uso dos hóspedes. Esses pequenos cofres eram uma relíquia de tempos idos. Os hóspedes atuais não os utilizavam. Abri a porta e passei para o hall. A mulher seguiu-me em direção à porta da frente. Ofegava. A sua profissão não a mantinha em forma para descer correndo seis lances de escada no meio da noite. Devia ter uns trinta anos, que, pela aparência dela, não pareciam ter sido fáceis. As mulheres que entravam e saíam do hotel à noite eram um ótimo argumento a favor do celibato.
– Por que não desceu de elevador? – perguntei.
– Eu estava esperando o elevador – respondeu a mulher. – Mas então um velho louco apareceu na porta, nu, fazendo uns barulhos esquisitos, grunhindo como um bicho e brandindo não sei o quê…
– B… brandindo… o quê?
– Uma coisa que parecia um bastão de beisebol. Estava escuro no hall. Vocês não gastam dinheiro em luz, neste hotel! "- A voz dela estava rouca de uísque, parecia amassada com concreto, arranhava. – Não fiquei esperando para ver o que era. Caí fora. Se você quiser ver o que é, suba até o sexto andar e veja com seus próprios olhos. Agora, abra a porta. Preciso ir para casa.
Abri a grande porta de vidro da frente, reforçada por uma pesada grade de ferro forjado. Para um hotel velho e decadente como o St. Augustine, a gerência parecia demasiado preocupada com a segurança. A mulher empurrou a porta impacientemente e correu para a rua escura. Respirei fundo o ar frio da noite, enquanto o ruído dos saltos altos diminuía na direção da Lexington Avenue. Fiquei ainda um momento parado na porta, olhando para a rua, na esperança de que uma radiopatrulha passasse por ali. Sentir-me-ia muito melhor se pudesse subir ao sexto andar com um policial do lado. Não me pagavam para bancar o herói solitário. Mas a rua estava vazia. Ouvi uma sirena a distância, provavelmente na Park Avenue, o que não adiantava. Fechei a porta, tranquei-a e atravessei lentamente o hall na direção do escritório, pensando: "Será que vou passar o resto da minha vida abrindo portas para prostitutas?"
"Louvai-o com cordas e órgãos."
No escritório, tirei a chave-mestra da gaveta, olhei um momento para a pistola. Abanei a cabeça e fechei a gaveta. Não fora minha idéia colocar ali a pistola. Não tinha adiantado, na noite em que os dois viciados tinham entrado e carregado todo o dinheiro que havia, deixando o meu predecessor banhado em sangue no chão, com um galo do tamanho de um melão na cabeça.
Vesti o paletó, como se o fato de estar convenientemente trajado me desse mais autoridade perante qualquer situação que se me deparasse no sexto andar, e dirigi-me de novo para o hall, fechando a chave a porta do escritório. Apertei o botão do elevador e ouvi o guincho dos cabos e do elevador descendo.
Quando a porta se abriu, com um rangido, hesitei antes de entrar. Talvez, pensei, eu devesse voltar ao escritório, pegar o meu sobretudo, meu sanduíche e minha cerveja e dar o fora dali. Quem precisava daquele empreguinho à-toa? Mas, quando a porta começou a se fechar, eu entrei.
Mal cheguei ao sexto andar, apertei o botão que mantinha a porta do elevador aberta e saí para o corredor. Uma luz estava acesa no quarto bem em frente do elevador, de número 602. Sobre o tapete gasto do corredor, metade na sombra e metade na luz, estava um homem nu, caído de bruços, a cabeça e o tronco na sombra, as nádegas enrugadas e as pernas magras de velho obscenamente iluminadas. O braço esquerdo estava estendido, os dedos da mão dobrados, como se o homem tivesse procurado segurar algo ao cair. O braço direito estava debaixo do seu corpo e todo ele estava imóvel. Ao me inclinar para virá-lo, já tinha a certeza de que nada que eu pudesse fazer, nem ninguém que eu pudesse chamar lhe poderia valer.
O homem era pesado, com uma grande barriga flácida que não combinava com as pernas e as nádegas magras, e resmunguei, ao colocar o corpo de costas. Foi então que vi o que a prostituta tinha dito que o homem havia brandido em sua direção e que lhe parecera um bastão de beisebol. Não era um bastão e sim um longo tubo de papelão, embrulhado em papel pardo, do tipo que os artistas e arquitetos usam para carregar gravuras e plantas sem amassar. A mão do homem continuava a segurá-lo. Não me espantava que a mulher tivesse ficado apavorada. À luz fraca do corredor, também eu teria ficado apavorado se um homem nu tivesse surgido de repente, brandindo aquilo ameaçadoramente para cima de mim.
Levantei-me, sentindo um arrepio percorrer-me, juntando coragem para tocar uma vez mais no corpo. Olhei para o rosto sem vida. Os olhos estavam abertos, como que olhando para mim, a boca torcida numa última careta torturada. Emitindo grunhidos de animal, dissera a prostituta. Não havia sangue, nenhum sinal de ferimento. Eu nunca vira aquele homem, mas issO não era de espantar, pois muitas vezes entrava de serviço depois que os hóspedes já se tinham recolhido e saía antes que eles descessem, de manhã. Tinha uma cara redonda e gorda de velho, com um nariz grande e carnudo e um resto de cabelo grisalho no crânio quase calvo. Mesmo descomposta pela morte, era uma face que traduzia poder e importância.
Lutando contra a náusea crescente, ajoelhei-me e encostei o ouvido ao peito do homem. Tinha mamas como as de uma velha, com alguns fios de cabelo branco e úmido e mamilos quase verdes à luz elétrica. O corpo continuava cheirando a suor, mas sem-movimento, sem ruído. "Velhinho," pensei, levantando-me, "por que diabos você foi morrer justamente no meu plantão?"
Curvei-me de novo, coloquei as mãos sob as axilas do morto e arrastei-o pela porta aberta do quarto número 602. Não se pode deixar um corpo nu caído no corredor, sem mais nem menos. O tempo que eu trabalhava na indústria hoteleira já dava para saber que um morto era coisa que não se deixava a vista dos hóspedes.
Ao puxar o corpo para o pequeno hall que comunicava com o quarto, o tubo de papelão rolou para o lado. Coloquei o corpo no quarto, ao lado da cama, que era uma confusão de lençóis e cobertores, com manchas de batom sobre os travesseiros. Provavelmente da mulher para quem eu abrira a porta à uma da manhã. Contemplei, com um pouco de piedade, o velho corpo nu sobre o tapete gasto, a carne flácida e sem vida contra o papel de parede desbotado. Uma última ereção. O prazer e, depois, a morte.
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