– I… imagine! – falei, com um sorriso.
– Pense no assunto – disse Wales. – Vai divertir-se como nunca.
– P… pare de tentar um pobre trabalhador – falei.
– Que diabo! – exclamou Wales. – Todo mundo tem direito a férias.
– V… vou pensar no c… caso – prometi.
Ele voltou para o seu assento, deixando o cheiro de uísque na cabina. Quanto a mim, conservei os olhos no horizonte, nitidamente delineado contra o azul brilhante do céu hibernai, tentando não ter inveja de um homem como Wales, sem jeito nenhum para esquiar, mas que podia deixar de trabalhar três semanas e gastar milhares de dólares para esquiar nos Alpes.
Depois de passar pelo escritório e confirmar que não havia serviço naquele fim de semana, dirigi-me à cidade no meu Volkswagen para o exame médico rotineiro que fazia duas vezes por ano. O Dr. Ryan era especialista em oftalmologia, mas fazia também clínica geral. Um velho agradável, de movimentos lentos, que há cinco anos me auscultava, tirando-me a pressão arterial e examinando-me os olhos e os reflexos. Exceto numa ocasião, em que eu adoecera de gripe, nunca me receitara sequer uma aspirina. "Em forma para o Grande Prêmio", dizia-me sempre, quando terminava de me examinar. Compartilhava do meu interesse por corridas de cavalos e, de vez em quando, telefonava para minha casa, quando descobria um animal muito pouco cotado e que, na sua opinião, era uma barbada.
O exame seguiu a rotina habitual, com o médico anuindo confortavelmente a cada teste. Foi só quando me examinou os olhos que sua expressão mudou. Li as letras bem, mas, quando ele utilizou os instrumentos para me ver os olhos, seu rosto tornou-se sério. A enfermeira entrou duas vezes no consultório para lhe dizer que havia pacientes esperando com hora marcada, mas ele mandou-a embora com um gesto brusco. Aplicou-me uma série de testes que eu não conhecia, fazendo-me olhar em frente, enquanto ele conservava as mãos no colo, e depois erguendo lentamente as mãos e pedindo-me para lhe dizer quando elas entrassem no meu campo de visão. Finalmente, pôs de lado os instrumentos, sentou-se pesadamente à sua escrivaninha, suspirou e passou a mão fatigadamente pelo rosto.
– Sr. Grimes – disse, por fim -, sinto ter de lhe dar más notícias.
As notícias que o velho Dr. Ryan me deu naquela manhã de sol, no seu consultório démodê, modificaram toda a minha vida.
– O nome científico da doença – continuou ele – é retinosquise. Trata-se de uma fissura das dez camadas da retina, dando origem a um quisto. Na maioria dos casos, não progride, mas é irreversível. Às vezes, podemos deter a doença operando com raio laser. Uma de suas manifestações é o bloqueio da visão periférica. No seu caso, da visão periférica para baixo. Para um piloto, que tem de estar alerta a todo um conjunto de mostradores à frente e em volta, bem como ao horizonte na direção do qual avança, é uma doença incapacitadora… Fora disso, para todos os outros fins, como ler, praticar esportes, etc, o senhor pode considerar-se normal.
– Normal – repeti. – Normal! O senhor sabe que a única coisa normal para mim, doutor, é voar. Foi sempre a única coisa que eu quis fazer, a única coisa para a qual me preparei…
– Vou mandar o relatório ainda hoje, Sr. Grimes – disse Ryan. – Com profundo pesar. Naturalmente, o senhor pode consultar outro médico. Outros médicos. Acho que não vão poder ajudá-lo, mas essa é apenas a minha opinião. No que me diz respeito, a partir deste momento o senhor não vai poder mais voar. Nunca mais. Sinto muito.
Lutei para reprimir o ódio que senti por aquele velho bem-posto, sentado entre os seus instrumentos, assinando atestados condenatórios com a sua letra complicada de médico. Sabia que não tinha razão, mas aquele não era o momento para pensar em razões. Saí do consultório sem apertar a mão de Ryan, dizendo "Maldição, maldição" em voz alta para mim mesmo, não ligando para as pessoas na sala de espera e na rua, que me olhavam intrigadas enquanto me dirigia para o bar mais próximo. Sabia que não podia voltar ao aeroporto e dizer o que teria de dizer sem antes me fortalecer. E muito bem.
O bar era decorado como um pub [1] inglês, todo em madeira escura e com canecas de latão nas paredes. Mandei vir um uísque. Um velho magro, de macacão caqui e boné de caçador vermelho, estava encostado ao balcão do bar, com um copo de cerveja à sua frente.
– Estão poluindo todo o lago – dizia ele, num sotaque de Vermont. – A fábrica de papel. Em cinco anos, vai ficar como o lago Erie. E continuam botando sal nas estradas, para esses idiotas de Nova York poderem correr a cento e vinte por hora até Stowe, Mad River e Sugarbush. Quando a neve derrete, o sal escorre para os lagos e os rios. Quando eu morrer, não vai haver nenhum peixe vivo em todo o Estado. E ninguém toma medidas contra isso. Ainda bem que não vou viver para ver.
Pedi outro uísque. O primeiro não me fez qualquer efeito. Nem o segundo. Paguei e entrei no carro. Pensar que o lago Champlain, onde nadara todos os verões e passara tantos dias felizes, velejando ou pescando, ia acabar pareceu-me mais triste do que tudo o que me havia acontecido.
Quando entrei no escritório vi, pela expressão no velho rosto de Cunningham, que o Dr. Ryan já se comunicara com ele. Cunningham era o presidente e único dono da pequena companhia de aviação, além de piloto veterano da Segunda Guerra, de modo que sabia como eu me sentia.
– V… vou-me embora, Freddy – falei. – Você sabe p… por quê.
– Sei – respondeu ele. – E sinto muito – acrescentou, brincando nervosamente com um lápis que havia sobre sua mesa. – Você sabe que sempre lhe podemos arrumar um trabalho aqui. Quem sabe no escritório… na manutenção… – A voz foi sumindo, e ele ficou olhando para o lápis.
– Obrigado – falei. – É muito gentil de sua parte, mas não adianta. – Se havia alguma coisa de que eu tinha a certeza era que não ia poder ficar ali, como um pássaro aleijado, vendo todos os meus amigos decolarem. E não queria acostumar-me com o olhar de piedade no rosto de Freddy Cunningham ou em qualquer outro rosto.
– De qualquer maneira, Doug, pense bem – disse Cunningham.
– N… não é preciso – retruquei.
– Quais são os seus planos?
– Em primeiro lugar – respondi -, ir embora daqui.
– Para onde?
– Para qualquer lugar.
– E depois?
– Depois, vou pensar no que fazer com o resto da minha vida – respondi, gaguejando duas vezes na palavra "vida".
Ele fez que sim com a cabeça, evitando olhar para mim, parecendo muito interessado no lápis.
– Que tal você anda de dinheiro?
– Tenho o bastante… por ora.
– Bem – disse -, se alguma vez… você sabe que pode contar sempre comigo, não?
– Não vou esquecer. – Olhei para o relógio. – Tenho um encontro.
– Droga – disse ele, em voz alta. Depois levantou-se e apertou-me a mão.
Não me despedi de mais ninguém.
Estacionei o carro, saí e fiquei à espera. Do grande edifício de tijolos vermelhos, com uma inscrição em latim na fachada e a bandeira americana flutuando, vinha uma espécie de zumbido. O zumbido do aprendizado, pensei, uma musiquinha que me trouxe à memória a infância.
Pat estaria na sua sala, falando aos alunos sobre as origens da Guerra Civil ou a sucessão dos reis da Inglaterra. Levava a história a sério.
"É a mais importante das matérias", dissera-me ela certa vez. "Tudo o que fazemos hoje em dia é o resultado do que os homens e as mulheres têm feito desde o início da história."
Lembrando-me disso, ri amargamente. Teria eu nascido gago ou ficado incapacitado para voar porque Meade repelira Lee em Gettysburg, ou porque Cromwell mandara decapitar Charles? Seria um bom tema para discussão, quando tivéssemos um momento livre.
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