– Posso, pelo menos, conhecer a noiva? – perguntou ele, patético.
– Se não procurar convencê-la – respondi. – A respeito de nada.
– Você é mesmo um bom sócio – queixou-se ele. – Desisto. Quando posso conhecê-la?
– Vou a Sag Harbor amanhã de manhã.
– Não vá cedo demais – disse ele. – Tenho uns negócios a tratar, a partir das dez.
– Naturalmente – concordei.
– Explico-lhe tudo que tenho feito, ao jantar. Você vai ficar satisfeito.
– Tenho certeza disso – respondi.
E fiquei a ouvi-lo falar de negócios enquanto jantávamos, num pequeno restaurante francês do East Side, pato com azeitonas, acompanhado por um belo Borgonha. Fiquei sabendo que estava bem mais rico do que quando vira o avião dele decolar de Cointrin, com o caixão de Sloane no bojo. Naturalmente, Miles Fabian também estava mais rico.
Eram quase seis da tarde quando chegamos à casa de Evelyn, atravessando a paisagem rural à beira-mar. Fabian resolvera parar num hotel de Southampton e eu esperara por ele enquanto tomava banho, mudava de roupa e fazia duas ligações transatlânticas. Eu lhe dissera que Evelyn o estava esperando e lhe preparara o quarto de hóspedes, mas ele retrucara:
– Não, meu velho. Não gosto de ficar acordado a noite inteira, ouvindo sons de êxtase. Principalmente quando se é íntimo dos interessados.
Lembrei-me de Brenda Morissey falando sobre o mesmo fenômeno na cozinha do apartamento de Evelyn em Washington, e não insisti.
Quando nos aproximamos da casa, vimos que o lampião junto à porta estava aceso. Evelyn não queria ser apanhada de surpresa.
O lampião derramava uma luz suave e acolhedora sobre o gramado em frente à casa, que fora construída em cima de um penhasco debruçado sobre o mar. Margeando a propriedade, havia grupos de pinheiros e carvalhos, açoitados pelo vento. Não se viam outras casas. A distância, o poente deitava um último fulgor sobre a baía. A casa em si era pequena, feita de ardósia cinzenta no estilo de Cape Cod, com um telhado inclinado e mansardas. Fiquei imaginando se iria viver e morrer lá.
Fabian insistira em trazer duas garrafas de champanha como presente, embora eu lhe tivesse dito que Evelyn gostava de uns drinques e certamente teria bebidas em casa. Não se ofereceu para ajudar-me a carregar minhas malas até a casa. Achava que duas garrafas de champanha já eram carga de sobra para um homem da sua posição.
Ficou olhando para a casa como se para um inimigo.
– Pequena, você não acha? – falou.
– Acho que é suficientemente grande – respondi. – Não partilho das suas manias de grandeza.
– O que é uma pena – disse ele, revirando o bigode.
Percebi, espantado, que ele estava nervoso.
– Vamos! – disse eu.
Mas ele hesitou.
– Não seria melhor se você entrasse sozinho? – sugeriu. – Eu podia dar um passeio e voltar daqui a quinze minutos. Não há nada que você queira dizer à moça a sós?
– Agradeço-lhe o tato – respondi -, mas não é necessário. Disse tudo o que queria dizer pelo telefone, em Vermont.
– Você tem certeza de que sabe o que está fazendo?
– Absoluta. – Peguei-o firmemente pelo braço e encaminhamo-nos para a porta.
Não vou dizer que a noite foi um completo sucesso. A casa estava encantadora, embora decorada e mobiliada com parcimônia, mas era pequena, como Fabian observara. Evelyn pendurara os dois quadros que eu tinha comprado em Roma e eles dominavam a sala de um jeito estranho, quase ameaçador. Evelyn estava esportivamente vestida, com calça escura e suéter, marcando bem o fato, talvez até demasiado, de que não pretendia fazer nada para impressionar o primeiro amigo meu que conhecia. Agradeceu a Fabian o champanha, mas disse que não estava com vontade de tomá-lo e foi à cozinha preparar martínis.
– Vamos deixar o champanha para o casamento – decretou.
– Não é o único champanha que há no mundo, minha cara – disse Fabian.
– Mesmo assim – retrucou Evelyn com firmeza, entrando na cozinha.
Fabian olhou para mim, como se fosse dizer-me alguma coisa, mas suspirou e deixou-se cair numa grande poltrona de couro. Quando Evelyn voltou com os martínis, ele ficou revirando o bigode, pouco à vontade, e fingiu apreciar o drinque. Eu sabia que ele estava todo preparado para tomar champanha.
Evelyn ajudou-me a levar as malas para o nosso quarto, que ficava em cima. Não era uma dessas mulheres americanas que acham que a Constituição lhes garante nunca precisarem de carregar nada mais pesado do que uma bolsa contendo um pente e um talão de cheques. Era mais forte do que aparentava. O quarto era grande, ocupando quase toda a largura da casa, e tinha um banheiro a um dos lados. Havia uma enorme cama de casal, uma penteadeira, estantes de livros e duas cadeiras de balanço de madeira e cana-da-índia. Havia também abajures, bem colocados, para ler.
– Você acha que vai ser feliz aqui? – perguntou ela, num tom estranhamente ansioso.
– Muito. – Tomei-a nos braços e beijei-a.
– Ele é que não está muito feliz, o seu amigo – sussurrou ela. – Não é mesmo?
– Vai ficar. – Procurei fazer com que minha voz soasse confiante. – De qualquer maneira, não é ele que vai se casar com você, e sim eu.
– Espera-se – disse ela, ambiguamente. – Faminto de poder. Conheci muitos assim em Washington. A boca se contrai quando é contrariado. Ele esteve no Exército?
– Esteve.
– Terá sido coronel? Parece um coronel aborrecido porque a guerra acabou.
– Nunca lhe perguntei.
– Dá a impressão de que vocês são muito chegados.
– E somos.
– Como é que você nunca lhe perguntou qual era a patente dele?
– Não sei.
– Maneira estranha de ser chegado – disse ela, saindo dos meus braços.
Fabian estava de pé junto da lareira, olhando para o quadro da rua principal, pintado por Ângelo Quinn. Não fez nenhum comentário, quando nos viu descer a escada para o living, mas estendeu a mão para o martíni meio tomado.
– Agora, crianças – disse ele, com falsa animação -, deixem-me convidá-los para um magnífico jantar de mariscos. Há um restaurante em Southampton que eu…
– Não é preciso ir até Southampton – atalhou Evelyn. – Há um lugar aqui mesmo, em Sag Harbor, que serve as melhores lagostas deste mundo.
A boca de Fabian se contraiu, mas tudo o que ele disse foi:
– Como você quiser, minha cara.
Ela subiu para buscar um casaco e eu e Fabian ficamos sozinhos um momento.
– Gosto de uma mulher – disse ele, com um brilho duro nos olhos – que tem opinião. Pobre Douglas!
– Pobre por quê? – retruquei.
Ele deu de ombros, retorceu as pontas do bigode, virou-se para olhar para o quadro sobre a lareira.
– Onde foi que ela comprou isso? – perguntou.
– Em Roma – respondi. – Eu o comprei para ela.
– Você? – disse ele, num tom de surpresa nada lisonjeira. – Interessante. Lembra-se do nome da galeria?
– Bonelli. Fica na via…
– Sei muito bem onde fica. Conheço o velho da dentadura. Quando for a Roma, talvez dê uma olhada…
Evelyn desceu do quarto, com o casaco no braço, e Fabian correu para ajudá-la a vesti-lo. Via-se que a considerava atraente, pois seus movimentos eram acariciantes, mais de amante do que de maître. Encarei isso como um bom sinal.
A lagosta era tão boa quanto Evelyn prometera, e Fabian mandou vir uma garrafa de vinho branco americano que, segundo ele, era quase tão bom quanto o vinho branco francês. Tão bom, que mandou vir outra garrafa. A essa altura, a atmosfera estava suficientemente relaxada. Fabian brincou comigo a respeito dos meus ternos romanos, elogiou minha maneira de esquiar e disse a Evelyn que ela devia deixar que eu lhe servisse de instrutor, falou de Gstaad, St. Paul-de-Vence e Paris, contou duas piadas engraçadas a respeito de Giuliano Quadrocelli, ouviu-nos, com ar sério, descrever a explosão do iate no cais, não trouxe à baila os nomes de Lily ou Eunice, não falou em negócios, em nenhuma altura interrompeu Evelyn e comportou-se como o mais encantador dos anfitriões. Via-se que decidira conquistar Evelyn, e eu esperava que ele o conseguisse.
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