– Puxa vida, homem! – exclamou Fabian, quando ouviu minha voz. – Você sabe que horas são?
– Meio-dia.
– Na Itália – retrucou Fabian. – Aqui são seis da manhã. Que pessoa civilizada é capaz de acordar um amigo às seis da matina?
– Desculpe – disse eu. – Estava ansioso por lhe dar a boa notícia.
– Que boa notícia? – perguntou ele, num tom desconfiado.
– Vou voltar aos Estados Unidos.
– E o que há de bom nisso?
– Eu lhe direi quando nos virmos. Assunto particular. Está me ouvindo? A ligação está péssima.
– Estou ouvindo, sim – disse ele. – Bem demais.
– A verdadeira razão por que lhe estou telefonando é para saber onde você quer que eu deixe o carro.
– Por que você não espera aí onde está até que eu volte e possamos falar calmamente?
– Não posso esperar – falei. – E estou calmo.
– Não pode esperar. – Ouvi-o suspirar do outro lado do fio. – Muito bem… pode levar o carro até Paris? Peça ao recepcionista do Plaza-Athénée que o guarde na garagem para mim. Preciso tratar de uns negócios em Paris.
Podia ter mencionado um lugar mais conveniente: por exemplo, Fiumicino. Era um homem que tinha negócios em todas as partes – Roma, Milão, Nice, Bruxelas, Genebra, Helsínqui. Estava sendo propositalmente inconveniente para me punir. Mas eu não estava com vontade de discutir com ele.
– Está bem – disse eu. – Deixo o carro em Paris.
– Sabe que me estragou o dia, não sabe?
– Vai haver outros dias – retruquei.
Quando chegamos ao porto e estacionamos o carro, avistei Quadrocelli enrolando corda no deck do seu pequeno iate branco, ancorado na doca do Iate Clube. A maioria dos outros barcos estava ainda coberta com encerados e, exceto por ele, a doca estava deserta.
Evelyn ia cantarolando, a caminho da doca. Fizera-me parar numa farmácia e comprar Dramamine. Desconfiei de que ela gostava tanto do mar quanto a Sra. Quadrocelli.
– Tem certeza de que não vai me afogar, quando estivermos no meio do mar? – perguntou ela. – Como aquele fulano no filme Uma Tragédia Americana, quando descobre que Shelley Winters está grávida?
– Montgomery Clift – disse eu. – Só que não sou Montgomery Clift nem você é Shelley Winters. E o filme não se chamava Uma Tragédia Americana e sim Um Lugar ao Sol.
– Disse isso só de brincadeira – falou ela, sorrindo para mim.
– Que brincadeira! – Mas sorri também. Fora uma brincadeira sem graça, mas pelo menos mostrava que ela estava pronta a fazer um esforço para não estragar o resto dos nossos dias na Europa. O longo percurso através da França seria difícil, se ela ficasse sentada no canto do carro, calada e distante, como fizera nessa manhã ao virmos de Roma. Depois de falar com Fabian, dissera-lhe que teria de guiar até Paris e perguntara-lhe se ela queria vir comigo.
– Você quer que eu vá? – replicou ela.
– Quero.
– Então, eu vou – respondera ela, secamente. Quadrocelli viu-nos tão logo chegamos à doca e pulou agilmente do barco para vir ao nosso encontro, robusto e náutico na sua velha calça de veludo e em seu suéter de marujo.
– Subam, subam – disse ele, inclinando-se para beijar a mão de Evelyn e apertando cordialmente a minha. – Está tudo pronto. Já preparei tudo. O mar, como podem ver, está calmo como um lago e azul como nos calendários. A cesta com o lanche está pronta. Frango, ovos cozidos, queijo, frutas, vinho. Comida adequada a quem vai navegar…
Estávamos a uns vinte metros do barco, quando ele explodiu. Pedaços de madeira, de vidro e de arame voaram à nossa volta, forçando-nos a nos estendermos ao comprido no chão. Depois, tudo ficou num silêncio de morte. Quadrocelli levantou-se lentamente e olhou para seu iate. A popa fora arrancada e flutuava no mar, formando um estranho ângulo com a doca, como se o barco tivesse sido partido ao meio.
– Você está bem? – perguntei a Evelyn.
– Acho que sim – respondeu ela, num fio de voz. – E você?
– Ok – respondi.
Levantei-me e passei o braço pelos ombros dela. – Giuliano… – comecei a falar.
Mas ele não olhou para mim. Não tirava os olhos do barco.
– Fascisti – murmurou. – Fascisti! Miseráveis! – Começou a sair gente dos prédios em frente ao cais e logo nos vimos cercados por uma multidão, todo mundo falando ao mesmo tempo, fazendo perguntas. Quadrocelli parecia não ver ninguém. – Leve-me para casa, por favor – disse-me ele. – Acho que não vou conseguir guiar. Quero ir para casa.
Abrimos caminho por entre a multidão até o nosso carro. Quadrocelli não voltou a olhar para o seu barquinho, que afundava lentamente nas águas cheias de óleo do cais.
Já no carro, começou a tremer. Violentamente, incontrolavelmente. Sob o bronzeado, seu rosto estava mortalmente pálido.
– Eles podiam ter matado vocês, também – disse, batendo os dentes. – Se tivessem chegado dois minutos mais cedo… Perdoem-me. Perdoem-nos a todos. Dolce Itália. Paraíso dos turistas. – Ria como se estivesse louco.
Quando chegamos à casa dele, não quis que entrássemos, nem mesmo que saíssemos do carro.
– Por favor – disse ele -, preciso falar com minha mulher. Não quero parecer mal-educado, mas precisamos ficar a sós.
Vimo-lo caminhar, lentamente, parecendo um velho, até a porta da casa.
– Pobre homem! – foi tudo quanto Evelyn pôde dizer.
Voltamos para o hotel. Não dissemos nada do que acontecera a ninguém. Logo ficariam sabendo. Tomamos cada um uma dose de conhaque, no bar. Dois mortos, pensei, um em Nova York, outro na Suíça, e por um triz que não morreu mais ninguém na Itália. Evelyn pegou o seu copo com mão firme. A minha não estava.
– À bela Itália – brindou ela. – O sole mio. Acho que está na hora de ir embora, você não acha?
– Acho – respondi.
Subimos, fizemos as malas, pagamos e saímos do hotel, rumo ao norte, tudo em vinte minutos. Não paramos, exceto para pôr gasolina, até depois da meia-noite, quando já tínhamos passado a fronteira e estávamos em Monte Cario. Evelyn insistiu em ver o cassino e tentar a sorte na roleta. Eu não tinha vontade de jogar, nem mesmo de apreciar, de modo que fiquei à espera no bar. Dali a pouco, ela voltou, sorridente. Tinha ganho quinhentos francos e pagou a minha conta para festejar. Quem acabasse casando com ela teria uma mulher de nervos de aço.
Evelyn acompanhou-me a Orly no carro alugado, com chofer. O Jaguar ficara na garagem, à espera de Fabian. Evelyn ia ficar mais uns dias em Paris. Havia anos que não ia a Paris e achava uma pena não aproveitar. De qualquer maneira, eu ia para Boston e ela viajaria direto para Nova York. Durante a viagem através da França, ela se mostrara carinhosa e despreocupada. Tínhamos viajado sem pressa, parando para visitar lugares e fazer refeições nos arredores de Lyon e Avallon. Ela tirara fotos minhas diante do Hospice de Beaune, onde visitamos as adegas, e no pátio de Fontainebleau. Passáramos a última noite perto de Paris, em Barbizon, numa velha e encantadora estalagem. Tínhamos jantado maravilhosamente bem. Durante o jantar, eu lhe contara tudo. De onde provinha meu dinheiro, como conhecera Fabian, qual o nosso trato. Tudo. Ela escutara sem dizer nada. Quando, por fim, terminei, ela riu.
– Bem – falou -, agora já sei por que você quer se casar com uma advogada. – E, inclinando-se sobre a mesa, beijou-me. – Conhece aquele ditado que diz: "Ladrão que rouba ladrão…"? – disse ela, sem parar de rir. – Não se preocupe, querido. Não sou contra certos tipos de roubo.
Dormimos a noite toda nos braços um do outro. Sem o dizermos, sabíamos que um capítulo das nossas vidas estava terminando e tacitamente adiávamos o fim. Ela não fez mais perguntas sobre Pat.
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