Comecei a ver que teria de ficar alerta às súbitas mudanças de assunto na conversa de Quadrocelli.
– É, um amigo nosso – falei.
– Espero que não tenha sido dolorosa.
– Acho que não foi.
– Ah! – exclamou ele. – Somos todos mortais. – Abraçou-se a si mesmo, como para ter a certeza de que o seu corpo continuava vivo. – Falemos de coisas mais agradáveis. Já esteve na Itália?
– Não – respondi, não achando que devia incluir a viagem a Florença, atrás de Miles Fabian.
– Permita-me, então, ser seu guia. É um país maravilhoso, cheio de surpresas. Algumas até boas. – Riu. Via-se que gostava de rir das próprias piadas. Simpatizara logo com ele, com a sua vitalidade, a sua saúde, a sua cínica sinceridade. – Já não somos grandes, mas herdeiros de grandeza. Zelamos mal pelas coisas, mas elas continuam de pé, embora algumas em ruínas. Faço questão de que vá a minha casa, perto de Florença, e veja os vinhedos com seus próprios olhos, beba o seu vinho onde ele é cultivado e produzido. Tenho algumas garrafas na adega que lhe farão vir lágrimas aos olhos, isso eu lhe garanto. Gosta de ópera?
– Nunca assisti a uma sequer.
– Vou levá-lo ao Scala, em Milão. O senhor vai ver o que é êxtase. Pensa ficar muito tempo na Itália?
– Isso depende, até certo ponto, de Miles.
– Não tenha pressa em ir embora, por favor. Não quero que as nossas relações sejam apenas comerciais – disse ele. – Sei que parece bobagem, mas isso prejudicaria o vinho. Gosta de navegar?
– Só andei em barcos pequenos, num lago que há na minha terra.
– Tenho um pequeno iate de oito metros de comprimento, aqui no porto. Podemos ir a Genuttri. – Indicou, com a mão, a ilha, que agora parecia uma pequena nuvem no horizonte. – Ainda está praticamente virgem, o que não é pouco, nos dias que correm. Infelizmente, não se pode nadar. A água parece feita de safiras, mas é demasiado fria. Faremos um piquenique e tomaremos sol. O senhor vai querer viver lá o resto de sua vida. Nos Estados Unidos, onde é que o senhor mora?
Hesitei.
– Em Vermont. Mas viajo muito.
– Vermont – repetiu ele, estremecendo. – Não posso entender por que há gente que gosta de morar no gelo e na neve. Como o nosso Miles, com a sua mania de esquiar. Já lhe disse que há uma casa ao lado da minha à venda. Uma linda casa, que eu podia conseguir bem barato. E, com o italiano dele… Podia viver como um rei. Com a idade dele, tinha uma boa chance de morrer antes que tudo virasse ruínas. Ouvi dizer que ele herdou um dinheiro… – sondou Quadrocelli, com uma expressão astuta, os olhos se estreitando. – É certo ou mero boato?
– Não sei – respondi. – Como já lhe disse, conheço-o há pouco tempo.
– Muito bem – disse ele. – Vejo que o senhor é discreto. Se Miles achar por bem, ele mesmo me dirá, não é?
– Acho que sim.
– Permita que lhe pergunte, Sr. Grimes… Ah! – Fez um gesto de impaciência. – Qual o seu nome de batismo?
– Douglas.
– O meu é Giuliano. Bem, permita que lhe pergunte, Douglas… qual o seu ramo de negócios?
Hesitei de novo.
– Bem, principalmente investimentos.
– Não pense que sou curioso – disse Quadrocelli, colocando as mãos à sua frente, num movimento de freio. – O fato de você ser amigo de Miles é o bastante para mim. Ou para qualquer pessoa. – Levantou-se. – Bem, está na hora do almoço. Pasta e peixe fresco. Comida simples, mas nunca tive uma dor de estômago desde que me casei. O médico diz que estou gordo, mas não pretendo virar galã de cinema. – Riu de novo.
Levantei-me, ele enfiou o braço no meu e dirigimo-nos para a porta do hotel. Mas, antes de a abrirmos, a porta se abriu e Evelyn Coates surgiu ao belo sol italiano.
– Lorimer telefonou-me – disse ela. – Disse-me que você devia estar aqui. Espero não ter vindo atrapalhar.
– Não, não veio – garanti.
Talvez fosse a primavera no Mediterrâneo, ou o fato de estar de férias ou simplesmente longe de Washington, mas, fosse qual fosse a razão, Evelyn era outra mulher. A dureza e o ar autoritário que me tinham repelido, quando a conhecera, tinham-se dissipado. Ela estava mais meiga, mais tranqüila, procurando não ferir. Quando fazíamos amor, eu já não tinha a impressão de que ela estava procurando desesperadamente algo que nunca encontraria. Mesmo naquela última noite de domingo em Washington, apesar da ternura, eu via agora que ela estivera tensa. Passávamos horas a sós, tomando sol, dando-nos as mãos, falando de ninharias, rindo como crianças de pequenas coisas, como as nossas tentativas de falar em italiano com um garçom ou de fazer poses para as fotos que tirávamos com a máquina que Evelyn trouxera.
Ao vê-la chegar, o Sr. Quadrocelli deixara-nos diplomaticamente a sós, dizendo:
– Deve haver muita coisa que você queira falar com a sua linda amiga americana. Podemos almoçar juntos amanhã, em vez de hoje. Minha mulher vai compreender. E as minhas três filhas. – De novo a sua risada robusta ressoou. – Sabe, já não tenho pena de você, Douglas. – Piscou o olho. – Nem um pouco.
Depois, telefonara durante a tarde, pedindo mil desculpas, para dizer que tinha recebido um telefonema e que tinha de voar nessa mesma tarde para Milão, pois tinha havido sabotagem na gráfica.
– Imagine! – exclamou. – Até num sábado. – Mas voltaria o mais depressa possível, prometeu. E mandou cumprimentos para a bela americana. Telefonara depois do almoço, quando eu e Evelyn estávamos na cama, no quente e bonito quarto debruçado sobre o mar, todas as nossas fomes momentaneamente saciadas. Embora eu lamentasse a sabotagem na gráfica de Quadrocelli, não sentia o fato de não poder almoçar com ele, por mais simpático que o achasse: teria mais tempo para estar com Evelyn.
O hotel estava praticamente vazio por não ser temporada e era como uma luxuosa casa de campo, equipada com um pessoal simpático e eficiente, às nossas ordens. O grande terraço, que pertencia ao quarto, era indevassável e jazíamos nus ao sol, lado a lado, durante horas, bronzeando-nos. O corpo de Evelyn parecia mais suave e mais redondo. Em Washington, era duro e tenso, treinado para competir, o corpo de uma mulher que religiosamente fazia ginástica e tomava massagens para se manter em forma. Falávamos de várias coisas, mas nunca sobre Washington ou sobre o seu trabalho. Não lhe perguntei quanto tempo ela poderia ficar comigo e ela não disse quando teria que ir embora. Não lhe contei a conversa que tivera com Lorimer no Tre Scalini.
Foi um interlúdio maravilhoso, sensual e despreocupado, não perturbado por relógio ou calendário, num belo país, cuja língua não falávamos e cujos problemas não eram os nossos. Não líamos jornais, não escutávamos rádio e não fazíamos planos para o futuro. Fabian telefonou-me diversas vezes para me dizer que as coisas estavam indo otimamente em Nova York e que estávamos ficando cada dia mais ricos, mas que, devido a certas complicações que não me iria explicar por telefone, teria de ficar nos Estados Unidos mais tempo do que esperava. Quadrocelli mandara-me os cálculos relativos ao negócio da vinha e eu os enviara a Fabian sem sequer olhar para eles. Tudo esplêndido, disse Fabian, e, quando Quadrocelli voltasse a Porto Ercole, eu lhe podia dizer que aceitava suas condições.
– Incidentalmente – perguntei -, como foi o funeral?
– Um prazer – respondeu Fabian. – Ah, já me ia esquecendo… seu irmão veio a Nova York me visitar. É bem diferente de você, não?
– É, acho que sim – falei.
– Ele diz que a companhia da qual vocês são sócios promete. Contou-me do problema com os olhos e eu mandei-o ao meu médico em Nova York, que o está tratando com um novo medicamento. O médico diz que ele vai ficar bom. Lily manda um abraço.
Читать дальше