A brisa tornou-se mais forte e despenteou-a de novo.
— Bem, dêem-nos uma apitadela quando descobrirem frisou.
Como moscas para rapazes traquinas somos nós para os deuses
Eles matam-nos por divertimento.
WILIAM SHAKESPEARE. King Lear, IV, I, 36
Quem é todo-poderoso deveria temer tudo.
PIERRE CORNEILL. Cinema (1640), ato IV, cena II
Estavam loucos de alegria por voltar. Gritavam de contentamento, tontos de excitação. Passaram por cima das cadeiras. Abraçaram-se e deram palmadas nas costas uns dos outros. Estavam todos à beira das lágrimas. Tinham conseguido — mas não apenas isso: tinham regressado, tinham passado em segurança por todos os túneis. Bruscamente, no meio de uma saraivada de estática, o rádio começou a relatar o estado da Máquina. Todos os três benzels estavam a desacelerar. A carga elétrica acumulada estava a dissipar-se. Pelo comunicado, tornava-se evidente que o Projeto não fazia idéia nenhuma do que acontecera.
Ellie perguntou a si mesma quanto tempo teria decorrido. Olhou para o relógio de pulso. Um dia, pelo menos, o que os colocava já no ano 2000. Muito apropriado. «Oh, só quero ver a cara deles quando ouvirem o que temos para lhes dizer!» pensou. Num gesto tranqüilizador, deu uma palmadinha no compartimento onde estavam acondicionadas as dúzias de videomicrocassetes. Como o mundo mudaria quando aquelas películas fossem reveladas!
O espaço entre e à volta dos benzels fora repressurizado. As portas da câmara de vácuo estavam a abrir-se. Agora perguntavam-lhes, via rádio, como se sentiam.
— Estamos ótimos! — gritou ela pelo seu microfone. — Deixem-nos sair. Nem acreditarão no que nos aconteceu.
Os Cinco emergiram da câmara de vácuo, felizes, a saudar efusivamente os camaradas que os tinham ajudado a construir e a pôr a Máquina em funcionamento. Os técnicos japoneses saudaram-nos. Funcionários do Projeto avançaram direitos a eles.
Devi disse tranqüilamente a Ellie:
— Tanto quanto me apercebo, toda a gente usa exatamente a mesma roupa que usava ontem. Repare naquela horrível gravata amarela do Peter Valerian.
— O, ele usa constantemente aquele trapo velho! — replicou Ellie. — Foi a mulher que lha deu. — Os relógios marcavam quinze horas e vinte minutos. A ativação ocorrera cerca das três horas da tarde anterior. Portanto, tinham estado ausentes apenas pouco mais de vinte e quatro horas…
— Que dia é hoje? — perguntou, e eles olharam-na, sem compreender.
Havia qualquer coisa que não batia certo.
— Peter, pelo amor de Deus, que dia é hoje?
— Que quer dizer? — perguntou Valerian, por sua vez.
— É, hoje! Sexta-feira, 31 de Dezembro de 1999. Véspera de Ano Novo. É a isso que se refere? Você está bem, Ellie?
Vaygay pedia a Archangelsky que o deixasse começar pelo princípio, mas só depois de lhe devolverem os seus cigarros. Funcionários ligados ao Projeto e representantes do Consórcio da Máquina convergiam à volta deles. Ellie viu Der Heer abrir caminho através do ajuntamento, na sua direção.
— Da vossa perspectiva, que aconteceu? — perguntou ela quando, finalmente, ele ficou a uma distância que permitia conversarem.
— Nada. O sistema de vácuo funcionou, os benzels giraram, acumularam uma grande carga elétrica, atingiram a velocidade prescrita e depois inverteu-se tudo.
— Que queres dizer com esse «inverteu-se tudo»?
— Os benzels perderam velocidade e a carga elétrica dissipou-se. O sistema foi repressurizado, os benzels pararam e vocês todos saíram. Demorou tudo aí uns vinte minutos e não conseguimos falar com vocês enquanto os benzels estiveram a girar. Experimentaram alguma coisa?
Ela riu-se.
— Ken, meu rapaz, tenho uma história para te contar.
Houve uma festa para o pessoal do Projeto celebrar a ativação da Máquina e o importante Ano Novo. Ellie e os seus companheiros de viagem não estiveram presentes. Os programas de televisão estavam cheios de celebrações, paradas, exposições, retrospectivas, prognósticos e discursos otimistas de dirigentes nacionais. Ela ouviu vagamente as observações do abade Utsumi, beatífico como sempre. Mas não podia perder tempo. A Diretoria do Projeto chegara rapidamente à conclusão, a partir dos fragmentos das suas aventuras, que os Cinco tinham tido oportunidade de contar, de que qualquer coisa correra mal. Viram-se, por isso, levados apressadamente do meio das multidões agitadas de funcionários governamentais e do Consórcio para um interrogatório preliminar. Considerava-se prudente, explicaram funcionários do Projeto, que cada um dos Cinco fosse interrogado separadamente.
Der Heer e Valerian orientaram o interrogatório de Ellie numa pequena sala de reuniões. Estavam presentes outros funcionários do Projeto, incluindo o antigo aluno de Vaygay, Anatoly Goldman. Ela deduziu que Bobby Bui, que falava russo, acompanhava os americanos durante o interrogatório de Vaygay.
Escutavam-na cortesmente e de vez em quando Peter mostrava-se encorajador. Mas tinham dificuldades em acompanhar a seqüência dos acontecimentos. De certo modo, muito do que ela relatava preocupava-os. O seu entusiasmo não era contagioso. Era-lhes difícil aceitar que o dodecaedro estivera ausente vinte minutos — quanto mais um dia! — , pois o arsenal de instrumentos exteriores aos benzels filmara e gravara o acontecimento e não revelara nada de extraordinário. Tudo quanto acontecera, explicou Valerian, fora os benzels atingirem a velocidade prescrita, vários instrumentos de utilidade desconhecida apresentarem movimento no equivalente às suas agulhas, os benzels terem perdido velocidade e parado, e os Cinco terem saído num estado de grande excitação. Ele não disse exatamente a «tartamudear disparates», mas ela adivinhou a sua inquietação. Embora a tratassem com deferência, Ellie sabia o que estavam a pensar: a única função da Máquina fora produzir uma ilusão memorável em vinte minutos, ou — possivelmente — dar com os Cinco em malucos.
Ela apresentou-lhes as videomicrocassetes, cada uma cautelosamente rotulada: «Sistema Anelar de Vega» por exemplo, ou «Instalação de Rádio(?) de Vega»,
«Sistema Quíntuplo», «Paisagem Estelar do Centro Galáctico» e uma com a inscrição de «Praia»: Introduziu-as uma após outra no modo «transmitir». Não continham nada. As cassetes estavam em branco. Ela não conseguia compreender o que correra mal. Aprendera com todo o cuidado a maneira de trabalhar com o sistema de videomicrocâmara e utilizara-o com êxito em experiências antes da ativação da Máquina. Até efetuara uma verificação do comprimento de película utilizado depois de terem deixado o sistema de Vega. Ficou ainda mais arrasada quando, posteriormente, lhe disseram que os instrumentos levados pelos outros também tinham falhado, não se sabia como. Peter Valerian queria acreditar nela; Der Heer também. Mas era-lhes difícil, mesmo com a melhor boa vontade do mundo. A história que os Cinco tinham trazido era um pouco… bem, inesperada — além de totalmente desprovida de provas físicas. Para mais, não houvera tempo suficiente para tudo aquilo, eles tinham estado fora de vista apenas vinte minutos.
Não fora aquela a recepção que ela esperara. Mas tinha confiança em que tudo acabaria por se explicar por si mesmo. De momento contentava-se com reviver mentalmente a experiência e tomar alguns apontamentos pormenorizados. Queria ter a certeza de que não se esqueceria de nada.
Embora avançasse da Kamchatka uma frente de ar extremamente frio, o tempo continuava a estar mais quente do que era próprio da estação quando, ao fim do dia de Ano Bom, chegou ao Aeroporto Internacional de Sapporo um número não previsto de aviões. O novo secretário da Defesa americano, Michael Kitz, e uma equipe de especialistas apressadamente constituída, chegaram num avião com a denominação «Estados Unidos da América». A sua presença só foi confirmada por Washington quando o caso estava prestes a ser divulgado em Hokkaido. O conciso comunicado para a imprensa assinalava que a visita era de rotina, que não havia nenhuma crise, nenhum perigo, e que não foi recebida nenhuma informação extraordinária na Instalação de Integração de Sistemas da Máquina, a nordeste de Sapporo. Um Tu-120 viera durante a noite de Moscovo, transportando, entre outros, Stefan Baruda e Timofei Gotsridze. Claro que nenhum dos grupos se sentia encantado por passar o feriado daquele Ano Bom longe da sua família. Mas o tempo em Hokkaido constituiu uma surpresa agradável; estava tão ameno que as esculturas de Sapporo se derretiam e o dodecaedro de gelo se transformara num glaciar quase informe, com água a pingar de superfícies arredondadas que tinham sido as arestas das superfícies pentagonais.
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