— Não tenho sido um bom pai para a mãe dela — confessou Vaygay. — Ultimamente, quase nunca vejo Nina.
Ellie olhou em seu redor. Os chefes de estação tinham arranjado para cada um dos Cinco o que só podia ser descrito como os seus amores mais profundos. Talvez o tivessem feito apenas para tornar menos difíceis as barreiras de comunicação com outra espécie espantosamente diferente. Sentia-se satisfeita por nenhum deles estar a tagarelar agradavelmente com uma cópia exata de si próprio.
«E se fosse possível fazer aquilo na Terra?», perguntou-se. Se, apesar de todo o nosso fingimento e dissimulação, fosse necessário aparecer em público com a pessoa que amássemos acima de todas as outras? Supondo que isso era um requisito prévio para discorrer socialmente na Terra. Mudaria tudo. Imaginou uma falange de membros de um sexo a rodear um membro solitário do outro. Ou cadeias de pessoas. Círculos. As letras H ou Q. Indolentes figuras de 8s. Podiam-se monitorizar afetos profundos com um relance de olhos, bastando apenas observar a geometria — uma espécie de relatividade geral aplicada à psicologia social. As dificuldades práticas de tal método seriam consideráveis, mas ninguém conseguiria mentir a respeito do amor.
Os zeladores estavam com pressa, cortês, mas determinadamente com pressa. Não havia muito tempo para falar. A entrada para a câmara de vácuo do dodecaedro estava de novo visível, mais ou menos no mesmo lugar onde estivera quando tinham chegado. Por simetria, ou talvez devido a alguma lei de conservação interdimensional, a porta de Magritte desaparecera. Apresentaram toda a gente uns aos outros. Ellie sentiu-se idiota, em mais de um aspecto, ao explicar em inglês ao imperador Qin quem o pai era. Mas Xi traduziu obsequiosamente, e todos eles apertaram as mãos, com solenidade, como se aquele fosse o seu primeiro encontro, talvez num churrasco nos subúrbios. A mulher de Eda era uma grande beldade e Surindar Ghosh observava-a com uma atenção mais do que casual. Devi não parecia importar-se; talvez se sentisse meramente satisfeita com a exatidão minuciosa do simulacro.
— Aonde foi quando transpôs a porta? — perguntou-lhe Ellie, docemente.
— Maidenhall Way, 416 — respondeu Devi.
A outra olhou-a sem compreender.
— Londres, 1973. Com Surindar.
Inclinou a cabeça na direção dele e acrescentou:
— Antes da sua morte.
Ellie perguntou a si mesma o que teria encontrado se tivesse transposto a porta da praia. Talvez Wisconsin no fim da década de cinqüenta. Ela não aparecera na hora prevista e, por isso, ele viera ao seu encontro. Fizera isso mais de uma vez no Wisconsin.
Também tinham falado a Eda de uma mensagem profundamente inserida no interior de um número transcendente, mas na sua história não se tratara de pi nem de e, a base dos logaritmos naturais, mas sim de uma categoria de números de que ela nunca ouvira falar. Com uma infinidade de números transcendentes, nunca saberiam ao certo que número estudar quando regressassem à Terra.
— Senti uma vontade imensa de ficar e trabalhar no caso — confessou ele a Ellie, brandamente —, e tive a percepção de que eles precisavam de ajuda… de um modo qualquer de pensar na decifração que lhes não tivesse ocorrido. Mas creio que se trata de uma coisa muito pessoal para eles. Não querem compartilhá-la com outros. Aliás, encarando a realidade, acho que não somos suficientemente inteligentes para lhes darmos uma ajuda.
Não tinham eles decifrado a mensagem em pi? Os chefes de estação, os zeladores, os arquitetos de novas galáxias, não tinham decifrado uma mensagem que estivera debaixo da sua influência durante uma ou duas rotações galácticas? A mensagem seria assim tão difícil, ou estariam eles a…?
— São horas de ir para casa — disse-lhe o pai.
Foi dilacerante. Ela não queria ir. Tentou fitar a fronde de palmeira. Tentou fazer mais perguntas.
— Que quer dizer com «ir para casa»? Quer dizer que vamos emergir algures no sistema solar? Como desceremos para a Terra?
— Verás — respondeu-lhe ele. — Será interessante.
Passou-lhe o braço pela cintura e conduziu-a na direção da porta aberta da câmara de vácuo.
Era como na hora de ir para a cama. Podia ser engraçada, podia fazer perguntas inteligentes, e talvez eles a deixassem ficar levantada até um bocadinho mais tarde. Costumava dar resultado, pelo menos um pouco.
— A Terra agora está ligada com isto cá em cima, não é verdade? Em ambos os sentidos. Se nós podemos voltar para casa, vocês podem descer até nós num ápice. Sabe, isso deixa-me tremendamente nervosa. Por que não se limitam a cortar a ligação? Comecemos por aí.
— Lamento, Presh — respondeu ele, como se ela já tivesse ultrapassado descaradamente a hora de se deitar: as oito horas. Lamentaria ele isso, ou o fato de não estarem preparados para desatarraxar o túnel? — Durante algum tempo, pelo menos, o caminho estará aberto apenas para trânsito de entrada. Mas não esperamos usá-lo.
Ela gostaria que a Terra estivesse isolada de Vega. Preferia uma margem de cinqüenta e dois anos entre comportamento inaceitável na Terra e a chegada de uma expedição punitiva. A ligação pelo buraco negro era inquietante. Eles podiam chegar quase instantaneamente, talvez apenas em Hokkaido, ou talvez em qualquer ponto da Terra. Era uma transição para aquilo a que Hadden chamara micro-intervenção. Fossem quais fossem as garantias que eles dessem, agora observar-nos-iam mais amiúde. Tinham-se acabado as espreitadelas para uma olhadela, a fim de ver como as coisas iam, com intervalos de alguns milhões de anos.
Aprofundou mais o seu mal-estar. Como as circunstâncias se tinham tornado… teológicas. Ali estavam seres que viviam no céu, seres enormemente sabedores e poderosos, seres preocupados com a nossa sobrevivência, seres com um conjunto de perspectivas quanto ao modo como deveríamos comportar-nos. Repudiavam semelhante papel, mas era evidente que podiam aplicar recompensa e castigo, vida e morte, aos insignificantes habitantes da Terra. Em que é isto diferente, perguntou-se, da antiga religião? A resposta acudiu-lhe imediatamente ao espírito: era uma questão de prova. Nas suas videotapes, nos dados que os outros tinham adquirido, haveria evidência real da existência da estação, do que lá se passava, do sistema de trânsito dos buracos negros. Haveria cinco histórias independentes e mutuamente corroborativas, apoiadas por provas físicas convincentes. Isto era um fato, não música de ouvido e mistificação.
Voltou-se para ele e deixou cair a fronde. Em silêncio, ele baixou-se e devolveu-lha.
— Foi muito generoso da sua parte responder a todas as minhas perguntas. Posso responder a algumas que queira fazer?
— Obrigado. Respondeste a todas as nossas perguntas a noite passada.
— Acabou-se? Nenhuns mandamentos? Nenhumas instruções para os provincianos?.
— As coisas não funcionam assim, Presh. Agora és crescida. Estás entregue a ti própria.
Ele inclinou a cabeça, envolveu-a naquele seu sorriso, e ela lançou-se-lhe nos braços, com os olhos de novo cheios de lágrimas. Foi um abraço demorado. Por fim sentiu-o a soltar-lhe carinhosamente os braços. Eram horas de ir para a cama. Pensou levantar o indicador e pedir-lhe ainda mais um minuto. Mas não quis decepcioná-lo.
— Adeus, Presh. Dá saudades à tua mãe.
— Cuide de si — respondeu em voz fraca.
Lançou um último olhar à praia do centro da Galáxia. Um casal de aves marinhas, talvez procelárias, estava suspenso numa coluna de ar em ascensão. Mantinham-se no ar quase sem um bater de asas. Mesmo à entrada da câmara de vácuo voltou-se e chamou-o.
— Que diz a vossa Mensagem? O um em pi?
— Não sabemos — respondeu ele, um pouco tristemente, e deu alguns passos na sua direção. — Talvez seja uma espécie de acidente estatístico. Ainda estamos a estudar o assunto.
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