sim, mas só o que estiver ao meu alcance, dentro das minhas
possibilidades. A mulher pegou no caderno da suite número seis de
bach e disse, Isto, É muito longa, leva mais de meia hora, e já começa a
ser tarde, Repito-lhe que temos tempo, Há uma passagem no prelúdio
em que tenho dificuldades, Não importa. salta-lhe por cima quando lá
chegar, disse a mulher, ou nem será preciso. vai ver que tocará ainda
melhor que rostropovitch. o violoncelista sorriu, Pode ter a certeza.
Abriu o caderno sobre o atril, respirou fundo, colocou a mão esquerda
no braço do violoncelo, a mão direita conduziu o arco até quase roçar as
cordas, e começou. De mais sabia ele que não era rostropovitch. Que
não passava de um solista de orquestra quando o acaso de um
programa assim o exigia, mas aqui, perante esta mulher, com o seu cão
deitado aos pés, a esta hora da noite, rodeado de livros, de cadernos de
música, de partituras. era o próprio johann sebastian bach compondo
em cöthen o que mais tarde seria chamado opus mil e doze, obras elas
quase tantas como foram as da criação. A passagem difícil foi transposta
sem que ele se tivesse apercebido da proeza que havia cometido, mãos
felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que
faltou a Rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher.
Quando ele terminou, as mãos dela já não estavam frias, as suas ardiam,
por isso foi que as mãos se deram às mãos e não se estranharam.
Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista
perguntou, Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher
respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe aboca. Entraram no
quarto. despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu
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enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a
morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a
carta de cor violeta. olhou em redor como se estivesse à procura de um
lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do
violoncelo, ou então no próprio quarto. debaixo da almofada em que a
cabeça do homem descansava. Não o fez. saiu para a cozinha, acendeu
um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o
olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe
fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo
comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte,
essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou
para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe
estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia
descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.
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