– Até logo – murmurei e fechei a mão sobre o pedacinho de papel, enquanto ela se afastava.
Uma vez fora da cervejaria, na avenida banhada pelo ar suavemente úmido da noite de Paris em fevereiro, depois de nos termos despedido de Priscilla, do marroquino e do câmara, enfiei a mão no bolso em que tinha jogado o pedacinho de papel. Desenrolei-o e, à luz de um lampião, vi que havia um número de telefone escrito nele. Guardei de novo o pedaço de papel no bolso e corri atrás de Fabian e de Lily, que iam andando à minha frente.
– Que tal, satisfeito por estar em Paris, Douglas? – perguntou Fabian.
– Foi um dia cheio – retruquei. – E muito educativo.
– Pois foi apenas o começo – disse Fabian. – Você ainda tem muita coisa para ver, meu amigo.
– Você acredita em tudo aquilo que falou? – perguntei. – Nadine, Moríet, etc?
– Quando comecei a falar – explicou ele, rindo – estava só reagindo, como sempre reajo quando ouço um francês começar a discursar sobre Racine, Molière e Victor Hugo. Mas, no fim, já quase me convencera de que eu era um patrono das artes. O que também inclui você, bem entendido – acrescentou, depressa.
– Você não vai pôr o seu nome… o nosso nome… no filme, vai? – perguntei, subitamente alarmado.
– Não – respondeu Fabian, quase com pena. – Acho que isso seria ir demasiado longe. Vamos ter que arranjar um nome para a companhia. Tem alguma idéia, Lily? Você sempre foi inteligente.
– Produções Por Cima e Por Baixo – falou Lily.
– Não seja vulgar, querida – replicou Fabian. – Não se esqueça de que vamos querer uma crítica no Times. Vamos ter que pensar no caso à calma luz do dia. Por falar nisso, Douglas, procure dormir bem. Vamos ter que acordar às cinco da manhã para ir a Chantilly assistir aos exercícios.
– Que exercícios? – Eu não tinha a menor idéia de onde ficava Chantilly e, por um momento, pensei que talvez fosse um lugar onde os atores de filmes pornográficos mantivessem a forma. Pelo que tinha visto nessa noite, um dia de filmagem envolvia, tanto para o homem quanto para a mulher, o mesmo desgaste físico que dez assaltos com um campeão peso-galo.
– Do nosso cavalo – respondeu Fabian. – Havia um telegrama para mim na recepção quando voltamos do Louvre, esta tarde… por falar nisso, você gostou da visita ao Louvre, não gostou?
– Gostei. Mas que dizia o telegrama?
– Era do meu amigo de Kentucky. Parece que ele descobriu que o cavalo esteve doente e, no momento, diz que não pode comprá-lo…
– Puxa vida! – exclamei.
– Não fique preocupado, meu caro – disse Fabian. – Meu amigo quer que o cavalo entre numa corrida importante, antes de investir o seu dinheiro. Você não pode culpá-lo, pode?
– Não. Mas posso culpar você.
– Receio que estejamos iniciando o nosso relacionamento com base na nota errada, Douglas – disse Fabian, ofendido.
– Teremos apenas que explicar as coisas ao treinador. Ele tem grande fé nesse cavalo. Só precisa é certificar-se de que o animal está em forma e escolher o páreo certo para inscrevê-lo. O nome do treinador é Coombs. Um nome inglês, mas a família dele estabeleceu-se em Chantilly no tempo da Imperatriz Josefina. Ele é um mago na escolha das corridas. Tem ganho páreos com animais que já iam ser vendidos para puxar carroças. De qualquer maneira, você vai adorar Chantilly. Ninguém que goste de cavalos pode ir a Paris sem ir a Chantilly.
– Mas eu não gosto de cavalos – falei. – Detesto cavalos. Tenho um medo louco deles.
– Ah, Douglas! – disse Fabian, quando chegamos ao hotel. – Você ainda tem muito, muito que aprender. – Bateu-me no ombro, como se fôssemos velhos camaradas. – Mas você chega lá, eu lhe garanto.
Subi ao meu quarto, olhei para a cama, já aberta, e depois para o telefone. Lembrei-me de algumas das cenas do filme que vira naquela noite e decidi que não estava com sono. Desci ao bar e pedi um uísque com soda. Bebi-o lentamente e depois tirei do bolso o pedaço de papel que Priscilla Dean pusera na minha mão e estendi-o diante de mim, sobre o bar.
– Vocês têm telefone aqui? – perguntei ao garçom.
– Lá embaixo – respondeu ele.
Desci, dei o número à telefonista, entrei na cabina que ela me indicou e tirei o aparelho do gancho. Após um momento de silêncio, deu sinal de ocupado. Esperei trinta segundos e depois recoloquei o fone no gancho. "Que se vai fazer?", pensei.
Voltei ao bar, peguei minha bebida e, dez minutos mais tarde, estava na cama. Sozinho.
O nome do cavalo era Rêve de Minuit. Eu, Fabian e Lily estávamos com Coombs, o treinador, em meio à neblina da manhã, numa das aléias da floresta de Chantilly, assistindo ao exercício dos cavalos. Eram sete da manhã e fazia frio. Meus sapatos e a bainha das minhas calças estavam enlameados e molhados. Eu estava metido no meu velho sobretudo esverdeado, o mesmo dos tempos do St. Augustine, e sentia-me ridiculamente vestido para estar ali, no meio dos bosques, rodeado pelo cheiro da folhagem molhada e dos cavalos suados. Fabian, sempre pronto para enfrentar qualquer situação, usava botas de montaria, um elegante blusão impermeável sobre o paletó quadriculado e uma calça de veludo cotelé. Um boné de tweed cobria-lhe a cabeça e seu bigode estava úmido de orvalho. Parecia que o alvorecer era a sua hora predileta e que durante toda a sua vida fora dono de puros-sangues. Qualquer pessoa que o visse ali teria certeza de que nenhum treinador seria capaz de lhe passar a perna.
Lily também estava vestida para a ocasião, com botas altas e um casaco solto, a cútis inglesa realçada pelo ar úmido da floresta. Se eu pretendesse permanecer na companhia deles – e a essa altura parecia-me difícil desvencilhar-me – teria que arrumar um novo guarda-roupa.
Coombs, um velho baixinho, vermelho e de ar astuto, de botas e com uma voz roufenha, indicara-nos o nosso cavalo. Achei-o parecido com qualquer outro cavalo castanho, com grandes olhos espantados e pernas aparentemente finas demais.
– O potro está se recuperando muito bem – disse Coombs.
Nisso, tivemos de nos esconder atrás de umas árvores, pois um dos outros cavalos começou a correr de costas na nossa direção, quase tão depressa quanto correra para a frente. – Ficam um pouco nervosos, nestas manhãs frias – explicou Coombs, indulgentemente. – Aquela egüinha ali só tem dois anos. Ainda gosta de brincar.
O cavalariço conseguiu, finalmente, controlar o bicho e nós pudemos sair de trás das árvores.
– Como vão os cascos dele, Jack – perguntou Fabian. O connaisseur de pintura e escultura, que me servira de guia no Louvre e que discursara sobre Monet para o crítico na noite anterior, fora agora substituído por um entendido em cavalos.
– Ora, se fosse eu, não me preocupava – disse Coombs. – Ele está se recuperando esplendidamente.
– Quando é que poderá correr? – perguntei, falando pela primeira vez desde que fora apresentado ao treinador. – Isto é, numa corrida para valer?
– Bem – começou Coombs, abanando ambiguamente a cabeça. – Bem, isso já são outros quinhentos. O senhor não vai querer puxar pelo potro, vai? Não está vendo que ele ainda não está cem por cento? – Sua maneira de falar inglês era tipicamente irlandesa, para alguém cuja família se estabelecera na França desde os tempos da Imperatriz Josefina.
– Acho que mais duas semanas de treino não lhe fariam nenhum mal – sentenciou Fabian.
– Ele ainda parece estar sentindo a pata dianteira – disse Lily.
– Ah, a senhora notou! – falou Coombs, sorrindo para ela. – É mais psicológico do que outra coisa, entende?
– Eu sei – concordou Lily. – Não é a primeira vez que vejo um caso desses.
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