– Você não precisa explicar-me nada – disse eu. – Basta o prazer que me deu.
– Você não costuma ir para a cama com uma mulher que mal conhece, não é?
– Para ser franco, não. – Ri de novo. – É a primeira vez. Por quê… dá para ver?
– Dá para ver de longe. Você não é nada do que parece, sabe?
– O que eu pareço?
– Parece um desses jovens que fazem de vilões nos filmes italianos… ousados e inescrupulosos.
Era a primeira vez que alguém me dizia uma coisa dessas. Estava acostumado a ouvir dizer que me parecia com o irmão caçula de Fulano ou Sicrano. Ou eu tinha mudado drasticamente, ou Evelyn Coates não se deixava enganar pelas aparências, era capaz de ver o que havia de recôndito nas pessoas.
– E é bom parecer isso? – perguntei, algo preocupado com o "inescrupuloso".
– É ótimo. Em certas circunstâncias.
– Como hoje à noite, por exemplo?
– Exatamente.
– Talvez eu volte a Washington daqui a dias – falei. – Posso telefonar-lhe?
– Se você não tiver nada melhor a fazer.
– Vai querer ver-me de novo?
– Se eu não tiver nada melhor para fazer.
– Você é assim tão dura como finge ser?
– Mais dura ainda, Grimes, muito mais dura. Por que motivo você voltaria a Washington?
– Talvez por sua causa.
– Repita isso, por favor.
– Talvez por sua causa.
– Você é mesmo gentil. E por que outra razão?
– Bem – disse eu lentamente, pensando que talvez pudesse obter algumas informações -, suponha que eu esteja procurando alguém…
– Alguém em particular?
– Sim. Alguém cujo nome eu sei, mas que sumiu de circulação.
– Em Washington?
– Não necessariamente. Em qualquer parte do país, ou mesmo fora…
– Você é misterioso, não acha?
– Algum dia, talvez lhe conte – disse eu, certo de que esse dia nunca chegaria, mas satisfeito de que a sorte me tivesse posto na cama de uma mulher que estava por dentro dos segredos do governo e cujo trabalho, pelo menos em parte, deveria incluir descobrir o paradeiro de pessoas que geralmente não queriam ser descobertas. – É um assunto particular e delicado. Mas suponha que eu precisasse encontrar esse amigo hipotético, que é que eu faria?
– Bem, você poderia procurar em vários lugares – respondeu ela. – Na Secretaria da Receita Federal… o endereço dele constaria da última declaração de imposto de renda. Na Previdência Social. Devem ter o endereço da firma para a qual ele trabalha. No fbi. No Departamento de Estado. Tudo depende de você conhecer as pessoas certas.
– Parta do princípio de que eu conheço as pessoas certas – retruquei. Por cem mil dólares, eu podia ter a certeza de que alguém teria acesso às pessoas certas.
– Você provavelmente acabaria por descobrir a pista do seu amigo. Ei, por acaso é detetive particular ou coisa parecida?
– Coisa parecida – respondi, ambiguamente.
– Bem, mais cedo ou mais tarde, todo mundo vem a Washington – disse ela. – Por que não você? É o verdadeiro teatro vivo da América. Todas as sessões com lotação esgotada. Só que a platéia é muito especial. Os bons lugares estão sempre ocupados por atores.
– Você é uma das atrizes?
– Claro que sou! Desempenho um papel importantíssimo. A indômita Portia desfechando golpes mortais nos malfeitores de grande fortuna. O Women's Lib na justiça e na injustiça. Mereci críticas entusiásticas nas melhores camas da cidade. Chocado?
– Um pouco.
– Por falar nisso – disse ela -, você merece quatro estrelas.
– Que é isso?
– Oh, inocente! – exclamou ela, beliscando-me a face. – Quatro estrelas equivalem a um elogio. O seu desempenho foi um dos melhores entre as pessoas com quem já dormi nesta cidade. Você foi tão bom quanto um certo senador de um Estado do oeste, cujo nome não direi, mas que costumava encabeçar a lista. Até que o pobre foi derrotado, nas últimas eleições.
– Não sabia que estava desempenhando um papel – falei. Não tinha o menor desejo de saber o nome do senador derrotado.
– Lógico que estava! De outra maneira não estaria em Washington. E nesta cidade qualquer desempenho exige um enorme talento. Todos temos que fingir que adoramos nossos papéis.
– Você também?
– Será que está brincando? Claro! Sou uma mulher adulta. Você acha que, se eu continuasse indo ao escritório diariamente, durante os próximos cem anos, isso faria alguma diferença para você, para a General Motors ou para as Nações Unidas? Eu simplesmente faço o meu papel e me divirto como todo mundo, porque esta cidade é o melhor lugar para pessoas como nós se divertirem. Na verdade, a minha opinião é que se todo mundo aqui, desde o presidente até o mais humilde dos serventes, só pudesse trabalhar quinze dias por ano, os Estados Unidos seriam o maior país do mundo.
Eu tinha terminado o uísque e sentia uma vontade enorme de dormir. A custo, reprimi um bocejo.
– Oh! – disse ela. – Estou enchendo sua paciência.
– Nada disso – retruquei, sinceramente. – Mas você não está cansada?
– Não muito. – Pousou o copo, tirou o robe e deitou-se a meu lado. – O sexo me revigora. Mas tenho que acordar cedo e não me convém ir trabalhar com ar de quem passou a noite em claro. – Aninhou-se contra mim e beijou-me a orelha. – Boa noite, Grimes. Ligue para mim quando voltar.
Quando acordei, eram quase dez horas e estava só. As cortinas deixavam passar sol suficiente para se ver que estava um lindo dia. Havia um bilhete sobre a cômoda, onde ela pusera a minha carteira na noite anterior: "Caro hóspede: saí para trabalhar. Você estava dormindo tão bem, que não tive coragem de acordá-lo. Gostei de ver tal prova de consciência tranqüila neste mundo perdido. Há uma gilete e creme de barbear no armário do banheiro, um copo de suco de laranja na geladeira e um bule de café sobre o fogão. Espero que você encontre seu amigo. E. C."
Sorri ao ler a última frase, dirigi-me ao banheiro, fiz a barba e tomei um banho. A água fria acabou de me despertar e me fez sentir fresco e bem-humorado… além de satisfeito comigo mesmo, modéstia à parte. Olhei-me cuidadosamente no espelho. Minha cor melhorara.
Ao entrar no living, senti cheiro de bacon frito. Abri a porta que dava para a cozinha e vi uma jovem sentada à mesa, de calça comprida e suéter, com um lenço na cabeça, lendo o jornal e mastigando um pedaço de torrada.
– Oi! – saudou a jovem, olhando para cima. – Pensei que você ia passar o dia todo dormindo.
– S… sinto muito… – gaguejei. – Não queria perturbá-la.
– Não está me perturbando. – Levantou-se, abriu a geladeira e tirou um copo de suco de laranja. – Evelyn deixou isto para você. Deve estar com sede. – Não explicou por que achava que eu devia estar com sede. – Quer ovos com bacon?
– Não lhe quero dar trabalho.
– Não dá trabalho. O café da manhã está incluído. – Tirou três fatias de bacon de um pacote aberto e colocou-as na frigideira com as outras. Era alta e esbelta. – Bem passado?
– Como você quiser.
– Bem passado – decidiu ela. Colocou um pedaço de manteiga em outra frigideira e estrelou quatro ovos, com movimentos rápidos e autoritários. – Meu nome é Brenda Morrissey – anunciou. – Divido o apartamento com Evelyn. Ela não lhe falou de mim?
– Que eu me lembre, não – respondi, bebendo o suco de laranja.
– Acho que Evelyn estava muito ocupada – declarou ela. Encheu duas xícaras de café, apontou para o leite e o açúcar em cima da mesa. – Sente-se. Está com pressa?
– Não muito – disse eu, sentando-me.
– Eu também não. Dirijo uma galeria de arte. Ninguém compra quadros antes das onze da manhã. É o trabalho ideal para uma pessoa como eu. Evelyn esqueceu de me dizer o seu nome.
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