Estava ainda na posição em que o vira quando espreitara pela porta entreaberta, apoiado à mesa, de costas para a porta. Ouvindo-me entrar, voltou-se, olhou-me com ar hesitante, atento e crítico e disse-me:
— Passei por tua casa e lembrei-me de te fazer uma visita… achas que fiz mal?
Reparei que falava devagar, como se quisesse observar-me antes de pronunciar as palavras, e eu tremia à ideia de que talvez lhe parecesse menos sedutora que a recordação que o levara a procurar-me depois de tanto tempo. Encorajou-me a lembrança de que pouco antes, quando me olhara ao espelho, me achara bela. Respondi-lhe ansiosa:
— De maneira nenhuma. Fizeste muito bem… ia sair para almoçar… Vamos almoçar juntos!
— Mas tu reconheces-me? — perguntou-me, talvez com ironia. — Sabes quem eu sou?
— Se te reconheço! — disse eu, brincalhona.
E antes que a minha vontade dominasse os meus gestos, já lhe tinha pegado na mão e levado aos lábios, olhando-o com amor. Ele perdeu um pouco a serenidade e isso deu-me prazer.
— Porque nunca mais deste sinal de vida, grande maroto! — disse-lhe com voz terna.
Abanou a cabeça e respondeu:
— Tenho tido muito que fazer.
Eu perdera completamente a cabeça. Dos lábios levei a mão ao coração, abaixo do seio, e disse-lhe:
— Sente como o meu coração bate!
Mas ao mesmo tempo chamava-me idiota, porque pensei que não deveria fazer nem dizer aquilo.
Fez uma careta um pouco aborrecida; então, assustada. acrescentei depressa:
— Vou vestir o casaco. Volto já. Espera.
Sentia-me tão transtornada e tinha tanto medo de o perder que, uma vez no vestíbulo, fechei rapidamente à chave a porta da escada e tirei-a da fechadura. Se ele quisesse aproveitar o momento em que eu me vestia para se safar não lhe seria possível. Em seguida entrei no quarto e, diante do espelho, tirei o resto da pintura da boca e dos olhos com um canto do lenço. Depois tornei a pôr bâton, mas muito levemente. Fui ao bengaleiro buscar o casaco, não o encontrei e senti-me completamente perdida; depois lembrei-me de que o tinha pendurado no armário, tirei-o e vesti-o. Olhei-me no espelho e pareceu-me que o penteado que tinha chamava demasiado a atenção. Rapidamente, com algumas penteadelas, arranjei o cabelo como o usava na época em que era a noiva de Gino. Mas enquanto me penteava jurei solenemente que de futuro dominaria a minha paixão e não teria nem gestos nem palavras irreflectidos. Por fim estava pronta. Passei pelo vestíbulo e cheguei à porta da sala grande para chamar Jaime.
Mas quando saímos, a porta da escada que eu tinha esquecido que fechara à chave revelou o meu subterfúgio.
— Tinhas medo que eu saísse! — murmurou enquanto eu, confusa, procurava a chave na mala.
Ele agarrou a chave e foi ele próprio quem abriu a porta, olhando-me com um abanar de cabeça que parecia reprimir uma afectuosa severidade. O meu coração encheu-se de alegria e corri atrás dele na escada, segurei-lhe o braço e perguntei-lhe esbaforida:
— Não ficaste contrariado, pois não?
Não respondeu.
Na rua começamos a caminhar ao sol, de braço dado, ao longo das portas e das lojas. Estava tão feliz de andar ao seu lado que esqueci completamente os meus juramentos, e quando passamos em frente do pequeno pavilhão do torreão foi como se alguém pegasse na minha mão e a forçasse a apertar a sua. Apercebi-me de que me inclinava para a frente para o olhar melhor e lhe dizia:
— Sabes que estou bem contente de te ver?
Fez a sua careta habitual de embaraço e respondeu-me:
— Também estou contente — mas num tom que não condizia com as suas palavras.
Mordi os lábios até fazer sangue e desentrelacei os meus dedos dos seus. Não pareceu dar por isso; olhava à sua volta com ar distraído. A porta das muralhas parou e pronunciou numa voz reticente:
— Ouve, devo dizer-te uma coisa.
— Diz!
— Foi realmente por acaso que vim ver-te… e também por acaso não tenho nem um soldo no bolso. Por isso é melhor que nos separemos.
E dizendo isto estendia-me a mão. Comecei por experimentar um grande pavor: “Ele deixa-me”, pensava e, no meu desespero, não via outra solução senão agarrar-me ao seu pescoço chorando e suplicando. Mas o meu segundo movimento fez-me encontrar, no próprio pretexto que ele encontrara antes para me abandonar, uma solução fácil e mudei de sentimento. Pensei que podia pagar a refeição, e a ideia de lhe pagar da mesma maneira que toda a gente me pagava a mim seduziu-me. Já tenho falado no prazer sensual que sentia de cada vez que recebia dinheiro dos homens. Descobrira agora que havia em pagar-lhe um prazer também forte, e que a mistura do amor e do dinheiro — seja o dinheiro dado ou recebido — não era somente uma questão de proveito. Impetuosamente gritei-lhe:
— Mas não penses nisso! Serei eu quem pagará! Olha: tenho dinheiro.
Abri a mala e mostrei-lhe algumas notas que metera lá na véspera à noite.
Ele disse com uma espécie de decepção:
— Mas isso não se faz!
— Que importância tem isso? Tu voltaste: é justo que festeje o teu regresso!
— Não, não, não quero!
De novo fez menção de estender a mão e de se ir embora. Mas desta vez agarrei-o pelo braço declarando-lhe:
— Vá! Depressa! Não falemos mais nisso!
E dirigi-me para o restaurante. Sentámo-nos à mesma mesa que da primeira vez. Tudo estava como então, à parte um raio de sol invernal que penetrava pelos vidros da porta, iluminando as mesas e a parede. O dono da casa trouxe-nos a lista e eu dei as ordens num tom seguro e protector, parecido com aquele que empregavam comigo os meus amantes. Enquanto encomendava o almoço, ele conservou-se em silêncio, de olhos baixos. Esquecera-me de pedir vinho porque não bebia; mas lembrei-me de que na primeira vez ele bebera; tornei a chamar o homem e encomendei-lhe um litro.
Logo que ele se afastou, abri a mala, tirei uma nota, dobrei-a em quatro, olhei à minha volta e estendi-a por debaixo da mesa ao meu companheiro.
Olhou-me com ar interrogativo.
— É o dinheiro — disse-lhe em voz baixa. — Assim, quando quiseres, podes pagar.
— Ah! O dinheiro — disse lentamente.
Apanhou a nota, desdobrou-a em cima da mesa, olhou-a, depois tornou a dobrá-la, abriu a minha mala e tornou a metê-la lá com uma seriedade ligeiramente irônica.
— Queres que seja eu a pagar? — perguntei, desconcertada.
— Não — respondeu tranquilamente. — Eu pagarei.
— Mas então porque me disseste que não tinhas dinheiro?
Hesitou, depois respondeu com uma sinceridade cheia de amargura:
— Não foi por acaso que te procurei. Para te dizer a verdade. há um mês que penso em vir. Mas quando me encontrei diante de ti desejei tornar a ir-me embora. Então lembrei-me de te dizer que não tinha dinheiro: esperava que tu me mandasses para o diabo. Sorriu e passou a mão pelo queixo:
— Enganei-me, ao que parece — acrescentou.
Fora então uma espécie de experiência que ele fizera comigo. Mas não me desejava. Ou, para ser mais exacta, a atracção que sentia por mim era combatida por uma aversão igualmente forte. De futuro reconheceria nesta faculdade de mentir e de representar um papel para fazer uma experiência uma das suas características principais. Naquele momento sentia-me deveras perturbada e perguntava a mim própria se me devia lamentar ou felicitar pela sua astúcia e pela sua desfeita.
— Porque te querias ir embora? — perguntei-lhe maquinalmente.
— Porque compreendi que não experimentava qualquer sentimento por ti… ou, mais exactamente, um desejo como aquele que o meu amigo sente pela tua camarada.
— Sabes que eles vivem juntos? — disse-lhe.
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