Hesitou um momento, depois acrescentou:
— Posso conseguir libertar essa pobre mulher, mas é preciso que ao mesmo tempo a policia tenha a prova da sua inocência… esta caixa precisamente.
— Pronto! Vai restituí-la à sua proprietária.
Teve um riso desagradável.
— Como se vê que nada percebes destas coisas! — disse-me. — Se és tu quem me dá a caixa, sou moralmente obrigado a mandar-te prender… Senão dirão: como é que Astárito tem o objecto roubado, quem lho deu e como? Não, tens de arranjar maneira de fazer chegar a caixa às mãos do comissário, mas sem te descobrir.
— Posso mandá-la pelo correio?
— Não, pelo correio, não.
Deu ainda alguns passos pelo quarto e depois veio sentar-se ao meu lado e disse-me:
— Vais fazer o seguinte… Conheces algum padre? Lembrei-me do monge francês ao qual me confessara depois do passeio a Viterbo.
— Sim — respondi-lhe —, o meu confessor.
— Confessas-te ainda?
— Confessava-me.
— Bem… vai procurar o teu confessor e conta-lhe o que fizeste como acabas de mo fazer a mim… roga-lhe que devolva a caixa ao comissariado… nenhum confessor pode recusar uma coisa destas… ele não é obrigado a fornecer qualquer indicação porque está ligado ao segredo da confissão. Um ou dois dias depois, telefonarei e agirei… por fim a tua criada de quarto será posta em liberdade.
Senti uma alegria tão grande que não me contive e deitei-lhe os braços à roda do pescoço e beijei-o. Continuou já com a voz trêmula de volúpia:
— Mas não deves tornar a fazer destas coisas. Quando precisares de dinheiro, não tens mais que me pedir…
— Posso ir hoje mesmo procurar o confessor?
— Com certeza!
Tinha ficado com a caixa na mão. Fiquei muito tempo imóvel com o olhar perdido. Sentia um grande alivio, como se fosse eu a criada de quarto. Tinha realmente a impressão de ser ela ao pensar no alivio que ela experimentaria, bem maior que o meu quando a libertassem! Já não me sentia triste, nem cansada, nem desgostosa. Entretanto, Astárito, introduzindo os dedos em volta do meu pulso, procurava subir ao longo do braço por debaixo da manga. Voltei-me e disse-lhe com doçura e com voz acariciadora :
— Ainda continuas a desejar-me?
Incapaz de falar, disse que sim com a cabeça.
— Não te sentes cansado? — continuei com voz terna e cruel. — Não achas que é tarde, que seria melhor deixar para outro dia?
Vi-o fazer um gesto negativo com a cabeça.
— Amas-me assim tanto? — perguntei-lhe.
— Sabes bem que te amo — respondeu em voz baixa. Fez menção de me beijar. Libertei-me e disse:
— Espera!
Acalmou-se logo porque compreendeu que eu tinha acedido. Levantei-me, dirigi-me lentamente para a porta e dei volta à chave na fechadura. Depois fui à janela, abri-a, corri as persianas e fechei as portas. Ele seguia-me com os olhos enquanto eu girava pelo quarto, com uma atitude cheia de complacência, de preguiça, de majestade. Sentia o seu olhar sobre mim e compreendia até que ponto a minha aceitação inesperada lhe era agradável. Logo que puxei as persianas comecei a cantarolar em surdina com voz íntima e alegre. Sempre cantarolando, abri o armário, tirei o casaco e pendurei-o. Depois, sem cessar de cantar em voz baixa. olhei-me no espelho. Tive a impressão de nunca ter estado tão bonita, com os olhos brilhantes, doces e profundos, as narinas frementes, a boca entreaberta sobre os meus dentes regulares e brancos. Compreendi que era bela porque estava contente comigo própria e porque me sentia boa. Cantei um pouco mais alto e comecei a desabotoar o vestido de baixo para cima. Cantava uma canção completamente idiota que estava muito em voga nessa altura e dizia:
— Canto esta canção de que gosto tanto, que faz dlin dlon, dlin dlon, dlin dlon!
Esta cançoneta pateta parecia-me a própria vida, absurda sem dúvida, mas por vezes também doce e sedutora. Bruscamente, quando já estava com o peito nu, alguém bateu à porta.
— Mais logo — disse eu. — Agora não posso.
— É uma coisa urgente — respondeu a voz de minha mãe.
Desconfiei de qualquer coisa, abri a porta e espreitei.
Minha mãe fez-me sinal para sair e fechar a porta. Depois sussurrou-me :
— Está uma pessoa na sala que quer falar-te por força.
— Quem é?
— Não sei. É um rapaz moreno.
Abri devagarinho a porta da sala e olhei. Vi um homem virado de costas para mim, encostado à mesa. Depois recomendei a minha mãe:
— Diz-lhe que venho já… Não o deixes sair da sala.
Ela disse-me que ficasse descansada que o faria e tornei a entrar no quarto.
Astárito estava ainda sentado na cama como eu o tinha deixado :
— Depressa, depressa! Tenho pena, mas preciso de que te vás embora!
Perturbou-se e começou a balbuciar quaisquer protestos. Não o deixei acabar e continuei:
— A minha tia adoeceu de repente no meio da rua e eu e minha mãe temos de ir já ao hospital… Depressa, depressa!
Era uma mentira bastante grosseira, mas naquele momento foi a única que me ocorreu. Olhava-me aparvalhado, como se não acreditasse na sua pouca sorte. Reparei que tinha tirado os sapatos e que tinha umas meias listadas.
— Então! Porque me olhas assim? Tens de te retirar! — insistia eu, desesperada.
— Está bem, vou-me embora.
Baixou-se para calçar os sapatos. De pé, na sua frente, estendia-lhe já o casaco. Compreendi que teria de lhe fazer alguma promessa se quisesse que interviesse a favor da criada de quarto.
— Ouve — acrescentei, ajudando-o a vestir o sobretudo —, estou realmente vexada… mas volta amanhã à noite… depois do jantar… podemos estar juntos com tranquilidade… agora teria que te deixar logo em seguida… assim é melhor.
Ele não respondeu e eu acompanhei-o até à porta, conduzindo-o pela mão, como se fosse a primeira vez que ele tivesse vindo a minha casa, tal era o medo de que ele entrasse na sala onde Jaime me esperava.
— Ouve — disse-lhe. — Olha que vou hoje mesmo falar ao confessor.
Respondeu que sim com a cabeça para dizer que era conveniente. Tinha uma expressão ofendida e gelada. Na minha Impaciência, nem esperei que ele se despedisse e fechei-lhe a porta.
Enquanto me aproximava da porta da sala grande e punha a mão no puxador, compreendi de repente que, a menos que sucedesse um milagre, eu arriscava-me a criar entre mim e Jaime as lamentáveis relações que existiam entre mim e Astárito. E apercebi-me de que o sentimento de timidez, de receio e de cego desejo que eu inspirava a Astárito era o mesmo que eu sentia por Jaime.
Compreendendo perfeitamente que se quisesse ser amada me devia portar de uma maneira diferente, sentia-me invencivelmente impulsionada pelo desejo de me colocar perante a sua pessoa numa posição de dependência, de ansiedade, de sujeição. Quais poderiam ser os motivos da minha posição de inferioridade não saberia dizer: se os tivesse conhecido, esta posição deixaria de existir. O meu instinto advertia-me apenas de que éramos feitos de maneira diferente e que eu era mais resistente do que Astárito, mas mais frágil que Jaime: que da mesma maneira que qualquer coisa me impedia de amar Astárito, alguma coisa também havia que impedia Jaime de me amar; que da mesma forma como o amor de Astárito por mim, o meu amor por Jaime nascera sob mau signo e acabaria ainda pior. O coração saltava-me do peito e tinha a respiração entrecortada antes de o ver e de lhe falar. Estava cheia de medo de dar um passo em falso, de lhe fazer notar a minha ansiedade e o desejo que tinha de lhe agradar e ao mesmo tempo o receio de o perder para sempre. esta seguramente a pior maldição do amor; nunca é suficientemente retribuído: quando se ama não se é amado e quando nos amam não correspondemos. Nunca acontece dois amantes terem a mesma força de desejo e de sentimento, se bem que este seja o ideal para o qual todos os homens tendem, cada um por sua conta. Sabia com certeza que desde o momento em que me apaixonasse por Jaime ele não estaria apaixonado por mim. E sabia também, sem querer confessá-lo a mim própria, que, por mais que fizesse, nunca conseguiria que ele me tivesse amor. Tudo isto me passou pelo espírito enquanto esperava. mortalmente perturbada, atrás da porta da sala grande. Sentia-me completamente aturdida, pronta a cometer as maiores tolices, e isso irritava-me o mais possível. Acabei por me encher de coragem e entrei.
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