— Porque dizes isso? Não sou invejosa… Não são estas coisas que eu invejo. Mas estou contente por te saber feliz. Então, vá, mostra-me os outros quartos — disse-lhe beijando-a.
Assoou-se e pareceu-me desejar fazê-lo:
— São só quatro — disse-me —, e estão quase vazios.
— Mostra-mos.
Levantou-se, precedeu-me no corredor, abriu várias portas e mostrou-me o quarto, onde havia só uma cama, um sofá aos pés da cama, um quarto vazio onde ela tinha a intenção de pôr mais uma outra cama para os convidados e o quarto da criada, que não era mais que um cubículo. Mostrou-me estas três casas com uma espécie de despeito, explicando-me com brevidade o seu respectivo uso e sem tirar qualquer prazer disso. Mas a sua vaidade era mais forte do que o seu mau humor quando me mostrou a casa de banho e a cozinha, ambas revestidas de azulejos, com engenhos eléctricos novos e torneiras cintilantes… Explicou-me a maneira como funcionavam esses aparelhos, a sua superioridade sobre a aparelhagem de gás, o seu asseio e o seu rendimento; e se bem que o meu espírito andasse longe, fingi desta vez interessar-me pelas suas explicações com exclamações de admiração e de surpresa. Ficou tão contente com a minha atitude que me disse, uma vez acabada a visita:
— Vamos lá dentro tomar outro cálice de licor.
— Não, não — respondi-lhe. — Tenho de me retirar.
— Porquê esta pressa? Espera um momento.
— Não posso.
Estávamos no corredor. Hesitou um momento, depois declarou-me :
— Gostava que voltasses. Sabes o que podemos fazer? Ele vai com frequência a Roma… Um destes dias mando dizer-te, arranjamos dois dos teus amigos e passamos um bom bocado.
— Mas se ele sabe?
— E porque há-de saber?
— Está bem — disse eu. — Fica combinado.
Hesitei por minha vez, depois perguntei-lhe corajosamente :
— A propósito, diz-me uma coisa… e ele nunca te falou do amigo que o acompanhava naquela noite?
— O estudante? Porque? Interessa-te?
— Não, é só para saber…
— Ainda ontem à noite o vimos.
Não consegui dissimular mais a minha perturbação.
— Ouve — disse-lhe com a voz mal segura —, se o vires diz-lhe que venha ter comigo… mas diz-lhe sem parecer ligar grande importância ao assunto.
— Está bem — respondeu-me. — Eu digo-lhe.
Mas ela perscrutava-me com ar desconfiado e eu, sob o seu olhar, perdi a segurança, porque me parecia que o meu amor por Jaime estava escrito na minha cara em letras bem visíveis. Pelo tom da sua resposta compreendi que não faria o que lhe pedira. Desesperada, abri a porta, pedi licença e desci a escada com rapidez sem olhar para trás. No segundo andar parei e apoiei-me à parede olhando para cima. “Porque lhe disse isto? — pensava. — Que se passou em mim?” Continuei a descer, de cabeça baixa.
Tinha marcado encontro com Astárito em minha casa. Quando cheguei estava esgotada; já não estava habituada a sair de manhã; todo este sol e todas estas idas e vindas me tinham fatigado. Sentia-me triste; a minha visita a Gisela já a tinha expiado quando chorara no táxi que me transportara à sua casa nova. Foi minha mãe quem me abriu a porta, dizendo-me que alguém me esperava há mais de uma hora no meu quarto. Fui directamente para lá e sentei-me na beira da cama, sem me importar com Astárito, que, de pé, em frente da janela, parecia olhar para o pátio. Fiquei um momento imóvel, com a mão sobre o coração, ofegante, tanto correra pelas escadas acima. Estava de costas voltadas para Astárito e olhava com ar abstracto para a porta do quarto: ele tinha-me dado os bons-dias, mas nem sequer lhe respondera. Veio sentar-se ao pé de mim e, passando-me a mão pela cintura, olhou-me fixamente.
No meio de todas as minhas preocupações esquecera a sua louca sensualidade, sempre viva e aguçada. Achei-a intolerável.
— Então tu tens sempre desejo? — disse-lhe lentamente, num tom desagradável e recuando.
Não respondeu, tomou-me a mão e levou-a aos lábios com um olhar submisso.
— Tens sempre desejo? — repeti. — Mesmo a esta hora? Depois de teres trabalhado toda a manhã? Em jejum? Antes do almoço? Sabes que és extraordinário?
— Mas eu amo-te — disse-me. Vi os lábios tremerem-lhe e os olhos franzirem-se-lhe.
— Mesmo assim… — disse-lhe. — Há uma hora para o amor e uma hora para o resto. Marquei-te encontro justamente a esta hora para que compreendesses que não era de amor que se tratava… e tu, ao contrário… Não tens vergonha?
Olhava-me fixamente sem responder. Bruscamente tive a impressão de o compreender demasiado bem. Ele amava-me e este encontro esperava-o há não sei quantos meses. Enquanto eu me debatia no meio de mil dificuldades, ele não tinha feito outra coisa senão pensar nas minhas pernas, no meu seio, nas minhas ancas, na minha boca!
— Então — disse-lhe mais branda —, se eu me despir…
Ele disse que sim com a cabeça. Deu-me vontade de rir, sem maldade, mas não sem despeito.
— E a ideia de que me possa sentir triste ou simplesmente longe de todas estas coisas nunca te passa pela cabeça? Que posso ter fome, estar cansada… ou ainda ter outras preocupações… Isso nunca te ocorre, não?
Olhava-me. De repente atirou-se sobre mim, abraçou-me com força e aconchegou a cabeça na cavidade do meu ombro. Não me beijava, contentava-se em apoiar a cara contra a minha carne para sentir o seu calor. Respirava com força e de vez em quando suspirava. Agora já não estava irritada com ele; os seus gestos suscitavam-me pelo menos a compaixão e a consternação que me eram habituais: já não estava triste. Quando achei que ele já tinha suspirado bastante, repeli-o e disse-lhe:
— Preciso de falar contigo de uma coisa muito séria.
Olhou-me, segurou a minha mão e começou a acariciá-la. Era persistente. Realmente para ele nada mais existia que o seu desejo.
— Tu és da polícia, não és? — perguntei-lhe.
— Sou.
— Pois bem! Então manda-me prender e mete-me na prisão!
Disse-lhe isto em tom resoluto. Naquele momento desejava realmente que ele o fizesse.
— Mas porquê? Que te aconteceu?
— Aconteceu que sou uma ladra! — disse-lhe com força. — Acontece que roubei e que prenderam uma inocente por minha causa… portanto é preciso que me prendam; irei para a prisão de boa vontade. É isso que eu quero.
Não me pareceu admirado, mas apenas contrariado. Fez uma careta e disse:
— Explica-te!
— Já acabei de te dizer… sou uma ladra!
Em poucas palavras contei-lhe o roubo e expliquei-lhe como tinha sido presa a criada de quarto. Falei do estratagema de Gino, mas sem o nomear; disse somente: “um criado”. Mas desejava imenso falar-lhe de Sonzogne e do seu crime; fiz um esforço enorme para me conter. Concluí:
— Agora escolhe: ou libertas esta mulher da prisão… ou vou hoje mesmo entregar-me ao comissariado.
— Devagarinho!… — repetia levantando a mão. — Não há urgência alguma. Essa mulher está na prisão, mas não foi condenada. Esperemos.
— Não… não posso esperar. Ela está presa e parece que lhe batem… não posso esperar… Agora és tu quem tem de decidir…
O meu tom fez-lhe compreender que estava a falar sério. Levantou-se com uma expressão descontente e deu alguns passos pelo quarto. Depois disse como se falasse consigo próprio :
— Ainda há a história dos dólares.
— Mas ela negou sempre… depois de lhos terem encontrado… podemos dizer que era uma vingança de alguém que a detesta.
— E a caixa, tem-na?
— Está aqui! — disse-lhe tirando o objecto da mala e dando-lho.
Ele recusou-se a aceitá-lo.
— Não, não — disse-me —, não é a mim que o tens de dar.
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