Apaguei de novo a luz e voltei para a cama, medindo os passos. Antes de tornar a adormecer pensei que não podia ressuscitar o ourives, mas que podia salvar, ou pelo menos tentar salvar, a criada de quarto: era a única coisa que contava. Devia-o fazer, ainda mais porque acabava de descobrir que não era tão boa como pensava. Pelo menos a minha bondade não excluía o gosto pelo sangue, a admiração pela violência e a simpatia pelo crime.
Na manhã seguinte vesti-me com cuidado, meti a caixa na mala e saí para telefonar a Astárito. Sentia-me estranhamente alegre. A angústia que a revelação de Sonzogne me inspirara na noite anterior desaparecera completamente. Além disso observei mais vezes no decorrer da minha vida que a vaidade é a pior inimiga da caridade e da reprovação moral. Mais do que horror ou medo, eu sentia agora um sentimento de vaidade ao pensar que em toda a cidade eu era a única a saber como fora praticado o crime e quem era o autor. “Eu sei quem matou o ourives”, dizia a mim própria, e tinha a sensação de olhar os homens e as coisas com olhos diferentes. Parecia-me que qualquer coisa mudara, mesmo na minha fisionomia, e receava quase que se decifrasse claramente o segredo de Sonzogne na expressão da minha cara. Ao mesmo tempo experimentava um desejo doce, agradável, irresistível, de contar a alguém o que sabia. Como se fosse demasiada a água num vaso muito pequeno para a conter, o segredo transbordava da minha alma e eu sentia a tentação de o lançar para outra. Suponho que é o principal motivo pelo qual tantos criminosos confiam às suas amantes ou às suas mulheres os crimes que cometeram e estas os contam a algum amigo mais íntimo e aquele a outro, até que a informação chega aos ouvidos da polícia, provocando assim a perdição de todos. Mas penso também que, quando confiam os seus actos infames, os criminosos procuram descarregar uma parte de um peso que lhes pareceu intolerável e fazem com que os outros também o carreguem. Como se o crime fosse um fardo que eles pudessem partilhar e repartir por vários ombros até o tornar sem importância. Como se, pelo contrário, ele não fosse uma carga inalienável, cujo peso não diminuiu por estar distribuído por outras pessoas, mas que se multiplica por todos aqueles que aceitam a sua carga!
Percorrendo as ruas para encontrar um telefone público, comprei dois jornais e procurei, nas notícias da cidade. informações sobre o crime da Rua Palestro. Mas muitos dias se tinham passado: não vi senão algumas linhas que exprimiam a decepção no seguinte título: “Nenhuma luz sobre o assassínio do ourives.” Compreendi que, a menos que praticasse qualquer erro grosseiro, Sonzogne podia estar certo de que nunca mais o descobririam. O carácter ilícito das actividades da vítima tornava, por si mesmo, muito difíceis as investigações policiais. O ourives, como diziam os jornais, estava com frequência em contacto, secretamente e por motivos inconfessáveis, com pessoas de todas as classes sociais e de todas as condições; o assassino podia muito bem ser alguém que nunca o tivesse visto antes e que o matasse sem premeditação. Esta hipótese estava muito próxima da verdade. Mas, precisamente porque era justa, deixava ver que a polícia renunciara a descobrir o culpado.
Encontrei um telefone público num restaurante e marquei o número de Astárito. Havia bem umas seis semanas que não lhe telefonava; devo tê-lo apanhado desprevenido, porque não reconheceu logo a minha voz e respondeu-me primeiro com o tom expedito que empregava quando estava no seu gabinete. Durante um instante tive a nítida impressão de que ele não queria mais ouvir falar de mim e senti um baque no coração ao pensar na criada de quarto na sua prisão, e na fatalidade que fizera com que Astárito deixasse de amar-me no próprio momento em que a sua intervenção era necessária para salvar esta desgraçada. No entanto, o meu próprio susto agradou-me porque me deu de novo o sentimento perdido da minha bondade e me fez compreender que a libertação desta mulher era verdadeiramente importante para mim, e que, não obstante as minhas relações com Sonzogne, o assassino, continuava a doce e compassiva Adriana que sempre fora.
Assustada, disse o meu nome a Astárito e ouvi com alívio a sua voz mudar imediatamente de tom e tartamudear enquanto o ritmo das suas palavras se acelerava.
Devo confessar que me senti invadir por uma onda de afeição por ele, porque um amor assim (aliás sempre lisonjeiro para uma mulher) dava-me segurança e enchia-me de gratidão. Marquei-lhe encontro com uma voz acariciadora; prometeu vir sem falta e saí do restaurante.
Durante toda aquela noite que passara com pesadelos tinha chovido muito; várias vezes ouvira durante o sono o ruído da chuva misturado com os assobios do vento, formando como uma parede de mau tempo à roda da casa, aumentando a solidão e as trevas nas quais eu me debatia. Mas de madrugada a chuva cessara e os últimos sopros de vento tinham varrido as nuvens, deixando o céu límpido e o ar imóvel e lavado. Depois de ter telefonado a Astárito, comecei a andar ao longo de uma avenida de plátanos, sob os primeiros raios de sol dessa manhã. Do meu penoso e frequentemente interrompido sono não ficara mais que um leve atordoamento que o ar frio me fez em breve passar. A beleza do dia dava-me uma grande alegria, e todos os objectos sobre os quais os meus olhos pousavam pareciam-me dotados de uma sedução que encantava os meus olhos e me alegrava. Gostava das gotas de orvalho em torno das pedras, agora secas. Gostava dos troncos dos plátanos com as escamas sobrepostas da sua casca; brancas, verdes, amarelas, castanhas, e aqui e ali douradas; gostava das fachadas das casas onde as grandes manchas molhadas conservavam ainda o traço da lavagem nocturna; gostava dos transeuntes da manhã; homens que vão apressados para o trabalho, criadas com o cesto no braço, raparigas e rapazes acompanhados dos pais ou dos irmãos, levando pastas e livros. Parei para dar esmola a um velho mendigo, e quando procurava o dinheiro no meu porta-moedas, os meus olhos pousaram ternamente sobre o seu velho capote militar e começaram a sentir simpatia pelos bocados com que ele estava remendado nos cotovelos e junto da gola. Eram bocados cinzentos, castanhos, amarelos ou de um verde menos destacado do conjunto; reparei no prazer que sentia ao observar a sua cor e a maneira como eles estavam solidamente cosidos com linha preta, com grandes pontos visíveis, e surpreendi-me a pensar no trabalho que ele teria tido uma manhã para cortar com a tesoura a parte usada, procurar um bocado em qualquer velho farrapo, ajustá-lo sobre o buraco e cosê-lo com amor. Gostava desses remeados como o esfomeado gosta de ver o pão saindo do forno; afastando-me, não pude impedir-me de olhar para trás várias vezes para os olhar. Então, de repente, pensei que devia ser bom ter uma vida semelhante àquela tão límpida, tão agradável, tão limpa. Uma vida que tivesse sido lavada de todos os seus aspectos embaciados e permitir olhar tudo com amor, mesmo as coisas mais humildes. Nesse momento senti de novo o desejo, há muito adormecido e mudo, de uma vida normal, com um homem só, numa casa nova, arrumada, clara e limpa. Apercebi-me de que o meu trabalho não me agradava, se bem que, por uma singular contradição, a minha natureza me levasse para ele. Pensava que este não era um trabalho limpo, que nele havia sempre à minha volta, sobre o meu corpo, sobre os meus dedos, na minha cama, como que uma impressão de suor, de espuma, de calor impuro, de humidade pegajosa que parecia persistir mesmo depois de me ter lavado e de ter arrumado o quarto. Pensava também que esta história de me despir e de me vestir durante quase todo o dia debaixo dos olhares de homens sempre diferentes impedia-me de considerar o meu corpo com o sentimento de prazer e de intimidade que teria gostado e que me lembro de ter experimentado, ainda rapariguinha, quando me via ao espelho ou quando tomava banho. É uma bela coisa poder observar o nosso próprio corpo como uma coisa nova e desconhecida que floresce, toma vigor e se embeleza sozinha; ora eu para dar de cada vez esta impressão de novidade aos meus amantes roubara-a a mim própria para sempre.
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