A luz destas reflexões, o crime de Sonzogne, a perversidade de Gino, a infelicidade da criada de quarto e todas as outras intrigas nas quais me debatia apareciam-me como consequências da irregularidade da minha vida. Consequências aliás privadas de sentido e que não me davam qualquer impressão de falta nem podiam ser suprimidas, a não ser que eu conseguisse satisfazer as minhas velhas aspirações a uma vida normal. Tomou-me um grande desejo de estar em regra em todos os sentidos. Em regra com a moral, que não permitia um ofício como o meu, em regra com a natureza, que impunha que na minha idade uma mulher tivesse filhos, em regra com o gosto, que mandava que se vivesse no meio de belos objectos, que se usasse lindos vestidos frequentemente renovados, que se morasse em casas iluminadas, limpas e cômodas. Somente estas coisas excluíam-se umas às outras; se eu estivesse em regra com a moral, não podia estar em regra com a natureza; e o gosto contradizia ao mesmo tempo a moral e a natureza. A esta ideia experimentava o despeito que me era habitual, tão velho como a minha vida, de me saber sempre em dívida com a necessidade e na incapacidade de me satisfazer somente pelo sacrifício das minhas melhores aspirações. Mas apercebia-me também mais uma vez de que não tinha aceite inteiramente a minha sorte; e isso dava-me confiança porque pensava que logo que se proporcionasse ocasião de mudar de vida, eu não seria apanhada desprevenida, mas aproveitaria a ocasião com clarividência e decisão.
Marcara encontro com Astárito ao meio-dia, à saída da repartição; tinha ainda algumas horas à minha frente: sem saber o que fazer, decidi ir a casa de Gisela. Havia já algum tempo que não a via; supus que qualquer outro ocupava na sua vida o antigo lugar de Ricardo: meio noivo, meio amante. Gisela, também como eu, esperava regularizar a sua situação; suponho que é uma esperança que têm todas as mulheres da minha espécie. Mas eu era levada a isso por uma inclinação nata, enquanto Gisela, que dava uma grande importância à consideração, era sobretudo por questão de decoro. Ela corava quando se pensava no que ela era, eis tudo, se bem que ela tivesse sido levada a sê-lo por uma vocação muito mais profunda que a minha. Eu, ao contrário, não sentia o menor sentimento de vergonha, mas, em certos momentos, uma impressão de servidão e de vida contra a natureza.
Chegada a casa de Gisela, dispunha-me a subir a escada quando a voz da porteira me obrigou a parar:
— Vai a casa da menina Gisela? Ela já cá não mora.
— Para onde foi ela?
— Rua Casablanca, 7.
A Rua Casablanca era uma rua nova situada num bairro recente.
— Um senhor louro veio buscá-la de automóvel; levaram as coisas e partiram.
Reparei imediatamente que se viera era justamente para ouvir aquilo, que ela tinha partido com alguém. Não sei porquê experimentei uma brusca impressão de cansaço; as pernas vergaram-se-me e tive de me apoiar à ombreira da porta para não cair. Mas reagi, e depois de reflectir decidi ir à nova casa de Gisela. Tomei um táxi e disse ao motorista que me levasse à Rua Casablanca.
Quanto mais o táxi avançava, tanto mais nos afastávamos da cidade e das suas velhas casas, alinhadas nas ruas estreitas e encostadas umas às outras. As ruas alargavam, bifurcavam, confluíam para formar praças e tornavam-se mais e mais largas; as casas eram novas, e entre duas construções entrevia-se de vez em quando uma faixa verde que era o campo. Percebi que a minha viagem tinha um sentido oculto, extremamente penoso, e tornava-me cada vez mais triste. Lembrava-me de todos os esforços feitos por Gisela para me roubar a inocência e me tornar igual a ela; e sem o querer, da mesma maneira natural como uma ferida sangra, assim também comecei a chorar.
Quando desci do táxi, tinha os olhos brilhantes e as faces cheias de lágrimas.
— Não vale a pena chorar, menina — disse-me o chauffeur.
Limitei-me a abanar a cabeça e encaminhei-me para a porta da casa de Gisela.
Esta casa era inteiramente branca, de estilo moderno, de construção absolutamente recente como o demonstravam os materiais ainda acumulados no pequeno jardim e as manchas de cal que maculavam as grades. Entrei num hall branco completamente nu; a escada era também branca, com janelas de vidro fosco, deixando passar uma luz suave. O porteiro, um forte rapaz ruivo, de fato-macaco, muito diferente dos velhos porteiros sujos que estava habituada a ver, indicou-me o ascensor; premi o botão e o elevador começou a subir. Exalava um agradável cheiro a madeira nova e verniz. No ruído que fazia também se tinha a impressão de se notar qualquer coisa de novo como o trabalhar de um motor em rodagem. O elevador subiu até ao último andar: à medida que subia, a luz aumentava como se não existisse tecto e como se subisse direito para o céu.
Por fim parou, eu saí e encontrei-me rodeada de uma claridade luminosa, num patamar de um branco ardente. em frente de uma porta de madeira clara com puxadores de cobre lavrados. Toquei: uma criadinha morena e magra veio abrir: tinha uma figura gentil, uma touca de renda e um avental bordado.
— A menina Santis? — perguntei. — Diga-lhe que está aqui a Adriana.
Deixou-me para ir ao fundo do corredor junto de uma porta envidraçada com vidros baços como os da escada. O corredor era também branco e nu como o resto da casa; julguei que o apartamento devia ser pequeno, quatro casas, não mais. Estava aquecido; o calor do irradiador reavivava o cheiro penetrante da cal fresca e da pintura nova. A porta envidraçada abriu-se ao fundo do corredor; a criadinha reapareceu e disse-me que podia entrar.
Entrando, primeiro nada vi, porque através de um grande vitral o sol de Inverno entrava em jorros deslumbrantes. Era o último andar: através desse vitral só se via o céu azul, resplandecente de sol. Por momentos esqueci a minha visita. Fechando os olhos perante esse sol quente e dourado como um velho vinho, senti uma impressão de bem-estar. Mas a voz de Gisela fez-me estremecer. Estava sentada em frente do vitral e por cima de uma mesinha semeada de frascos estendia os dedos a uma mulher baixinha e grisalha: a manicura.
— Oh! Adriana! Senta-te um momento — disse-me Gisela com falsa atenção, como lhe era habitual.
Sentei-me ao lado da porta e olhei à minha volta. A sala, vista do lado da janela, era comprida e estreita. A bem dizer quase não tinha móveis: uma mesa, um bufete, algumas cadeiras de madeira clara; mas era tudo novo e sobretudo havia o sol. Este sol tinha qualquer coisa de luxuoso. Há casas ricas — pensei eu — que não possuem um sol como este. Fechei os olhos gulosamente com doçura e por um momento em nada pensei. Depois senti qualquer coisa pesada e fofa cair sobre os meus joelhos; abri os olhos e vi que era um gato enorme, de uma raça que eu nunca tinha visto, com um pêlo extremamente comprido, fino como seda, de um cinzento-azulado, com um focinho grande, mau e majestoso, que não me agradou. O gato começou a ronronar, roçou-se por mim, levantou a sua cauda emplumada e emitiu uns roncos miados. Depois enroscou-se sobre os meus joelhos.
— Que lindo gato! — disse eu. — De que raça é?
— É um gato persa — respondeu com orgulho Gisela. É uma raça muito apreciada. Estes gatos chegam a ser pagos por muito dinheiro.
— Nunca tinha visto — disse eu acariciando o gato.
— Sabe quem tem um gato igual a este? — disse a manicura. — A senhora Radaelli. Se visse como o amima! Mais que a um cristão! No outro dia perfumou-o com o pulverizador… Então. ponho mais uma camada de verniz nas unhas dos pés?
— Não, Marta, não vale a pena, por hoje chega — disse Gisela.
A manicura arrumou os seus instrumentos e os frasquinhos numa maleta, cumprimentou-me e saiu da sala.
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