Uma vez sós, olhámo-nos. Gisela também me pareceu toda de novo como a casa. Vestia um bonito tricot de angorá vermelho com uma saia castanha que eu nunca lhe tinha visto. Tinha engordado: debaixo da malha o seio sobressaía mais e as ancas estavam mais amplas. Notei também que tinha as pálpebras um pouco inchadas como as pessoas que comem bem, dormem muito e não têm aborrecimentos.
As pálpebras assim davam-lhe um ar ligeiramente sonso. Olhou um instante para as suas unhas e perguntou-me, para dizer qualquer coisa:
— Que dizes? Gostas da minha casa?
Eu não sou invejosa. Mas nesse momento, talvez pela primeira vez na minha existência, senti a mordedura da inveja e admirava-me que houvesse pessoas capazes de manter em toda a sua vida um tal sentimento, por me parecer desagradável e doloroso no mais alto grau. Sentia na cara uma espécie de esticão como se tivesse emagrecido subitamente e esse esgar impossibilitava-me de sorrir e de dizer algumas palavras gentis a Gisela, como teria desejado. Experimentava por ela uma aversão encarniçada. Teria querido dizer-lhe alguma frase desagradável: feri-la, ofendê-la, humilhá-la, qualquer coisa que envenenasse a sua alegria. “Que tenho eu? — pensava, confusa, sem deixar de acariciar o gato. — Já não sou eu?” Felizmente que estes sentimentos não duraram muito. Logo a bondade existente no fundo da minha alma se revoltou e lutou contra esta súbita inveja. Pensava que Gisela era minha amiga, que a sua sorte me devia ser grata e que devia estar contente por ela.
Imaginei Gisela entrando pela primeira vez na sua casa nova batendo as mãos de alegria: no mesmo instante o frio da inveja desapareceu da minha cara e senti-me de novo aquecida pelo belo sol da sala, mas de uma maneira mais íntima, como se o sol tivesse entrado também na minha alma.
— Ainda o perguntas? — disse-lhe. — Uma casa tão bonita, tão alegre? Como a arranjaste?
Tive a impressão de ter pronunciado estas palavras com sinceridade e sorri; mais para mim própria, como por uma recompensa, do que para Gisela. Respondeu-me em ar de confidência e familiaridade:
— Lembras-te de João Carlos, daquele louro com o qual me zanguei logo naquela noite? Pois bem! Algum tempo depois voltou a procurar-me… era bem melhor do que me pareceu à primeira vista… Depois tornámo-nos a encontrar várias vezes… E há alguns dias disse-me: “Vem comigo, que quero fazer-te uma surpresa…” Eu pensei que me quisesse dar um presente: uma mala, um perfume… Em vez disso meteu-me no carro, trouxe-me aqui, mandou-me entrar… A casa estava completamente vazia… Pensei que fosse para ele. Perguntou-me se eu gostava, disse-lhe que sim mas sem imaginar, claro… Então ele disse-me: “Aluguei esta casa para ti!” Podes calcular a minha surpresa!
Sorria com ar digno e satisfeito, deitando um olhar à sua volta. Impulsivamente levantei-me e fui beijá-la, dizendo:
— Fico bem contente! Bem contente! Podes crer que sinto verdadeiro prazer com isso!
Este gesto acabou por dissipar no meu espírito todo o sentimento hostil que ainda conservava. Encostei a cara à janela e olhei para fora. A casa elevava-se sobre uma espécie de promontório debaixo do qual se estendia uma paisagem imensa. Era uma terra cultivada, percorrida por um riachozinho sinuoso, semeada aqui e ali de matas, de quintas, de acidentes de terreno pedregoso. Da cidade só se via, num canto do panorama, um pequeno número de casas brancas, último prolongamento dos arrabaldes. Uma fila de montanhas desenhava-se no horizonte sobre o céu azul e luminoso. Voltei-me para Gisela e disse-lhe:
— Sabes que tens uma vista magnífica?
— Não é? — respondeu-me.
Foi ao bufete e tirou dois copinhos e uma garrafa de ventre bojudo :
— Tomas um cálice de licor? — perguntou-me com ar negligente.
Notava-se com clareza que todos os gestos de dona de casa a enchiam de satisfação.
Sentámo-nos à mesa e bebemos o licor em silêncio. Sentia que Gisela estava embaraçada. Fui ao encontro das suas ideias e disse-lhe com doçura:
— Tu não te portaste bem comigo! Podias ao menos ter-me dito!
— Não tive tempo — respondeu-me vivamente. — Com a mudança, sabes… E depois tive que comprar tanta coisa: móveis, roupa branca, louças… Nem tinha tempo para respirar… É que é preciso tanta coisa para montar uma casa!
Falava beliscando os lábios como certas senhoras distintas costumam fazer quando falam nestas coisas.
— Compreendo — disse eu sem sombra de maldade nem de amargura, absolutamente como se se tratasse de uma coisa que não me dissesse respeito. — Agora, que estás instalada e que as tuas coisas caminham melhor, não te agrada ver-me… tens vergonha de mim.
— Não tenho vergonha de ti — retorquiu com uma leve irritação, mais motivada, pareceu-me, pelo meu tom razoável que pelas minhas palavras. — Se pensas isso, és estúpida. Somente, doravante não nos podemos ver como dantes… quero dizer, não podemos sair juntas e fazer tudo o resto… Se ele viesse a saber, estava arranjada!
— Está sossegada — disse-lhe com doçura. — Não me tornarás a ver. Hoje vim unicamente para saber o que te tinha acontecido.
Fingiu não ouvir, confirmando assim as minhas suposições. Houve um momento de silêncio. Depois perguntou-me com ar de falsa solicitude:
— E tu?
Em seguida, com uma espontaneidade que me assustou, pensei em Jaime. Respondi-lhe com voz embargada:
— Eu? Está tudo como de costume.
— E Astárito?
— Vejo-o às vezes.
— E Gino?
— Acabei com tudo.
A recordação de Gino apertou-me o coração. Mas Gisela interpretou à sua maneira a expressão mortificada que o meu rosto deixava transparecer; pensava talvez que eu estava amargurada pela sua sorte e pela sua atitude desdenhosa. Disse com uma delicadeza afectada:
— Ninguém me tira da cabeça que bastava tu quereres para Astárito te pôr casa também.
— Mas eu não quero Astárito nem outro qualquer — respondi-lhe tranquilamente.
Vi a sua cara desconcertada.
— Porquê? — perguntou-me. — Não gostavas de ter uma casa como esta?
— A casa é bonita — respondi —, mas eu gosto mais da minha liberdade.
— Eu sou livre — disse-me, irritada. — Mais livre do que tu… tenho o dia todo para mim.
— Não é dessa liberdade que eu falo.
— Então de qual?
Compreendi que a magoara, mas porque não tinha mostrado admiração suficiente pela casa, de que ela estava tão orgulhosa. Expliquei-lhe, no entanto, que de maneira nenhuma desprezava a situação dela, mas que não me queria ligar sem amor a qualquer homem. e feri-a de novo, mais ainda desta vez. Preferi mudar de conversa e disse-lhe :
— Mostra-me a casa… Quantos quartos tens?
— Que te importa a casa — disse-me com desapontamento ingênuo —, se acabas de dizer que não gostarias de ter uma casa como esta?
— Não foi isso que eu disse — respondi com calma. — A tua casa é muito bonita. Gostaria até muito de ter uma assim!
Ela não respondeu. Baixou os olhos com ar mortificado:
— Então — disse eu molemente ao fim de uns instantes —, não ma queres mostrar?
Levantou os olhos e vi com espanto que estavam cheios de lágrimas.
— Não és a amiga que eu julgava ! — gritou-me. — Tu… tu… estás cheia de inveja… Desprezas de propósito a minha casa para me magoares.
Falava sem me olhar, com a cara cheia de lágrimas. Eram lágrimas de despeito; a invejosa desta vez era ela; sofria de uma inveja sem objectivo e corava sem o saber pelo meu amor desesperado por Jaime e pelo desprendimento amargo que este amor me dava. Mas, compreendendo-a tão bem, e porque a compreendia, senti pena dela. Levantei-me, aproximei-me e pousei-lhe a mão no ombro.
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