Alberto Moravia - A Romana

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A Romana: краткое содержание, описание и аннотация

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Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.

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Tenho muitas vezes notado que assim que uma notícia nos enche de horror ou de espanto, a nossa cabeça esvazia-se e a nossa atenção fixa-se sobre um objecto qualquer, o primeiro que nos cai sob os olhos, mas de uma maneira singular, como se ela quisesse trespassar a superfície para chegar a não sei que segredo que se escondesse aí. Foi o que me aconteceu nessa noite com Sonzogne, depois de me ter feito aquela revelação. Fiquei com os olhos escancarados e o espírito esvaziou-se de repente, como um recipiente que contenha um líquido ou um pó muito fino, assim que é furado; somente, sentia o meu espírito, embora vazio, pronto a encher-se de outra matéria, e esta sensação era dolorosa porque eu teria querido preencher esse vazio e não o conseguia. Enquanto o ouvia, fixava os olhos sobre o pulso de Sonzogne, estendido a meu lado, com o cotovelo apoiado na cama. Tinha o braço branco, liso, redondo, sem pêlos, onde nada indicava os seus músculos extraordinários. O pulso também era redondo e branco; nesse pulso estava o único objecto que Sonzogne conservava na sua nudez: uma pulseira de couro, parecida com as pulseiras dos relógios, mas sem relógio. A cor desta pulseira, de um preto engordurado, parecia dar um significado não só ao braço, mas a todo o corpo branco e nu, e esse significado distraía-me sem que o pudesse explicar. Era uma nota de cor sombria; sugeria o elo de uma cadeia de forçado. Mas havia também qualquer coisa de gracioso e de cruel nessa simples pulseira negra, uma espécie de ornamento que confirmava o carácter brusco e felino da ferocidade de Sonzogne. A minha distracção durou só um instante. De repente o meu espírito encheu-se de pensamentos tumultuosos, que se agitavam como pássaros numa gaiola estreita. Lembro-me de que tive medo dele desde o primeiro momento. Pensando que tinha estado com ele na cama, compreendi que, cedendo ao seu abraço no escuro, o meu corpo horrorizado descobrira antes do meu espírito ignorante o que ele me escondia e fora por isso que gritara daquela maneira.

Acabei por lhe dizer a primeira coisa que me veio ao espírito:

— Porque fizeste isso?

— Tinha um objecto de valor para vender — respondeu-me (e os seus lábios mal se mexiam enquanto falava). — Sabia que aquele comerciante era um bandido, mas não conhecia outro… ofereceu-me um preço ridículo… Eu detestava-o porque já me tinha roubado uma vez… disse-lhe que ficava com o objecto e que ele não passava de um malandro… Então ele respondeu-me uma coisa que me fez perder a cabeça.

— Que foi? — perguntei-lhe.

Percebia agora com espanto que à medida que Sonzogne me contava essas coisas o meu medo começava a desvanecer-se; sem querer, uma impressão de participação me animava. No momento em que perguntei o que lhe tinha dito o ourives senti que esperava quase uma coisa atroz que pudesse desculpar o crime, ou pelo menos justificá-lo. Respondeu-me com secura:

— Disse-me que, se não me fosse embora, me denunciaria. Em suma, pensei : “Pois é quanto basta!” E quando ele se voltou…

Calou-se e olhou-me.

— E como era ele? — perguntei.

— Calvo, baixinho, com cara de fuinha… parecia um coelho.

Disse isto com uma entoação tranquila e antipática, que me fez ver, e mesmo odiar, esse aldrabão com cara de coelho enquanto avaliava, com ar desconfiado e falso, o objecto que lhe oferecia Sonzogne. Agora já não tinha medo algum; sentia que Sonzogne me transmitira o seu rancor contra o assassinado; e não estava até convencida de que o condenaria. Na verdade tinha a impressão de estar tão bem dentro do que passara que me parecia que eu também teria sido capaz de cometer este crime. Como compreendia esta frase: “Respondeu-me uma coisa que me fez perder a cabeça!” Ele tinha perdido a cabeça uma vez com Gino e uma segunda comigo; só por sorte não nos tinha morto também a mim e a Gino. Compreendia-o tão bem, penetrava-o tão bem, que não só já não tinha medo, mas experimentava uma espécie de simpatia horrorizada, essa simpatia que não me conseguira inspirar antes de saber o seu crime e quando ele era apenas um amante como os outros.

— Mas tu não tens pena? — perguntei-lhe. — Não tens remorsos?

— Agora está feito — disse.

Olhava-o intensamente. A esta resposta. surpreendi-me, sem dar por isso, a aprovar com a cabeça. E então lembrei-me de Gino, que também era, segundo o termo de Sonzogne, um bandido, mas que não deixava de ser um homem que eu amara e que me amava. Pensava que amanhã poderia aprovar da mesma maneira a morte de Gino. Admitia que o ourives não era nem melhor nem pior do que Gino, que não havia diferença entre os dois, a não ser que eu não conhecia o ourives, e se me parecera justo que o tivessem assassinado era unicamente porque tinha ouvido dizer de uma certa maneira que ele tinha cara de coelho — e senti remorsos e horror… Não há horror por Sonzogne, que era feito assim e que era preciso compreender para o julgar, mas de mim, que não era feita como Sonzogne e portanto me deixava tomar pelo contágio do ódio e do sangue. Fui tomada por uma espécie de agitação, e de um salto sentei-me na cama: — Oh! Meus Deus! — repetia eu. — Oh! Meu Deus! Porque fizeste isso? E porque mo contaste?

— Tinhas tanto medo de mim — respondeu com simplicidade — e no entanto nada sabias; pareceu-me estranho e contei-te… Felizmente — acrescentou, divertido com o próprio raciocínio — nem todos são como tu; já estaria descoberto!

— É melhor que te vás embora e me deixes sozinha — disse-lhe. — Vai, anda.

— Que tens tu agora? — respondeu-me.

Reconheci o tom que tinha quando estava furioso. Mas pareceu-me descobrir neste tom não sei que pesar de se encontrar só, condenado também por mim, que pouco antes lhe tinha pertencido. Acrescentei rapidamente:

— Não julgues que tenho medo de ti. Já não é por medo… Mas tenho de me habituar à ideia… Preciso de pensar… quando voltares já será diferente.

— Mas em que queres pensar? — disse. — Não tens a intenção de me denunciar?

Estas palavras produziram-me a mesma impressão que me dera a confissão de Gino da maneira como traíra a criada de quarto: era gente que vivia num mundo diferente do meu. Fiz um grande esforço e respondi:

— Mas se te digo que podes voltar! Sabes o que outra mulher te diria? Não quero mais ouvir falar de ti, não te quero ver mais… era o que diria!

— Mas agora queres que me vá embora!

— Julgava que te querias ir embora… então um momento de mais ou de menos… Mas, se queres ficar, fica! Queres dormir cá? Se queres, podes passar a noite comigo e ires-te embora só amanhã de manhã… Queres?

Para falar verdade, fazia-lhe este oferecimento numa voz baça e triste, mas fazia-lho e estava contente por isso. Deitou-me um olhar onde julguei descobrir um vislumbre de gratidão (talvez me tivesse enganado), depois abanou a cabeça:

— Falei por falar — disse. — Realmente tenho de me ir embora.

Levantou-se e aproximou-se da cadeira onde tinha deixado a roupa.

— Como quiseres — disse-lhe. — Mas, se queres ficar, podes ficar. E se qualquer dia tiveres necessidade de dormir aqui — acrescentei com esforço — podes vir.

Não disse palavra; começou a vestir-se. Levantei-me por minha vez e vesti um penteador. Enquanto o enfiava senti uma impressão de loucura, como se o quarto estivesse cheio de vozes murmurando-me ao ouvido palavras intensas e contraditórias. E talvez fosse esta impressão de loucura que me levou a fazer um gesto sem saber porquê. Enquanto girava pelo quarto, fazendo movimentos lentos com um sentimento de frenesim, vi-o abaixar-se para atacar os sapatos. Então ajoelhei-me na sua frente e disse-lhe:

— Deixa estar que eu faço isso!

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