De repente, não pude dominar-me e os olhos encheram-se-me de lágrimas. Mas não era tanto pelas bofetadas como pelo enervamento dessa noite, cheia de acontecimentos desagradáveis e tristes… Julguei ver Gino projectado na rua, lembrei-me de que não lhe ligara qualquer importância e me tinha ido embora alegremente com Sonzogne unicamente interessada em apalpar os seus músculos extraordinários; senti remorsos, piedade por Gino e desgosto por mim própria; compreendi que fora castigada pela minha insensibilidade e pela minha patetice pela mesma mão que batera em Gino. Tinha sido cúmplice da violência e essa mesma violência voltara-se contra mim. Através das minhas lágrimas olhava Sonzogne. Ficara sentado na beira da cama, nu, sem pêlos, as costas um pouco curvas, deixando cair os seus braços extraordinários que não traíam a sua força. Senti um repentino desejo de suprimir a distância que nos separava e disse-lhe, não sem esforço:
— Mas pode ao menos saber-se porque me bateste?
— Fazias uma destas caras!
Parecia mergulhado em pensamentos; a pele do seu maxilar estremecia.
Compreendi que se o queria aproximar de mim devia primeiro que tudo dizer-lhe o que pensava dele e nada lhe esconder.
— Tu pensavas que eu não gostava de ti? Pois bem! Enganas-te!
— É possível.
— Enganas-te. Na realidade, não sei porquê, mas fazes-me medo. Era por isso que eu fazia aquela cara. A estas palavras voltou-se bruscamente para mim e perscrutou-me com um olhar desconfiado. Mas tranquilizou-se logo e perguntou-me, não sem vaidade:
— Faço-te medo?
— Sim.
— E agora ainda te faço medo?
— Não; agora podes até matar-me… é-me indiferente. Eu dizia a verdade, e até naquele momento quase desejava que ele me matasse, porque de repente perdera o desejo de viver. Mas ele irritou-se e disse-me:
— Quem fala em te matar? E porque te fazia medo?
— Não sei… fazias-me medo… são coisas que não se podem explicar.
— Gino fazia-te medo?
— Porque me havia de fazer medo?
— E então porque te faço eu medo, eu?
Agora já não mostrava vaidade, mas eu sentia que começava a ficar furioso.
— Ora! — disse-lhe para o apaziguar. — Tu fazias-me medo porque te acho capaz de fazer sei lá o quê!
Não respondeu logo e reflectiu durante uns instantes. Depois voltou-se e perguntou-me em tom ameaçador:
— Tudo isso quer dizer que devo vestir-me e ir-me embora?
Olhava-o e compreendi que estava de novo a ponto de encolerizar-se e que uma recusa da minha parte faria cair sobre mim qualquer outra violência, talvez pior ainda. Era preciso aceitar. Mas pensava naqueles olhos claros e sentia repugnância à ideia de os ver olharem-me fixamente durante o amor. Disse-lhe molemente.
— Não… fica se quiseres… mas apaga a luz. Levantou-se, pequeno e branco, extraordinariamente bem proporcionado, à parte o pescoço, que tinha um pouco curto, e foi nas pontas dos pés dar a volta ao interruptor ao pé da porta. Mas compreendi logo que não tivera uma boa ideia em ter pedido para apagar a luz, porque assim que o quarto ficou às escuras o medo, que julgava já afastado, tomou de novo posse de mim. Era como se tivesse dentro do quarto não um homem, mas um leopardo ou qualquer outra fera, capaz de se encolher num canto para me apanhar desprevenida, de saltar sobre mim e despedaçar-me. Talvez se tenha demorado no meio do quarto às escuras tenteando caminho por entre as cadeiras e os outros móveis; talvez fosse também o meu temor que me fizesse parecer a demora longa. Julguei que tinha passado um tempo infinito até ele chegar à cama, e quando pôs as suas mãos sobre mim não pude reprimir um novo sobressalto, mais forte ainda do que o primeiro. Esperava que ele não se apercebesse, mas tinha o instinto aguçado — exactamente como os animais — e ouvi logo, muito perto de mim, a sua voz perguntar-me :
— Ainda tens medo?
Por certo, no escuro, o meu anjo-da-guarda devia estar presente. O tom da sua voz fez-me adivinhar que ele tinha levantado o braço e que esperava a minha resposta para decidir se me devia bater ou não. Percebi que ele sabia que fazia medo e desejava que não o temessem e o amassem como aos outros homens. Mas para chegar a esse resultado não conhecia outro meio que o de inspirar um medo ainda mais forte. Estendi a mão, fingi acariciar-lhe o pescoço e o ombro direito, e tive a certeza do que imaginara; ele tinha o braço levantado, pronto a esbofetear-me. Disse com voz forte, esforçando-me para dar à minha voz a entoação habitual, doce e tranquila:
— Não… desta vez é só frio… Vamos enfiar-nos na cama.
— Está bem! — disse ele.
Este “Está bem!”, onde subsistia ainda um resto de ameaça, confirmou a minha desconfiança. Então, enquanto que, debaixo dos lençóis, ele me apertava e me estreitava, passei um momento de angústia indescritível, um dos piores da minha vida. O medo inteiriçava-me os membros, que, sem eu o querer, se arrepiavam ao contacto do seu corpo, singularmente liso, escorregando e serpenteando. Ao mesmo tempo dizia a mim própria ser absurdo ter medo num momento daqueles e procurava com todas as forças da minha alma dominar o meu temor e abandonar-me a ele sem receio, como a um amante bem amado. Sentia este medo, não tanto nos meus membros, que me obedeciam, às vezes com grande repugnância, mas no fundo das minhas entranhas, que pareciam fechar-se e recusar-se ao abraço com horror. Acabou por me possuir e senti um prazer que o terror tornava negro e atroz. Não pude evitar de emitir um grito longo e lamentoso, na escuridão, como se a posse final não fosse a do amor, mas a da morte, como se esse grito fosse o da minha vida que partia, não deixando atrás dela mais do que um corpo inanimado e martirizado.
Depois ficamos um bom bocado às escuras sem falar. Mas eu estava estafada e adormeci quase em seguida. Senti logo a impressão de um enorme peso sobre o meu peito, como se Sonzogne se tivesse acocorado, dobrado sobre si próprio, nu como estava, os joelhos entre os braços e a cara sobre os joelhos. Estava sentado sobre o meu peito, as nádegas duras e nuas fazendo pressão sobre o meu pescoço, os pés sobre o meu estômago. A medida que adormecia, o seu peso aumentava, e, a dormir, mexia-me de um lado para o outro para experimentar desembaraçar-me, ou pelo menos deslocá-lo. Por fim tive a impressão de sufocar e quis gritar. Fazia-o sem voz, que estacionava no meu peito muito tempo, um tempo que me pareceu infinito; por fim consegui emiti-la e acordei num choro alto.
A lâmpada da mesa-de-cabeceira estava acesa e Sonzogne olhava-me apoiado no cotovelo.
— Dormi muito tempo? — perguntei-lhe.
— Uma meia hora — disse por entre dentes.
Deitei-lhe uma olhadela onde devia persistir o terror do meu pesadelo, porque me perguntou com um curioso acento, como para entabular conversa:
— E agora, ainda tens medo?
— Não sei.
— Se soubesses quem eu sou, ainda terias mais medo do que anteriormente.
Todos os homens depois do amor se inclinam para as conversas sobre eles próprios e para as confidências. Sonzogne parecia não fazer excepção à regra.
O tom da sua voz, ao contrário do que lhe era habitual, era leve, calmo e quase afectuoso, fútil, com uma ponta de vaidade. Mas assustava-me outra vez terrivelmente, e o meu coração começou a bater com toda a força como se fosse rebentar.
— Porquê? — perguntei. — Quem és tu?
Olhou-me não porque hesitasse, mas porque queria saborear o efeito das suas palavras sobre mim. Acabou por dizer lentamente.
— Sou o da Rua Palestro; sou esse.
Ele pensava que nem seria preciso explicar o que se passara na Rua Palestro, e desta vez a sua vaidade não se enganou. Alguns dias antes um crime horrível fora cometido numa casa dessa rua; todos os jornais haviam falado nele, e as pessoas apaixonadas por esses assuntos tinham-no comentado muito. Minha mãe, que passava uma grande parte do dia a coleccionar notícias diversas, tinha sido a primeira a falar-me no caso. Um jovem ourives fora assassinado no apartamento onde vivia. Ao que parecia, a arma de que se servira Sonzogne — porque agora já sabia quem era o assassino — tinha sido um pesado pisa-papéis de bronze. A polícia não tinha encontrado qualquer indício que a conduzisse à descoberta do assassino. Havia suspeitas de o ourives ter sido receptador; supunha-se pois — com razão, como se verá — que tinha sido morto no decorrer de uma transacção ilícita.
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