Bruscamente a sua desconfiança pareceu dissipar-se e gritou:
— Compreendo! Não queres o dinheiro porque tens medo… tens medo que descubram o roubo… A esse respeito nada há a recear… Está tudo em ordem!
Não tinha medo, mas não me importei que ele o pensasse, porque a segunda parte da frase pareceu-me obscura.
— Está tudo em ordem? — perguntei-lhe. — Que queres dizer?
— Sim, está tudo em ordem — respondeu-me. — Lembras-te de eu te ter dito que lá em casa desconfiavam de uma criada de quarto?
— Sim.
— Bem! Não gostava dessa criada de quarto porque ela dizia mal de mim nas minhas costas… Alguns dias depois do roubo percebi que as coisas tomavam um mau rumo para mim. O comissário já tinha ido lá a casa duas vezes e eu senti que desconfiavam de mim. Nota bem que ainda não tinham começado as indagações. Então tive uma ideia: desviar as suspeitas para outro roubo e fazer com que as culpas caíssem sobre a criada.
Eu não dizia palavra. Olhou-me um momento com os olhos brilhantes e dilatados para ver se eu admirava a sua astúcia e continuou:
— A minha patroa tinha alguns dólares numa caixinha; tirei os dólares e fui pô-los no quarto da criada, dentro de uma mala velha. Desta vez, como era natural, fizeram pesquisas, descobriram os dólares e prenderam-na. Agora ela jura que está inocente, bem entendido, mas quem a vai acreditar depois de terem encontrado os dólares no seu quarto?
— Onde está essa mulher?
— Está na prisão e não quer confessar! Mas sabes o que disse o comissário à minha patroa? “Esteja sossegada, minha senhora, ela acabará por confessar! A bem ou a mal!” Percebes, hem? A pancada!
Olhei-o gelada de espanto por vê-lo tão orgulhoso e tão excitado.
— Como se chama essa mulher? — perguntei como por acaso.
— Luísa Feligny… É uma mulher que já não é nova. Muito orgulhosa. Não se compreende porque é criada de quarto; não há alguém mais honesta do que ela.
E ria divertido com a coincidência.
Fiz um grande esforço como se me custasse respirar e perguntei-lhe:
— Já reparaste que és um cobarde?
— Como? Porquê? — perguntou-me, surpreendido. Agora, que o tratara por cobarde, sentia-me mais livre e mais desprendida. Sentia as narinas palpitarem de raiva. Continuei logo:
— E querias que ficasse com esse dinheiro? Mas eu sentia que era dinheiro que me queimaria os dedos!
— Qual história! — disse, esforçando-se por não se desconcertar. — Ela não confessa e deixam-na.
— Mas disseste-me que está na prisão e lhe batem.
— Disse isso por dizer.
— Pouco importa… deixaste prender uma inocente e tens ainda o descaramento de mo vir contar. És um vil cobarde!
Bruscamente encolerizou-se, empalideceu e apertou-me a mão:
— Vais deixar de me chamar cobarde!
— Porquê? Penso que és um cobarde e digo-te.
Ele perdeu o sangue-frio e teve um estranho gesto de violência. Torceu-me a mão como se ma quisesse arranjar, depois, de repente, baixou a cabeça e mordeu-ma com força. Com uma sacudidela, tirei a mão e levantei-me:
— Mas tu estás completamente idiota! — disse-lhe. — O que te aconteceu? Agora mordes? É inútil. Cobarde és e cobarde serás sempre!
Não respondeu, mas agarrou a cabeça com as mãos como se quisesse arrancar os cabelos.
Chamei o criado e paguei as contas todas: a minha, a dele e a do Sonzogne. Depois disse a Gino:
— Vou-me embora, mas devo dizer-te que entre nós está tudo acabado… Não me apareças mais, não me procures! Não venhas, eu não te conheço!
Não respondeu nem levantou a cabeça e eu saí. A leitaria era à entrada da rua, a pouca distância da minha casa. Comecei a andar devagar, do lado oposto às fortificações. Era noite, o céu estava nublado, caía uma chuva miudinha como uma poeira de água no ar imóvel e tépido. Como de costume, as fortificações estavam às escuras, à parte alguns candeeiros, muito espaçados. Mas assim que saí da leitaria vi um homem desencostar-se de um desses candeeiros e seguir ao longo das fortificações na mesma direcção que eu, na intenção provável de me tolher o passo. Pelo seu impermeável apertado na cintura e pela sua cabeça loura e quase rapada reconheci Sonzogne. Debaixo das muralhas parecia pequeno: de vez em quando desaparecia na sombra, depois reaparecia à luz de um candeeiro. Pela primeira vez, talvez, todos os homens me repugnaram, todos os homens pendurados às minhas saias como cães correndo atrás de uma cadela. Vibrava ainda de cólera, e, quando pensava naquela mulher que Gino com o seu procedimento metera na cadeia, não podia deixar de sentir remorsos porque, no fim de contas, a caixa fora eu quem a roubara! Mas, mais do que remorso, era um sentimento de irritação e de revolta. Insurgindo-me contra a injustiça, e odiando Gino, detestava repeli-lo e saber que fora cometida uma injustiça. Realmente, não sou feita para estas coisas. Experimentava um mal-estar violento; tinha a impressão de não ser mais eu mesma. Caminhava apressada, desejosa de chegar a casa antes que Sonzogne me abordasse, como parecia ter intenção de fazer. Mas ouvi o meu nome pronunciado por Gino, que me chamava, esbaforido:
— Adriana! Adriana!
Fingi não ouvir e apressei o passo. Ele agarrou-me por um braço:
— Adriana… estivemos sempre de acordo… não nos podemos separar assim!
Com uma sacudidela, libertei o braço e continuei o meu caminho. Do outro lado, sob as muralhas, a pequena silhueta clara de Sonzogne tinha saído da obscuridade para entrar no círculo luminoso do candeeiro.
— Mas eu amo-te, Adriana! — repetia Gino correndo ao meu lado.
Inspirava-me uma mistura de piedade e de ódio, e essa mistura era-me tão desagradável que não a podia traduzir. Esforcei-me por pensar noutra coisa. De repente, não sei como, uma ideia passou pelo meu espírito como um relâmpago. Lembrei-me de Astárito, da maneira como ele sempre me oferecera a sua ajuda, e pensei que talvez ele tivesse um meio de conseguir libertar da prisão aquela pobre mulher. Esta ideia produziu em mim um efeito benfazejo; a minha alma libertou-se do peso que a oprimia e tive mesmo a impressão de já não odiar Gino e de sentir por ele apenas compaixão. Parei e disse-lhe tranquilamente:
— Porque não desapareces, Gino?
— Mas eu amo-te.
— Eu também; já te amei, mas agora acabou; vai, desanda, é melhor para ti e para mim.
Estávamos num sítio escuro da avenida e não havia candeeiros nem lojas. Agarrou-me pela cintura e tentou beijar-me. Teria podido muito bem livrar-me sozinha, porque sou forte e porque ninguém pode beijar uma mulher contra a sua vontade. Em vez disso, não sei porque diabólica inspiração, lembrei-me de chamar Sonzogne, que parara do outro lado da avenida, debaixo das fortificações, e nos olhava, imóvel, com as mãos nos bolsos do impermeável. Penso que se o chamei foi porque julguei ter encontrado o meio de impedir a má acção de Gino, deixando a coquetterie e a curiosidade aflorar de novo ao meu espírito. Gritei duas vezes:
— Sonzogne! Sonzogne!
Imediatamente ele atravessou a avenida e Gino, desconcertado, largou-me.
— Diga-lhe — proferi com calma enquanto Sonzogne se aproximava — que me deixe tranquila, porque já nada quero com ele… Não me quer ouvir, mas talvez a si ouça, visto que são amigos.
— Estás a ouvir o que diz esta menina? — disse Sonzogne.
— Mas eu… — começou Gino.
Pensava que iriam continuar a discutir por uns momentos e que por fim Gino, resignado, acabaria por se retirar. Mas de repente vi Sonzogne fazer-me um gesto que não percebi, Gino olhá-lo por um instante, aparvalhado, depois, sem uma palavra, cair e rolar do passeio para a valeta.
Читать дальше