— Come este, que é leve.
Ela mordicou-o com precaução, olhando para o sítio que tinha mordido.
— É realmente muito bom! — disse por fim.
— Come outro — disse-lhe.
Desta vez não se fez rogada e comeu o segundo bolo. Acabado o vermute, ficámos silenciosas, contentando-nos em olhar o vaivém de clientes na pastelaria. Compreendia que minha mãe se sentia contente por estar sentada neste canto com um vermute e dois bolos no estômago, que as idas e vindas desta gente lhe despertavam a curiosidade e a divertiam e que nada tinha para me dizer. Era provavelmente a primeira vez que ela ia a um lugar destes.
Uma rapariga entrou. Trazia pela mão uma garotinha com uma gola de pele branca, um vestido curto, meias e luvas brancas. A mãe escolheu um bolo e deu-o à garota. Eu disse a minha mãe:
— Quando eu era pequena, nunca me trazias às pastelarias!
— Como podia eu? — respondeu.
— Agora — disse tranquilamente —, quem te leva às pastelarias sou eu.
Calou-se, depois disse-me com ar penalizado:
— Estás a censurar-me por ter vindo… mas eu não queria!
Pousei a minha mão sobre a sua e disse-lhe:
— Não te censuro… Pelo contrário, estou bem contente por te ter trazido… A avó nunca te levava às pastelarias?
Ela abanou a cabeça:
— Até aos dezoito anos nunca saí do meu bairro.
— Então já vês — disse-lhe. — Numa família é preciso que haja alguém que faça certas coisas, um dia ou outro. Tu nunca o fizeste, tua mãe também não, nem provavelmente a mãe da tua mãe… então faço-as eu… Não pode continuar tudo eternamente da mesma maneira.
Nada disse e passamos ainda um quarto de hora a observar as pessoas. Depois abri a mala, tirei a cigarreira e acendi um cigarro. É frequente as mulheres como eu fumarem nos lugares públicos para chamarem a atenção dos homens. Mas eu naquela altura não pensava em procurar amantes; tinha até decidido deixar de o fazer. Apetecia-me fumar, mais nada. Introduzi o cigarro nos lábios e deitei uma baforada pelo nariz, conservando o cigarro entre os dedos e olhando em volta. Mas devia haver nos meus gestos, sem que eu desse por isso, qualquer coisa de provocante, porque vi logo alguém que se encontrava junto do balcão e segurava uma chávena de café que se preparava para beber suspender o movimento e olhar-me fixamente. Era um homem de quarenta anos, baixo, de cabelo encaracolado, olhos salientes e maxilares duros. Tinha o pescoço tão curto que quase não existia. Como um touro que vê o vermelho e pára a olhar de cabeça baixa, assim ele me olhava com a chávena na mão. Estava vestido elegantemente, com um sobretudo que valorizava os seus largos ombros. Sabia que com aquele aspecto bastava que eu o olhasse para que as veias do pescoço lhe inchassem e a cara ficasse vermelha. Mas não tinha a certeza de que ele me agradasse. Depois senti como que uma seiva secreta saindo de uma casca rugosa, sob a forma de mil germezinhos ternos; o desejo de o excitar espicaçava-me o corpo todo e obrigava-me a deixar a minha atitude reservada. Justamente uma hora antes eu tinha decidido deixar esta vida. Pensava que realmente nada havia a fazer… era mais forte do que eu! Mas pensava-o alegremente. Depois de sair da igreja, tinha-me reconciliado com a minha sorte, fosse ela qual fosse, e sentia que esta aceitação valia mais para mim que qualquer nobre recusa. E assim, passados uns momentos de reflexão, levantei os olhos para o homem. Ainda me olhava, apalermado, com a chávena na sua mão peluda e os olhos bovinos fixos em mim. Então, tomei, por assim dizer, o meu impulso, e com toda a malícia de que era capaz disparei-lhe um longo olhar cálido e sorridente. Recebeu-o em cheio e, como já tinha previsto, congestionou-se. Bebeu o café, pôs a chávena no balcão e, muito direito no seu sobretudo apertado, foi-se embora, para pagar na caixa. A porta olhou para trás e fez-me claramente e com ar imperioso um sinal de inteligência. Saiu e eu disse a minha mãe :
— Deixo-te… fica tu! De qualquer maneira não te poderia acompanhar.
Ela estremeceu:
— Porquê? Aonde vais?
— Esperam-me lá fora — disse-lhe, levantando-me. Toma o dinheiro: paga e volta para casa… Aliás chegarei primeiro… mas não vou só.
Olhou-me com ar assustado e julguei ver uma sombra de remorso no seu olhar. Mas ficou calada. Disse-lhe adeus e saí. O homem esperava-me na rua. Apenas saíra já ele se inclinava para mim e me agarrava violentamente o braço dizendo:
— Para onde vamos?
— Para minha casa.
Foi assim que depois de algumas horas de angústia renunciei à luta contra o que parecia ser o meu destino, e o abracei até com mais amor, como se estreita um inimigo que não se pode vencer. E senti-me liberta. Alguns vão pensar que é fácil aceitar uma sorte ignóbil mas rendosa em vez de a recusar. Eu tenho perguntado muita vez a mim própria porque a tristeza e a raiva enchem as almas daqueles que vivem segundo certos preceitos e certos ideais, enquanto que aqueles que aceitam a sua vida, que é acima de tudo nulidade, obscuridade e fraqueza, são tão freqüente mente despreocupados e alegres. Neste caso, de resto, cada qual obedece não a preceitos, mas ao seu temperamento, que toma o aspecto de destino. O meu, como já o disse, era ser a todo o custo alegre, doce e tranquila e eu aceitei-o.
Renunciei completamente a Jaime e não pensei mais nele. Sentia que o amava, que se ele tivesse voltado eu teria ficado feliz e amá-lo-ia mais do que nunca, mas sentia também que não me deixaria mais humilhar por ele. Se ele tivesse voltado, teria ficado na sua frente, fechada na minha vida como numa fortaleza que seria verdadeiramente inexpugnável enquanto a não abandonasse. Dir-lhe-ia: “Sou uma rapariga da rua e nada mais. Se me queres, é preciso que me aceites tal como sou.” Tinha compreendido que a minha força não era desejar ser aquilo que não sou, mas aceitar aquilo que era. A minha força era a minha fortaleza, o meu trabalho, a minha mãe, a minha casa, as minhas roupas modestas, a minha origem humilde, as minhas infelicidades e, mais intimamente, o sentimento que me fazia aceitar todas estas coisas profundamente enterradas na minha alma como uma pedra preciosa na terra. Contudo, estava certa de que não o tornaria a ver; e esta certeza fazia com que o amasse de uma maneira nova para mim, impotente e melancólica, mas não privada de doçura, como se amam os que morreram e nunca mais voltarão. No decurso desses dias rompi com Gino. Como já o disse, não gosto dos rompimentos bruscos; quero que as coisas vivam e morram naturalmente. As minhas relações com Gino são um bom exemplo desta vontade. Elas acabaram porque a vida que as animava se apagou e não por qualquer falta da minha parte e nem sequer, num certo sentido, por culpa de Gino. Acabaram de maneira a não me deixarem nem desgosto nem remorso.
Continuara a vê-lo de tempos a tempos, duas ou três vezes por mês. Agradava-me, como já disse, se bem que já tivesse perdido toda a estima que tivera por ele. Num desses dias marcou-me, pelo telefone, encontro numa pastelaria onde eu lhe disse que iria.
Era uma pastelaria do meu bairro. Gino esperava-me na salinha do fundo, numa espécie de gabinete sem janelas, com as paredes completamente revestidas de azulejos. Quando entrei, reparei que não estava só. Alguém estava sentado com ele, de costas viradas para mim. Só via que trazia um impermeável verde e que tinha cabelos louros, cortados muito curtos. Aproximei-me e Gino disse:
— Deixa-me apresentar-te o meu amigo Sonzogne.
Então ele levantou-se; olhei-o e estendi-lhe a mão. Mas quando ele ma apertou, tive a impressão de ter sido agarrada por tenazes e dei um pequeno grito de dor. Ele largou-me logo a mão; sentei-me sorrindo e disse-lhe:
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