Estávamos em frente de uma loja de novidades para senhora. Minha mãe disse-me:
— Olha que lindo lenço. De um lenço assim é que eu precisava.
Tranquila e serena, levantei os olhos para ver o lenço que minha mãe indicava. Era realmente bonito, preto e branco, com ramos e pássaros. Da porta da loja podia ver-se sobre o balcão uma caixa com divisões cheia de lenços iguais e desdobrados. Perguntei-lhe:
— Gostas do lenço?
— Sim. Porquê?
— Vais tê-lo, mas, para começar, dá-me a tua mala e toma lá a minha.
Ela nada percebia e olhava-me de boca aberta. Sem falar trocamos as malas, abri o fecho, segurando-o com dois dedos, e, devagar, com o passo de quem quer comprar, entrei na loja. Minha mãe seguiu-me. Continuava a não compreender, mas não ousava perguntar.
— Queríamos ver lenços — disse eu à empregada aproximando-me da caixa das divisões.
— Estes são de seda, estes de caxemira, estes de lã… estes são de algodão… — dizia a empregada estendendo-os à minha frente.
Aproximei-me o mais possível do balcão, com a mala ao nível da barriga, e comecei a examinar, só com uma das mãos, os lenços, abrindo-os e voltando-os para a luz para ver melhor o desenho. Havia pelo menos uma dúzia deles, todos parecidos. Consegui que um ficasse caído de maneira que uma grande ponta pendesse para o lado de fora do balcão. Depois disse à empregada:
— Gostaria de ver alguns de tons mais vivos.
— Temos um artigo melhor, mas mais caro! — disse ela.
— Mostre-me.
A empregada voltou-se para puxar uma caixa de riscas. Era tempo; afastei-me um pouco do balcão e abri a mala; puxar a ponta do lenço e tornar a encostar-me ao balcão foi obra de um instante.
Entretanto, a empregada trouxera a caixa. Pousou-a sobre o balcão e mostrou-me outros lenços maiores e mais bonitos. Eu examinava-os fazendo observações sobre as cores e os desenhos e mostrando-os a minha mãe, que tinha visto tudo e me respondia com acenos de cabeça, mais morta do que viva.
— Quanto custam? — perguntei.
A empregada disse o preço e eu respondi num tom desgostoso:
— Tinha razão; são muito caros… pelo menos para mim. Obrigada.
Saímos da loja e dirigimo-nos rapidamente para uma igreja próxima, porque eu receava que a empregada desse pelo roubo e nos perseguisse por entre a multidão. Minha mãe, que me dava o braço, olhava em volta com ar assustado, como um bêbado que pergunta a si mesmo se não serão os objectos que estão bêbados porque os vê vacilar e baralharem-se. Não pude deixar de sorrir da sua atrapalhação. Não sabia porque tinha roubado o lenço: a coisa, de resto, não tinha importância, porque eu já tinha roubado a caixa de pó de arroz de Gino e porque nas coisas deste gênero o primeiro passo é que custa. Mas experimentava o mesmo prazer sensual e começava a compreender porque havia tanta gente que roubava. Perto da igreja disse a minha mãe:
— Queres entrar por um instante?
— Como quiseres! — respondeu-me em voz baixa.
Entrámos: era uma igrejinha branca, redonda, à qual uma colunata disposta em volta do pavimento dava a impressão de uma sala de baile. Levantei os olhos e vi que a cúpula estava cheia de frescos representando anjos de asas abertas. Tive a convicção de que estes belos anjos me protegeriam e que a empregada só se aperceberia do roubo à noite. O silêncio, o cheiro do incenso, a sombra, o recolhimento da igreja, davam-me segurança, depois do tumulto e da luz violenta da rua. Entrara depressa, arrastando um pouco minha mãe, mas acalmei-me logo e o medo desapareceu. Minha mãe fez menção de abrir a minha mala que ainda conservava e eu troquei-a pela sua, dizendo-lhe:
— Põe o lenço!
Ela abriu a mala e pôs na cabeça o lenço roubado. Molhamos os dedos em água benta e fomo-nos sentar na primeira fila de bancos em frente do altar-mor. Ajoelhei-me, enquanto minha mãe ficava sentada com as mãos sobre os joelhos, a cara escondida pelo lenço demasiadamente grande. Percebi que ela estava perturbada e não pude deixar de comparar a sua perturbação com a minha calma. Estava com uma disposição de espírito doce e conciliadora; não sentia remorsos e estava muito mais próxima da religião do que quando não praticava acções condenáveis e trabalhava cerrando os dentes para ganhar a vida. Lembrei-me do frêmito de desalento que momentos antes sentira ao olhar as ruas cheias de gente e senti-me reconfortada à ideia de que havia um Deus que via claro no meu íntimo: verificava que em mim nenhum mal havia, que pelo único facto de viver estava inocente, como todos os homens de resto. Sabia que este Deus não estava lá para me condenar ou julgar, mas para justificar a minha existência, que só podia ser boa, visto que só dependia dele. Rezando maquinalmente e pronunciando as palavras da oração, olhava o altar sobre o qual, atrás da chamazinha trêmula dos círios, entrevia um quarto com uma imagem que me parecia ser a da Virgem e sentia que entre mim e a Virgem a questão não era saber se eu devia viver desta ou daquela maneira, mas, mais radicalmente, se me devia considerar encorajada a viver ou não. E bruscamente tive a impressão de que este encorajamento partia da silhueta escura que estava atrás dos círios do altar sob a forma de um brusco calor que me envolveu o corpo todo.
Minha mãe ficara toda trêmula e assustada, com o seu lenço novo que lhe fazia um bico por cima do nariz. Quando a olhei, não pude deixar de sorrir com amizade.
— Reza um bocadinho — murmurei-lhe. — Verás que te faz bem.
Ela estremeceu, hesitou, depois ajoelhou-se e pôs as mãos como que de má vontade. Sabia que ela não queria acreditar na religião, que lhe parecia um falsa consolação destinada a acalmá-la e a fazer-lhe esquecer as durezas da vida. Nem ao menos a vi mover maquinalmente os lábios, e a sua cara cheia de desconfiança e de mau humor fez-me sorrir de novo. Teria desejado sossegá-la, dizer-lhe que mudara de ideias, que não devia ter receio, que não seria obrigada a coser à máquina outra vez. Havia qualquer coisa de infantil na sua má disposição: era como uma criança a quem se recusa um bolo que se tinha prometido, e esta aparência parecia-me o aspecto fundamental da sua conduta para comigo. Se assim não fosse, eu teria de pensar que ela desejaria que eu continuasse com o meu ofício para usufruir daí o seu conforto; e eu sabia, no fundo, que não era verdade.
Quando acabou de rezar, persignou-se com ar seco e despeitado para marcar bem que o fazia só para me ser agradável. Saímos. À porta tirou o lenço, dobrou-o cuidadosamente e meteu-o na mala. Voltamos à Rua Nacional e encaminhei-me para uma pastelaria.
— Vamos tomar um vermute! — disse-lhe.
— Não, não, não vale a pena! — respondeu com uma voz em que a apreensão e o prazer se misturavam.
Fazia sempre a mesma coisa; por um velho hábito, receava sempre que eu fizesse gastos excessivos.
— Ora! — disse-lhe. — Por um vermute!
Calou-se e seguiu-me.
Era uma velha pastelaria com um balcão com embutidos de caju luzidio e muitas vitrinas cheias de lindas caixas com bombons. Sentámo-nos num canto e pedi dois vermutes. O criado intimidou minha mãe, que baixou os olhos, imóvel e envergonhada, enquanto eu dava as competentes ordens. Quando trouxeram os vermutes, ela bebeu um pequeno gole, tornou a pôr o copinho em cima da mesa, olhou-me e pronunciou com gravidade:
— É bom.
— É vermute — disse eu.
O criado trouxe uma grande caixa de vidro e metal com bolos. Abri-a e disse-lhe:
— Come um bolinho!
— Não, não, por favor…
— Pelo menos um…
— Tirava-me o apetite.
— Um bolo só!…
Escolhi um folhado com creme e ofereci-lho dizendo:
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