Fiquei como estava, estendida, imóvel. Creio que passei, sem dar por isso, da dor para uma espécie de semi-sonolência, depois ao sono. Acordei ainda de noite e reparei que estava só. Durante este primeiro sono, apesar da amargura da separação, o sentido da sua presença ficara-me. Não sei como, voltei a adormecer.
No dia seguinte surpreendi-me por me sentir lânguida, melancólica, como se tivesse saído de uma longa doença. Sou de carácter alegre, e como em mim a alegria vem da saúde e da robustez do corpo, ela foi sempre mais forte do que todas as adversidades, se bem que me tenha acontecido por vezes sentir-me alegre sem que o queira em circunstâncias em que me deveria sentir bem triste. Assim raro era o dia em que logo que me levantava não sentia desejo de cantar ou de contar alguma graça à minha mãe. Mas, nessa manhã, mesmo esta involuntária alegria me faltava; sentia-me apagada e dolente, sem desejo de viver as doze horas de vida que o dia me oferecia. Como minha mãe reparasse logo nesta mudança de humor, disse-lhe que tinha dormido mal.
Era verdade, e esse fora um dos numerosos efeitos da profunda mortificação que me trouxera a recusa de Jaime. Já o disse; há muito tempo que não me importava de ser o que era: não achava em mim própria qualquer razão para não o ser. Mas esperava amar e ser amada; ora, a recusa de Jaime, apesar das razões complicadas que ele me dera, parecia não poder ser atribuída senão ao meu ofício, o qual por este motivo se me tornara bruscamente odioso, intolerável.
O amor-próprio é um curioso animal que pode não acordar aos mais cruéis golpes e despertar ferido de morte por uma simples arranhadura. Havia uma recordação entre todas que me afligia e me enchia de amargura e de vergonha: — Que tal achas este quarto? — perguntara-lhe. — Não é confortável?
Lembrara-me de que não respondera, mas olhara tudo à sua volta com uma careta que eu de momento não compreendi. Agora sabia que tinha sido uma careta de desagrado. Tinha com certeza pensado: “O quarto de uma prostituta!” Quando recordava isto, o que mais me afligia era o ter pronunciado esta frase com uma ingênua satisfação. Deveria ter pensado que a uma pessoa como ele, tão fina, tão sensível, o meu quarto devia parecer-lhe um antro sórdido, duplamente feio, pelos seus móveis tão modestos e pelo uso que eu lhe dava. Bem desejei nunca ter pronunciado esta frase infeliz, mas agora era tarde. Nada havia a fazer! Dava-me a sensação de uma prisão da qual eu não podia fugir de maneira alguma. Esta frase era eu própria, inalterável, de futuro, como no que eu me tornara por vontade. Esquecê-la ou ter a ilusão de não a ter dito era o mesmo que esquecer-me de mim própria ou querer ter a ilusão de que não existia.
Estas reflexões intoxicavam-me como um veneno lento que lentamente seguira o seu caminho nefasto por entre o sangue das minhas veias. Habitualmente, de manhã, costumava saltar da cama, obedecendo a uma espécie de vontade independente. Mas nesse dia foi exactamente o contrário que aconteceu: a manhã passou, chegou a hora do almoço e eu nem sequer ainda me tinha mexido. Sentia-me inerte, impotente, entorpecida e ao mesmo tempo dorida como se esta imobilidade me causasse uma fadiga desesperada. Tinha a impressão de ser um desses barcos apodrecidos que ficam amarrados em qualquer baía pantanosa, com o ventre cheio de água fétida e negra: se alguém sobe para eles, as pranchas apodrecidas cedem logo e a barca, que talvez ali estivesse há anos, afunda-se num instante. Não sei quanto tempo fiquei neste estado enrolada na roupa da cama, os olhos dilatados, o lençol puxado até ao nariz. Ouvi tocar o meio-dia nos sinos, depois a uma, as duas, as três, as quatro horas. Tinha fechado a porta à chave e de vez em quando minha mãe, inquieta, vinha bater-me à porta. Respondia-lhe que já me levantava e que me deixasse em paz. Quando começou a anoitecer, procurei ser corajosa, fiz um esforço, que me pareceu sobre-humano, atirei com a roupa e levantei-me da cama. Sentia os membros inchados de inércia. Lavei-me, vesti-me, arrastando-me de um lado para o outro no quarto. Em nada pensava; sabia somente, não no meu espírito, mas em todo o meu corpo, que pelo menos nesse dia não desejava ir à caça dos meus amantes costumados. Depois de vestida, fui ter com minha mãe e disse-lhe que passaríamos a noite juntas. Passearíamos pelo centro da cidade e à noite iríamos tomar um aperitivo a um café.
A alegria de minha mãe, que não estava habituada a este género de convites, irritou-me não sei porquê: mais uma vez tive ocasião de observar como as suas faces estavam flácidas e gordas e como os olhos empapuçados tinham um luzir equívoco e falso. Mas refreei a tentação de lhe dizer alguma indelicadeza que teria destruído a sua alegria e fui sentar-me à mesa da sala grande, à espera que ela se vestisse. A luz branca dos anúncios entrava pela janela sem cortinas, iluminava a máquina de costura e estendia-se pela parede. Baixei os olhos sobre a mesa e vi as figuras coloridas do jogo de paciência com que minha mãe enganava o aborrecimento das suas longas noites. Então, bruscamente, tive uma sensação extraordinária: parecia-me que era eu minha mãe em carne e osso, esperando que sua filha Adriana, no quarto ao lado, acabasse o encontro com o seu amante de passagem. Esta impressão provinha sem dúvida de eu me ter sentado no seu lugar à mesa, em frente das suas cartas. Os lugares às vezes dão-nos destas sugestões: mais de uma pessoa, ao visitar uma prisão, experimenta o frio, o desespero, o sentimento de isolamento do prisioneiro que há muito tempo ali definha. Mas a sala não era uma prisão e minha mãe não sofria de dores tão concretas e fáceis de imaginar. Ela limitava-se a viver como sempre vivera. Todavia, talvez por há pouco ter sentido contra a sua pessoa um movimento de hostilidade, esta percepção da sua vida operara em mim uma espécie de reencarnação. As pessoas boas, para desculparem alguma má acção, dizem por vezes: “Põe-te no seu lugar”. Pois bem! Acabava de me pôr no lugar de minha mãe a ponto de ter a sensação de ser ela própria.
Era-o… mas com a consciência de o ser, coisa que não lhe acontecia, de contrário já se teria revoltado de uma maneira ou de outra. Sentia-se flácida, envelhecida, enrugada; compreendi o que é a velhice, que não só muda o aspecto do corpo, mas torna-o inepto e inerte. Como era minha mãe? Por vezes tinha-a visto quando se despia, e reparava, sem pensar, nos seus seios negros e murchos, no ventre amarelo e encolhido. Agora esses seios, que me tinham amamentado, esse ventre, de onde eu saíra, sentia-os tanto em mim que quase julgava poder tocar-lhes, causavam-me o desgosto, a pena impotente que ela devia ter sentido ao ver a mudança do seu corpo. A juventude e a beleza tornam a vida suportável e por vezes alegre. Mas quando já não existem? Senti um calafrio acordar-me deste pesadelo e felicitei-me por ser na realidade a bela e jovem Adriana e não a sua mãe, que não era nova nem bela, nem nunca mais o seria.
Mas ao mesmo tempo, como um mecanismo parado que começa lentamente a mover-se, começaram a formigar no meu espírito todas as ideias que lhe deviam passar pela cabeça enquanto esperava que eu aparecesse na sala. Não é difícil imaginar o que pode pensar uma pessoa como minha mãe em semelhantes circunstâncias; somente, na maior parte das pessoas, o facto de imaginar nasce da reprovação e do desprezo e em vez de imaginar elas constroem um fantoche sobre o qual vertem a sua hostilidade. Mas eu, que gostava de minha mãe e que só me punha no seu lugar por amor, sabia que naqueles momentos os seus pensamentos não eram nem interessantes, nem assustadores, nem vergonhosos, nem sequer relacionados de qualquer maneira com o que eu fazia e com quem o fazia. Sabia, pelo contrário, que as suas ideias eram insignificantes e ocasionais como era natural de uma pessoa como ela, pobre, velha, ignorante, e que durante toda a vida não tinha pensado dois dias a seguir da mesma maneira sem receber da necessidade o mais peremptório desmentido. As grandes ideias e os grandes sentimentos — sejam tristes e negativos — precisam de protecção; são plantas delicadas que levam tempo a criar raízes e a fortificar. Minha mãe nunca tinha podido cultivar nem no seu espírito, nem no seu coração, outra coisa que as maldosas e efêmeras ervas das reflexões e das preocupações e dos ressentimentos quotidianos, enquanto eu, no quarto ao lado, me dava aos homens por dinheiro. Assim, diante da sua “paciência”, podiam continuar a rolar na sua cabeça sempre as mesmas imbecilidades (se é justo chamar assim às coisas que nela tinham vivido durante tantos anos): o preço dos alimentos, a costura que havia para fazer e outras coisas parecidas. Talvez agora, ao ouvir o som dos sinos da igreja vizinha, ela por vezes pensasse sem ligar grande importância ao facto: “Desta vez a Adriana leva mais tempo que de costume.” Ou quando ouvia abrir a porta e falar no vestíbulo: “A Adriana acabou.” Que mais? Com estas ideias na cabeça eu era a minha mãe completa: corpo e alma. E justamente porque conseguira ser como ela de uma maneira tão completa tinha a impressão de a amar outra vez, e mais do que dantes.
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