— Sabe que me magoou? Você aperta sempre assim a mão?
Não me respondeu nem sequer sorriu. Tinha a cara branca como o papel, a testa saliente, olhos pequeninos azuis-claros, o nariz adunco e a boca cerrada como um corte. Os seus cabelos louros, lisos e deslavados, estavam cortados curtos sobre as têmporas achatadas, mas a base da cara era larga, com maxilares largos e desgraciosos. Parecia estar sempre a cerrar os dentes, como se triturasse qualquer coisa, e constantemente, debaixo da pele das faces, via-se fremir e deslizar uma espécie de nervo. Gino, que parecia ter por ele uma amizade afectuosa e admirativa, disse-me rindo:
— Mas isto nada é… Se tu soubesses como é forte! Tem o soco proibido!
Tive a impressão de que Sonzogne o olhava com hostilidade. Acabou por dizer com voz surda:
— Não é verdade que tenha o soco proibido… Mas podia ter!
Perguntei:
— Que é isso do soco proibido?
Sonzogne respondeu-me secamente:
— Quando se pode matar um homem com um soco, não se tem o direito de empregar o punho. É como fazer uso do revólver.
— Mas sente como ele é forte! — insistiu Gino, excitado e desejoso, parecia, de se reconciliar com Sonzogne. — Vamos — pedia-lhe —, deixa-a apalpar os teus braços!
Hesitei, mas dir-se-ia que Gino o desejava e que o seu amigo também esperava esse gesto. Estendi a mão molemente para lhe apalpar o braço. Ele dobrou o antebraço para retesar os músculos, mas seriamente, quase que com um ar sombrio. Então, com grande surpresa minha, porque ao vê-lo dava o aspecto de um homem franzino, os meus dedos sentiram, através das mangas, como um rolo de cabo de aço. Retirei a mão com uma exclamação, não sei se de admiração, se de repugnância. Sonzogne olhou-me com ar satisfeito, um leve sorriso nos lábios. Gino declarou:
— É um velho amigo… Não é verdade, primo, que nos conhecemos há muito tempo? Somos como dois irmãos!
E deu uma palmada nas costas de Sonzogne, acrescentando:
— O meu velho primo!
Mas o outro levantou os ombros para afastar a mão de Gino e respondeu:
— Nem amigos, nem irmãos… Trabalhamos na mesma garagem, é o que é!
Gino não se desconcertou:
— Eh! Sei que de ninguém queres ser amigo! Sempre só… sempre por tua conta… nem homens nem mulheres!
Sonzogne olhou-o. Tinha um olhar frio, de uma imobilidade e de uma insistência incríveis, e Gino desviou dele os seus olhos.
— Quem te contou essas histórias? — disse-lhe Sonzogne. — Ando com quem me agrada, homens e mulheres!
— Falei por falar — desculpou-se Gino, que parecia perder toda a segurança. — Pelo que me diz respeito, é certo que nunca te vi com ninguém.
— Tu nada sabes da minha vida.
— Ora! Eu que te via todos os dias de manhã à noite!
— Vias-me todos os dias, e então?
— Bem! — insistiu Gino desconcertado. — Como te via sempre sozinho, pensei que não te desses com ninguém. Quando um homem tem uma mulher ou um amigo, acaba sempre por se saber!
O outro disse-lhe brutalmente:
— Não te faças cretino!
— Agora chamas-me cretino! — disse Gino corado, afectando julgar a frase de humor inofensivo.
Mas sentia-se que tinha medo. Sonzogne repetiu:
— Não te faças cretino, senão parto-te a cara!
Bruscamente, compreendi que não só ele era capaz de o fazer, mas que era mesmo essa a sua intenção. Pousei-lhe a mão no braço e disse-lhe:
— Se vocês se querem bater, façam-no quando eu não estiver presente… detesto violências.
— Apresento-te uma rapariga minha amiga — disse Gino, penalizado — e tu assusta-la desta maneira… Ela vai pensar que somos dois inimigos.
Sonzogne voltou-se para mim e pela primeira vez sorriu. Quando sorria, piscava os olhos, franzia a testa de uma maneira irregular e mostrava não só os dentes, que eram pequenos e frios, mas também as gengivas.
— A menina não está assustada, pois não?
Respondi-lhe secamente :
— Não estou nada assustada, mas, como acabei de dizer, não gosto de violências.
Houve um longo silêncio. Sonzogne ficou imóvel com as mãos nos bolsos do impermeável; fazia tremer os nervos dos maxilares e olhava para o vago. Gino fumava, com a cabeça baixa, e o fumo que saía da sua boca subia-lhe ao longo da cara e das orelhas, ainda escarlates. Por fim, Sonzogne disse:
— Vou-me embora.
Gino quase deu um pulo e estendeu-lhe a mão com ar atencioso, dizendo :
— Então, amigos como dantes, hem, primo?
— Amigos como dantes! — respondeu o outro com os dentes cerrados.
Apertou-me a mão, desta vez sem me magoar, e foi-se embora. Era magro e baixo: não se compreendia donde vinha a sua força.
Logo que saiu, disse, divertida, a Gino:
— Vocês podem ser amigos e até mesmo irmãos… mas ele disse-te cada coisa!
Gino retomara a sua segurança. Abanou a cabeça e explicou-me:
— É feito assim… mas não é mau… E depois, a mim interessa-me estar de boas relações com ele… já me foi útil.
— De que maneira?
Apercebi-me de que Gino estava excitado e ardia de desejo por me revelar não sei o quê. Assumiu de repente um aspecto risonho, a cara como que inchada de impaciência :
— Lembras-te — perguntou-me — da caixa da minha patroa?
— Lembro… e então?
Os olhos de Gino brilhavam de alegria. Baixou a voz e disse-me:
— Pois bem! Depois pensei melhor e não a devolvi.
— Não a devolveste?
— Não. Reflecti que para a minha patroa, que era rica, uma caixa a mais ou a menos não tinha importância. Já agora o golpe estava dado — acrescentou com uma reserva característica — e no fundo não tinha sido eu o gatuno.
— Era eu a ladra — disse-lhe tranquilamente.
Fingiu não ouvir e continuou:
— Mas para a vender, era um problema… Era um objecto de fácil reconhecimento… Não tinha confiança… Guardei-a, pois, durante muito tempo no bolso… depois encontrei Sonzogne e contei-lhe a história.
— Falaste-lhe de mim? — perguntei.
— Não… de ti não… disse que tinha sido uma amiga que ma tinha dado, sem citar ninguém. E ele… imagina que em três dias, não sei como, vendeu-a e trouxe-me o dinheiro, ficando com a parte dele, como se tinha combinado, bem entendido.
Tremia de alegria. Olhou um momento à sua volta, depois tirou do bolso um rolo de notas.
Não sei porquê, naquele momento senti por ele uma violenta antipatia. Não julgo que o desaprovasse; não tinha sequer esse direito. Mas o seu tom exultante aborrecia-me. Além disso tinha a impressão de que ele não me tinha dito tudo; e o que escondera era decerto o pior. Disse-lhe secamente :
— Fizeste bem!
— Toma! — continuou desenrolando as notas. — Isto é para ti. Contei contigo.
— Não, não! — disse-lhe. — Nada quero, absolutamente nada.
— Mas porquê?
— Nada quero.
— Queres por força vexar-me! — disse-me.
Uma sombra de tristeza e de desconfiança passou na sua cara e julguei tê-lo verdadeiramente magoado. Fiz um esforço e disse pousando-lhe a mão sobre a sua:
— Se não mo tivesses oferecido, eu teria ficado, não digo ofendida, mas admirada. Agora assim está bem. Não quero esse dinheiro, porque para mim é um caso arrumado. É só isso… mas estou contente porque tu o tenhas.
Olhava-me sem compreender, com uma expressão desconfiada, como se quisesse descobrir o motivo secreto que se escondia nas minhas palavras. Frequentemente, depois, pensando no caso, percebi que ele não me podia ter compreendido, porque vivia num mundo diferente formado por ideias e por sentimentos diferentes dos meus.
Não sei se este mundo era pior ou melhor do que o meu; só sei que certas palavras não tinham para ele o sentido que eu lhes ligava e que uma grande parte das suas acções, que me pareciam repreensíveis, ele as considerava como lícitas e mesmo legais. Parecia, em particular, ligar a maior importância à inteligência, que para ele se reduzia à astúcia. Dividia os homens em astuciosos e parvos, esforçando-se sempre, e a todo o preço, por pertencer à primeira categoria. Ora, eu não sou astuciosa, talvez mesmo não seja inteligente, e nunca compreendi como um acto indigno, só pelo facto de ser praticado com esperteza, pode chegar a ser, já não digo admissível, mas simplesmente desculpável.
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