Alberto Moravia - A Romana

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Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.

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Levantei a cabeça e olhei melhor: Sonzogne estava na minha frente, as pernas afastadas, olhando o punho ainda fechado. Gino, no chão, as costas viradas para nós, voltava a si e com o cotovelo na valeta levantava lentamente a cabeça. Mas não parecia querer pôr-se de pé; dava a impressão de olhar fixamente um papel velho cuja brancura se distinguia na lama da valeta. Depois Sonzogne disse:

— Vamos.

Com a cabeça um pouco atordoada encaminhei-me com ele para a minha casa.

Andava sem dizer palavra e apertando-me o braço. Era mais baixo do que eu, e a sua mão rodeava-me o braço como uma prisão metálica. Passado um momento, disse-lhe:

— Não devia ter dado o soco a Gino… ele ia-se embora na mesma sem violência.

— Assim já não a aborrecerá mais — respondeu-me.

— Mas como foi? — perguntei. — Eu nada vi… só dei por Gino cair no chão.

— É uma questão de hábito — respondeu.

Falava como se mastigasse as palavras antes de as pronunciar, ou, melhor, como se experimentasse a sua consistência por entre os dentes, que conservava cerrados e que eu imaginava encaixados uns nos outros como os das feras. Agora experimentava um grande desejo de lhe apalpar os braços e de sentir de novo sob a minha mão os seus músculos duros e fortes. Inspirava-me mais curiosidade do que atracção. E, sobretudo, fazia-me medo. Mas o medo, tanto quanto eu o posso designar com clareza, pode ser um sentimento agradável e por vezes excitante.

— Que tem nos braços? — perguntei. — Ainda não posso acreditar no que vi.

— Mas já lhe disse para apalpar — disse-me com uma entoação tão vaidosa que parecia sinistra.

— Não muito bem… estava o Gino presente… Deixe-me apalpar agora.

Parou e dobrou o braço, olhando-me de lado, grave e ingenuamente ao mesmo tempo, mas de uma ingenuidade que nada tinha de infantil. Estendi a mão e desci do seu ombro ao longo dos braços para apalpar os músculos. Era para mim uma estranha sensação senti-los tão vivos e duros. Articulei com voz apagada:

— És realmente forte.

— Sou forte, sim — confirmou com uma sombria convicção.

E recomeçamos a andar.

Agora estava arrependida de o ter chamado. Não me agradava; para mais, esta gravidade, esta maneira de falar, faziam-me medo. Foi assim que, em silêncio, chegamos em frente da minha porta. Tirei as chaves da mala.

Aproximou-se de mim e disse-me:

— Eu subo.

Desejei dizer-lhe que não. Mas a maneira como ele me olhava, com fixidez e insistência incríveis, subjugou-me e fez-me perder a coragem.

— Se quiseres — disse-lhe.

Só depois de ter dito isto reparei que o tratara por tu.

— Não tenhas medo — disse-me interpretando erradamente o meu ar assustado. — Tenho dinheiro… Dar-te-ei o dobro do que te costumam dar os outros.

— Isso nada tem que ver… Não é pelo dinheiro. — Mas ele fez uma cara cômica como se qualquer assustadora suposição lhe atravessasse o espírito… — É só porque me sinto um pouco cansada — acrescentei.

Seguiu-me até ao vestíbulo. Quando chegámos ao quarto, despiu-se com gestos metódicos de homem ordenado. Tinha um lenço em volta do pescoço; dobrou-o com cuidado e meteu-o no bolso do impermeável. Colocou o fato nas costas da cadeira e pendurou as calças de maneira a não desmanchar os vincos. Juntou os sapatos um ao lado do outro debaixo da cadeira e as meias dentro dos sapatos. Reparei que estava vestido de novo da cabeça aos pés; os tecidos que usava não eram finos, mas resistentes e de boa qualidade. Fazia estas coisas em silêncio, nem depressa nem devagar, com uma regularidade sistemática e ponderada, sem se ocupar de mim, que, entretanto, me tinha despido e deitado nua sobre a cama. Se ele me desejava, não o mostrava, a menos que aquele constante agitar dos músculos do maxilar denotasse perturbação; mas isso não devia ser, porque já o tinha antes, quando nem sequer parecia pensar em mim. Já disse que a ordem e o asseio me agradavam e me pareciam denotar qualidades de alma correspondentes. Mas nessa noite a ordem e o asseio de Sonzogne suscitavam em mim sentimentos bem diferentes, misturados de medo e de horror. “Desta maneira — pensava eu — é que os cirurgiões se preparam nos hospitais quando se dispõem a fazer qualquer operação sangrenta. Ou, pior ainda, os magarefes, mesmo sob os olhos dos carneiros que vão esfolar.” Estendida sobre a cama, sentia-me sem defesa, impotente, como um corpo inanimado que vai ser submetido a qualquer experiência. E o seu silêncio e a sua indiferença deixavam-me na dúvida sobre o que ele iria fazer quando tivesse acabado de se despir. Quando ficou nu e se aproximou da cabeceira da cama e estranhamente me prendeu os ombros com as duas mãos, como se me quisesse conservar imóvel, não pude evitar um frêmito de medo. Ele reparou e perguntou-me por entre dentes:

— Que tens?

— Nada — respondi. — Tens as mãos geladas.

— Não te agrado, hem? — disse-me segurando-me sempre os ombros, de pé, junto do travesseiro. — Preferes os que são iguais a ti, hem?

Enquanto falava, olhava-me de uma maneira intolerável.

— Porquê? — disse-lhe. — Tu és um homem como os outros. E tu próprio me disseste já que me queres pagar o dobro.

— Sei muito bem o que quero dizer — respondeu. — Tu e as outras como tu gostam dos ricos, das pessoas distintas… Eu sou como tu e vocês, as prostitutas, só gostam dos “grandes”.

Reconheci no seu tom funesto a mesma tendência inflexível para procurar questões que há pouco tinha feito com que insultasse Gino sob o mais fútil pretexto. Julguei nessa altura que tivesse qualquer rancor contra Gino. Agora compreendia que a sua sombria susceptibilidade o levava sempre a encolerizar-se quando esta espécie de demônio o dominava: fosse qual fosse a maneira como nos portássemos com ele, enganávamo-nos sempre.

— Porque procuras agora também motivos para me ofender? — respondi, ligeiramente vexada. — Já te disse que para mim os homens são todos iguais.

— Se isso fosse verdade, não fazias essa cara… Não te agrado, hem?

— Mas se já te disse…

— Não te agrado, hem? — continuou. — Tenho pena, mas é preciso que te agrade!

— Oh! Deixa-me em paz — gritei, bruscamente irritada.

— Quando te fui útil para te livrares do teu melro, quiseste-me ao pé de ti… mas depois terias gostado de não me tornar a ver… somente eu subi. E não te agrado, hem?

Agora eu tinha realmente medo. As suas palavras sibiladas, a voz dura, impiedosa e calma, o seu olhar fixo, os seus olhos que de azuis pareciam tornar-se vermelhos, tudo parecia levar-me a não sei que horrível fim. Então compreendi, mas já tarde, que fazê-lo parar no rumo que as coisas levavam era o mesmo que tentar deter um bloco de pedra que rolasse por uma ribanceira. Limitei-me a encolher violentamente os ombros.

— Não te agrado, hem? — continuou. — Fazes uma cara desgostosa quando te toco… Mas agora, meu amor, vou fazer-te mudar de ideias!

E levantou a mão para me esbofetear. Começava a esperar um gesto do gênero e procurava proteger-me com o braço. Mas mal acabara de o fazer quando me bateu com uma ultrajante dureza, primeiro numa face, depois, logo que eu voltava a cara, na outra. Era a primeira vez na minha vida que isto me acontecia. Apesar da violência das bofetadas, senti-me por momentos mais surpreendida que penalizada. Afastei o meu braço da cara e disse-lhe:

— Sabes o que és? És um desgraçado!

Esta frase pareceu feri-lo. Sentou-se na beira da cama e, agarrando o colchão com as duas mãos, bamboleou-se uns instantes. Depois disse sem me olhar:

— Somos os dois desgraçados!

— É preciso ter coragem para bater assim numa mulher! — disse-lhe ainda.

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