— Sim — respondeu-me com ar de desprezo. — São feitos um para o outro.
— Nada sentes por mim — repeti —, e vieste? No meu amor decepcionado (decepção que eu, de resto, previra) tinha prazer em lhe fazer notar a sua inconsequência.
— Parece-me — respondeu — que eu sou o que vulgarmente se chama um carácter fraco.
— Vieste e isso basta-me — disse-lhe cruelmente.
Alonguei a mão por debaixo da mesa e pousei-lha sobre os joelhos, olhando-o. A este contacto vi-o perturbar-se e notei que o queixo lhe tremia. Senti prazer em vê-lo tremer; compreendi que, apesar de me desejar tanto como acabara de me dizer quando me confessara ter pensado durante um mês em me vir ver, havia uma parte dele próprio que me era hostil e que era contra essa parte que eu deveria dirigir os meus esforços a fim de a humilhar e destruir. Lembrei-me do seu olhar passando como um fio sobre as minhas costas nuas na primeira vez em que estivemos juntos; fizera mal em me deixar gelar por aquele olhar, que se eu tivesse persistido nos meus esforços para o seduzir, esse olhar se teria extinto da mesma maneira que neste momento a dignidade convulsa da sua cara caíra e se evaporara. Inclinada sobre a mesa como se lhe quisesse falar em voz baixa, acariciava-o e espiava com o olhar — um olhar que eu sentia alegre e satisfeito — o efeito da minha carícia sobre o seu rosto. Olhava-me com o ar interrogativo e magoado dos seus grandes olhos brilhantes com longos cílios de mulher. Acabou por me dizer:
— Se te chega agradares-me desta maneira, podes continuar.
Endireitei-me imediatamente. Quase no mesmo instante o patrão trouxe a comida. Começamos os dois a comer, sem apetite.
— No teu lugar procuraria obrigar-me a beber — disse-me.
— Porque?
— Porque quando estou embriagado faço com mais facilidade aquilo que os outros querem.
A frase que tinha já pronunciado: “Se te chega agradares-me desta maneira, podes continuar!” tinha-me magoado. O que ele dizia a respeito do vinho convenceu-me da inutilidade dos meus esforços. Desesperada, respondi-lhe:
— Quero que faças só aquilo que te apetecer. Se te queres ir embora, não tens mais que ir… a porta está ali.
— Para me ir embora — disse ele num tom brincalhão — era preciso que tivesse a certeza de o desejar!
— Queres que seja eu a ir-me embora?
Olhamo-nos. A minha dor dava-me a segurança da minha resolução. Esta atitude pareceu perturbá-lo tanto como as carícias que lhe fizera primeiro:
— Não — disse-me com esforço. — Fica.
Recomeçamos a comer em silêncio. Depois vi-o encher um grande copo de vinho e esvaziá-lo de um trago.
— Vês? Estou a beber — disse-me.
— Vejo.
— Daqui a pouco estou bêbado. Então já serei bem capaz de te fazer uma declaração!
Estas palavras trespassaram-me o coração. Tive a impressão de que já não podia continuar a sofrer desta maneira.
— Ouve — disse-lhe humildemente. — Não me atormentes mais!
— Atormento-te?
— Sim, metes-me a ridículo. Mas eu não te peço outra coisa senão que não te preocupes mais comigo. Apaixonei-me por ti… acabará por passar… Mas por enquanto deixa-me tranquila.
Não respondeu e bebeu o segundo copo de vinho. Temi tê-lo ferido e perguntei-lhe:
— Que queres? Estás zangado comigo?
— Eu? Pelo contrário.
— Se te agradar troçar de mim, podes fazê-lo; dizia aquilo só por dizer.
— Mas eu não faço troça de ti.
— E se te dá prazer dizeres-me maldades — insistia eu, tomada de não sei que desejo de me mostrar submissa com ele, sem manobras nem cálculos —, podes dizê-las… não te amarei menos por isso; amar-te-ei ainda mais! Se me batesses, beijaria a mão com a qual me tivesses batido.
Olhava-me com atenção e parecia extraordinariamente embaraçado. Era evidente que a minha paixão o desconcertava. Acabou por dizer:
— Vamos embora?
— Para onde?
— Para tua casa.
Estava tão desesperada que tinha quase esquecido o motivo do meu desespero. A um convite tão inesperado, quando ainda nem sequer tínhamos comido o primeiro prato e metade do vinho ainda estava no jarro, senti mais estupefacção que prazer. Pensava que não era o amor mas o embaraço que o levava a interromper o almoço e disse-lhe:
— Estás sobre brasas para me deixar, não é?
— Como percebeste? — perguntou-me.
Esta resposta, demasiado cruel para ser verdade, encorajou-me, respondi-lhe baixando os olhos:
— Sabes… há coisas que se compreendem logo! Não, vamos acabar de comer; depois vamo-nos embora!
— Como quiseres… mas vou embebedar-me.
— Embebeda-te… Nada tenho com isso!
— Mas vou embebedar-me até me fazer mal… e então em vez de um amante para amar, tens um doente para tratar.
Tive a ingenuidade de lhe mostrar o meu receio. Estendi a mão para o jarro e disse-lhe:
— Não bebas mais.
Desatou a rir e disse:
— Caíste no laço!
— Qual laço?
— Não te aflijas, que eu não adoeço assim com essa facilidade!
— Só o fazia por ti — disse-lhe, humilhada.
— Por mim? Oh! Oh!
Continuou a arreliar-me. Mas conservava nas suas alfinetadas a gentileza que lhe era natural, se bem que isso não me contrariasse muito.
— Mas tu, também, porque não bebes? — perguntou.
— Não gosto. Além disso, a mim basta-me um copo para me embriagar.
— Que mal pode fazer-te? Ficaremos os dois alegres.
— É feio uma mulher embriagada; não quero que me vejas assim!
— Porquê? Que tem isso de feio?
— Não sei. É feio ver uma mulher cambalear, dizer disparates, fazer gestos inconvenientes… É triste. Eu sei que sou uma desgraçada e sei que tu também pensas o mesmo de mim, que sou uma desgraçada. Mas se bebesse e tu me visses embriagada, nunca mais me poderias ver.
— E se te ordenasse que bebesses?
— Queres por força aviltar-me! — disse, reflectindo. — A única coisa boa que tenho é não ser ignóbil… Queres realmente que eu perca até mesmo esta qualidade?
— Quero! — disse-me com ênfase.
— Não percebo em que te pode isso dar prazer! Mas se o desejas muito, está bem, serve-me vinho! — disse-lhe.
E estendi o copo.
Olhou o copo e, depois de me olhar também, desatou a rir outra vez:
— Estava a brincar — disse.
— Nunca deixas de brincar!
— Então tu não és ignóbil — repetiu passado um momento em que me olhara em silêncio.
— É o que dizem, pelo menos.
— Julgas que eu também o penso?
— Como hei-de eu saber o que pensas?!
— Vejamos… que julgas tu que penso de ti e sinto por ti?
— Não sei — disse eu lentamente cheia de pavor. — Certamente que não me amas como eu te amo. Talvez eu te agrade como uma mulher pode agradar a um homem quando não é de todo feia.
— Ah! Então achas que não és de todo feia?
— Disso tenho a certeza — disse com orgulho. — Sei mesmo que sou muito bonita. Mas de que me serve a beleza?
— A beleza para nada serve.
Entretanto, tínhamos acabado de comer e esvaziáramos quase dois jarros de vinho.
— Como vês — disse-me —, bebi e não estou bêbado. Mas os seus olhos brilhantes e a agitação das mãos contradiziam as suas palavras. Olhava-o talvez com um ar esperançado.
— Queres voltar para casa? — disse-me. — É Vênus toda inteira agarrada à sua presa.
— Que estás a dizer?
— Nada. São uns versos franceses. Hep! Chefe! Era sempre um pouco enfático, mas de uma maneira cômica. E foi de uma maneira cômica que interpelou o patrão e lhe meteu o dinheiro debaixo do nariz, juntando-lhe uma gorjeta excessiva e declarando:
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