Alberto Moravia - A Romana

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Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.

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— É cômodo — respondeu Gisela com ar superior. — Mas gosto mais dos Lancia. Andam mais e tém uma suspensão melhor. O meu noivo tem um.

Realmente Ricardo tinha um Lancia. Simplesmente, o que ele nunca fora era noivo de Gisela. O rapaz desatou a rir e respondeu:

— O que ele deve ter é um Lancia de duas rodas…

Gisela era fácil de irritar. Respondeu com ar ofendido:

— Por quem me toma você?

— Não sei. Diga-me por quem a devo tomar, não vá eu enganar-me…

Outra das ideias fixas de Gisela era fazer-se passar aos olhos dos seus amantes de acaso por aquilo que não era, nem nunca tinha sido: bailarina, dactilógrafa, senhora respeitável, sem reparar que essas pretensões não condiziam com a facilidade com que ela se deixava abordar e discutir logo de entrada o aspecto material da questão.

— Somos dançarinas da troupe Caccini — declarou ela com um ar muito sério. — Não temos o hábito de aceitar convites de desconhecidos. Aliás, eu não queria aceitar. A minha colega é que insistiu tanto… Se o meu noivo suspeitasse disto, havia de ser bonito!

O rapaz que ia ao volante riu de novo:

— Bem. Eu e o meu amigo somos realmente duas pessoas decentes. Quanto a vocês, são duas prostitutas de rua. Mas que importância tem isso?

Foi então que o meu companheiro falou pela primeira vez.

— Pára, João Carlos — disse com uma voz tranquila.

Eu não disse palavra. Não me agradava aquela classificação, principalmente com a manifesta intenção de ofender que se notava no tom de voz com que João Carlos falava. Mas, ao fim e ao cabo, o que ele dissera era verdade.

— Isso é mentira e você não passa de um ordinarão!

O rapaz não respondeu, mas parou o carro junto do passeio. Estávamos numa rua pouco frequentada e mal iluminada. O condutor voltou-se para Gisela.

— E se eu te pusesse fora do carro?

— Experimenta! — respondeu Gisela, agressiva.

Gisela era extremamente desordeira e de ninguém tinha medo.

Então o meu companheiro inclinou-se para a frente e eu vi pela primeira vez o seu rosto. Era moreno, com os cabelos em desordem, a testa alta, grandes olhos sombrios e brilhantes, um nariz bem desenhado, a boca sinuosa e um horrendo queixo fugidio. Era extremamente magro. Interrogou o amigo:

— Vais acabar com essa discussão idiota?

A pergunta foi feita com energia, mas sem irritação, como se ele interviesse num assunto em que, na verdade, não estivesse directamente interessado nem lhe desse importância. A sua voz não era muito forte, nem muito masculina e até, com frequência, soava a falsete.

— Que tens tu com isso? — respondeu o outro, bruscamente.

Mas isto foi dito num tom de voz de quem já está arrependido da sua brutalidade e que no fundo ficasse bastante satisfeito com a intervenção do amigo.

— Que maneiras são essas? — tornou o outro. — Que diabo! Convidámo-las, elas confiam em nós, e em paga dizemos-lhes insolências e insultamo-las. Achas bem? Dirigindo-se agora a Gisela, disse-lhe, ao mesmo tempo com gentileza e com autoridade:

— Não faça caso, menina. Ele bebeu talvez um pouco mais do que devia. Garanto-lhe que não tinha a intenção de a ofender.

O louro fez um gesto de protesto, mas o meu companheiro forçou-o a calar-se pondo-lhe a mão num braço e dizendo-lhe em tom peremptório:

— Já te disse que bebeste demais e que não tinhas intenção de a ofender. E agora, vamos embora!

— Eu não aceitei a vossa companhia para ser insultada — começou Gisela, numa voz pouco firme.

O moreno deu-lhe imediatamente razão.

— Com certeza! Ninguém gosta de ser insultado. É tudo quanto há de mais natural…

O louro olhava-nos com ar aparvalhado. Tinha o rosto encarnado, coberto de marcas irregulares, como pisaduras, uns olhos azuis perfeitamente redondos e uma grande boca sensual e glutona. Olhou primeiro para o amigo, depois para Gisela, e finalmente desatou a rir:

— Palavra de honra que não percebo nada! — exclamou. — Porque estamos nós a discutir? Não há maneira de me lembrar como isto começou. Em lugar de nos divertirmos, zangamo-nos! Somos completamente idiotas, não há dúvida!

Ria com evidente satisfação. E, sem deixar de rir, voltou-se para Gisela e disse-lhe:

— Vá! Façamos as pazes! Sinto que fomos feitos um para o outro!

Gisela tentou sorrir e declarou:

— Realmente, eu também tinha essa impressão…

O louro continuou, sempre a rir a bandeiras despregadas:

— Eu tenho um rico feitio, não é verdade, Jaime? É questão de saber lidar comigo, e mais nada… Vamos! Venha de lá uma beijoca…

Debruçou-se para Gisela e passou-lhe um braço pela cintura. Ela desviou levemente a cabeça e disse-lhe:

— Espera!

Tirou um lenço de dentro da bolsa, limpou a boca com ele e depois beijou-o secamente, com um ar muito digno. Enquanto esse beijo durou, o louro agitava as mãos como se estivesse a afogar-se e tentasse nadar. Separaram-se e então ele pôs o motor a trabalhar com gestos pretensiosos e solenes.

— Ora pois! Juro que daqui para o futuro não lhes darei uma única razão de queixa. Vou ser muito sério, muito bem educado, muito distinto… Autorizo a esbofetearem-me, se não me portar bem…

O carro pôs-se de novo em movimento.

Durante o resto do trajecto ele não cessou de falar e de rir animadamente; por vezes mesmo chegou a tirar as duas mãos do volante para gesticular. O meu companheiro, pelo contrário, depois da sua breve intervenção, tinha voltado à sombra e ao silêncio. Eu começava a simpatizar fortemente com ele, sentindo-me, ao mesmo tempo, curiosa e atraída; agora, que volto a pensar nisso, passado tanto tempo, compreendo ter sido nesse momento que me apaixonei por ele, ou, pelo menos, que comecei a consubstanciar na sua pessoa todas as coisas que amava e de que até então estivera privada. Afinal de contas, o amor tem de ser um sentimento completo e não apenas uma pura satisfação dos sentidos; e eu continuava, teimosamente, em busca dessa perfeição que pensara existir em Gino. Talvez esta fosse a primeira vez em toda a minha vida, e não apenas desde que exercia este ofício, que se me deparava uma pessoa como este homem, com tais maneiras e uma tal voz. O primeiro pintor de quem eu tinha sido modelo assemelhava-se a ele até certo ponto, mas era mais frio e mais seguro de si; aliás, mesmo que ele o não tivesse querido, eu ter-me-ia apaixonado por ele do mesmo modo, se bem que, por motivos diferentes, a voz e as atitudes deste rapaz suscitassem na minha alma os sentimentos que se tinham apossado de mim a primeira vez que tinha estado na casa dos patrões de Gino. Assim como, ao ver a ordem, o luxo e a limpeza dessa casa, eu tinha pensado que, sem um ambiente como esse, a vida não valia a pena ser vivida, assim agora a voz e os gestos deste rapaz, tão gentis e tão calmos, inspiravam-me não sei que atracção profunda e comovida. Ao mesmo tempo ele acordou em mim um violento desejo físico; sentia-me ansiosa por ser acariciada pelas suas mãos, beijada pela sua boca; compreendi que acabava de se produzir em mim essa mistura imponderável, mas veemente das aspirações antigas e do prazer actual que é a própria essência do amor e marca infalivelmente o seu nascimento. Ao mesmo tempo temia que ele se apercebesse dos meus sentimentos e me desprezasse. Dominada por este medo, estendi a mão e apertei a dele. Mas ele não teve qualquer reacção. Então uma grande perplexidade tomou conta de mim; sentia que a sua imobilidade me impunha uma atitude de desinteresse, mas essa atitude era superior às minhas forças. O carro, dobrando bruscamente uma esquina, atirou-nos um contra o outro; fingi ter perdido o equilíbrio e deixei cair a cabeça nos seus joelhos. Ele estremeceu, mas não disse uma palavra nem fez um gesto. Sentindo com alegria que o carro corria velozmente, fiz como fazem os cães: meti a minha cara no meio das suas mãos, beijei-as e passei-as no meu rosto numa carícia que eu quisera ardentemente fosse afectuosa e espontânea. Compreendendo que estava de cabeça perdida, admirei-me de como meia dúzia de palavras amáveis haviam bastado para isso. Mas ele não me concedeu a carícia desejada e tão humildemente pedida, e retirou as mãos da minha cara. Precisamente neste momento o carro parou.

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