Alberto Moravia - A Romana

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Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.

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Com ar aliviado, precipitou-se para o armário, abriu a gaveta, agarrou na caixa e meteu-a no bolso. Depois olhou-me de uma maneira onde havia desejo de reconciliação. Mas não tive coragem de enfrentar a cena embaraçosa que este olhar me fazia prever.

— Tens lá em baixo o carro? — perguntei-lhe.

— Tenho.

— Está bem! É tarde, é melhor que não demores; tornaremos a falar nisto na próxima vez que nos virmos.

— Estás zangada comigo?

— Não.

— Sim, estás!

— Já te disse que não.

Suspirou, curvou-se sobre a cama e deixei que me beijasse.

— Mas telefonas-me? — insistiu, da porta.

— Está descansado.

Foi desta maneira que Gino aceitou o meu novo género de vida. Mas no dia em que nos tornámos a ver não falámos nem da caixa, nem do meu trabalho, como se de futuro essas coisas não tivessem importância e cujo único interesse tivesse sido apenas a novidade. Portou-se um pouco como minha mãe, salvo que não pareceu experimentar, nem por um instante, o pavor manifestado por ela a primeira vez em que eu trouxe Jacinto para casa, e que me parecia por vezes sentir ainda perpassar por entre a sua satisfação, ver por debaixo da sua gordura balofa. O importante do carácter de Gino era, pelo contrário, uma espécie de finura tola e desentendida. Imagino que logo que conheceu a mudança que a sua traição operara na minha vida encolheu os ombros dizendo: “Matei dois coelhos de uma cajadada. Assim não me pode acusar de coisa alguma e continuarei a ser seu amante.” Há homens que consideram uma sorte conservar o que possuem, seja o dinheiro, a mulher e até a própria vida, nem que seja pelo preço da dignidade. Gino era desses.

Continuei a encontrar-me com ele, porque, como já disse, me agradava ainda, apesar de tudo, e porque não tinha alguém que me agradasse mais do que ele, e também porque, se bem que pensasse que de futuro tudo estava terminado entre nós, não queria que este fim fosse brusco e desagradável. Nunca gostei dos cortes decisivos nem de interrupções bruscas. Acho que as coisas da vida devem morrer por si, assim como nascem, por indiferença ou por hábito, uma vez que o hábito é uma variedade de fiel aborrecimento; gosto de as sentir morrer assim, naturalmente, sem que seja por minha culpa nem por culpa de outrem, e vê-las pouco a pouco ceder o lugar a outras. Além de tudo, estas mudanças claras e precisas não existem; quando se quer mudar precipitadamente, corre-se o risco de ver desabrochar com viva tenacidade, quando menos se espera, os velhos hábitos que se tinha a ilusão de ter arrancado de um só golpe e de uma maneira definitiva. Queria que as carícias de Gino acabassem por me ser tão indiferentes como as suas palavras; temia, se não deixasse o tempo agir, vê-lo ressuscitar a cada instante na minha vida, obrigando-me contra vontade a retomar as nossas antigas relações.

Uma outra pessoa que tornou a entrar na minha vida naquele momento foi Astárito. Com ele foi tudo ainda mais simples do que com Gino. Gisela via-o às escondidas e eu supus que ele tinha relações com ela só para ter ocasião de saber notícias minhas. Fosse como fosse, Gisela espiava o momento favorável para me falar dele; quando lhe pareceu que já tinha passado bastante tempo e que eu já estaria mais calma, chamou-me de parte para me dizer que ele lhe pedira notícias minhas.

— Nada me disse de preciso — acrescentou —, mas senti que ainda estava apaixonado por ti… Até me fez pena… parecia muito infeliz… Nada me disse, repito-te, mas percebi que tinha grande desejo de te tornar a ver… Agora, depois de tudo…

Interrompi-a para lhe dizer:

— Ouve, é inútil continuar a falar dessa maneira.

— De que maneira?

— Com tantas precauções! Diz antes francamente que te mandou, que me quer ver e que te comprometeste a levar-lhe a minha resposta.

— Admitindo que seja assim — concordou, desconcertada. — Então?

— Então? — respondi, tranquila. — Diz-lhe que nada me impede de o ver… mas como também tenho outros, bem entendido que é de tempos a tempos, sem compromisso.

Ela ficou estupefacta com a minha calma; estava convencida de que eu odiava Astárito e nunca consentiria em tornar a vê-lo. Não compreendia que o ódio e o amor tinham morrido para mim. Como sempre, pensou que escondia qualquer intenção.

— Tens razão — disse, passados uns instantes, com ar reflectido —, eu no teu lugar faria o mesmo… Há casos nos quais tem que se passar por cima das antipatias. Astárito ama-te de verdade. Era capaz de anular o seu casamento para casar contigo… Não és parva, tu! E eu que te julgava uma ingênua!

Gisela nunca me tinha compreendido; sabia por experiência que seria tempo perdido tentar abrir-lhe os olhos; por isso fitei-a com ar desenvolto e respondi-lhe:

— É assim mesmo — deixando-a num estado de alma onde a inveja se misturava com a mais injuriosa admiração.

Comunicou a minha resposta a Astárito e tornei a vê-lo na mesma pastelaria onde encontrei pela primeira vez Jacinto. Gisela tinha razão; ele continuava a amar-me freneticamente; logo que me viu ficou pálido como um morto, perdeu toda a segurança e não abriu a boca. Esta paixão era mais forte do que ele. Penso que certas mulheres do povo, simples, como minha mãe, por exemplo, tem razão quando, contando histórias de amor, declaram que certos homens foram enfeitiçados pela amante. Sem querer e sem dar por isso, eu exercia sobre Astárito uma espécie de sortilégio; ele tinha consciência disso, e se bem que tentasse livrar-se com todas as forças não o conseguia. Tinha, de uma vez para sempre, feito dele um subordinado; de uma vez para sempre tinha-o desarmado, paralisado e reduzido a nada. Explicou-me mais tarde que por vezes, quando estava sozinho, tentava estudar o papel da personagem fria e desdenhosa que queria representar comigo, indo até ao ponto de decorar frases, mas que quando me via o sangue fugia-lhe do rosto e uma espécie de angústia oprimia-lhe o peito, o espírito turvava-se-lhe, a língua recusava-se a falar. Tinha a impressão de não poder suportar o meu olhar, perdia a cabeça, experimentava o desejo irresistível de se lançar de joelhos diante de mim e de me beijar os pés.

Realmente, ele não era como os outros homens; quero dizer que dava a impressão de estar obcecado. Na noite em que nos tornámos a encontrar, depois de termos ido jantar juntos ao restaurante, sempre num silêncio terno e crispado, apenas chegados a minha casa, obrigou-me a contar em pormenor, sem nada omitir, toda a minha vida depois do dia do passeio a Viterbo até ao meu rompimento com Gino.

— Mas porque te interessa isso tanto? — perguntei, muito admirada.

— Por nada — respondeu. — Mas para ti que mal tem isso? Não te preocupes comigo, conta!

— Pela minha parte não me importo! — respondi, encolhendo os ombros. — Se isso te dá prazer!

E minuciosamente, como me recomendara que o fizesse, contei-lhe tudo o que se passara depois do passeio: como fora a explicação com Gino, como seguira os conselhos de Gisela, como encontrara Jacinto. Só não contei a história da caixa de pó-de-arroz, nem sei bem porquê, talvez para não o colocar numa situação falsa, sendo ele, como era, polícia. Fez-me imensas perguntas, particularmente sobre o meu encontro com Jacinto. Parecia que nunca tinha os pormenores suficientes: dir-se-ia que não queria só saber as coisas, mas vê-las, tocá-las e participar nelas, em suma. Não sei quantas vezes me interrompeu para me dizer:

— E tu, que fizeste?

Ou ainda:

— Mas ele, que te fez?

Quando eu acabava beijava-me, gaguejando:

— Tudo isto foi por minha culpa!

— Não — respondi, um pouco contrariada. — Não foi culpa de ninguém.

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