— Gosto mais assim — recomeçou. — Não gosto de gente triste. E depois não te convidei para que estivesses triste. Podes ter razão para isso, não discuto, mas logo que estejas comigo tens de deixar a tristeza em casa. Não me interessam os teus problemas, nem quem és, nem o que te aconteceu, nem o resto… Certas coisas não me interessam. Fizemos um contrato um com o outro, mesmo que não tenha sido escrito… Eu comprometo-me a pagar-te uma certa soma e tu, em compensação, comprometes-te a fazer-me passar uma noite agradável… O resto não conta.
Proferiu estas palavras em tom sério. Talvez estivesse um pouco contrariado por eu não o ter escutado com suficiente atenção.
— Mas eu não estou triste… — respondi sem lhe desvendar o mundo de sentimentos que me agitava a alma. — Somente aqui há tanto fumo! E um barulho! Sinto-me um pouco atordoada.
— Então, saímos? — perguntou com vivacidade. Disse-lhe que sim. Chamou em seguida o criado e pagou. Saímos. Quando chegámos à rua, perguntou-me:
— Vamos para o hotel?
— Não, não — disse eu apressadamente.
A perspectiva de ter de mostrar os meus documentos assustava-me, e de resto já decidira outra coisa.
— Vamos para minha casa! — disse.
Subimos para um táxi e dei a minha direcção. Assim que o táxi arrancou, atirou-se para cima de mim e apalpou-me o corpo todo beijando-me no pescoço. Senti pelo seu hálito que bebera muito e devia estar embriagado. Repetia constantemente a palavra “filhinha”, que se diz às crianças e que na sua boca me irritava como um termo ridículo e ligeiramente profano. Deixei-o agir durante uns momentos, depois observei, apontando as costas do chauffeur: — Era melhor esperar que chegássemos… não? — Não respondeu e caiu pesadamente sobre as almofadas, encarnado e congestionado como se sentisse fulminado por um súbito mal. Depois tratamudeou com ar furioso:
— Pago-lhe para que me conduza ao meu destino e não para que dê conta do que se passa dentro do seu táxi.
O dinheiro era a sua ideia fixa, e sobretudo o seu dinheiro, que podia fechar todas as bocas. Nada respondi e durante o resto do percurso ficámos calados um ao lado do outro, sem nos tocarmos. As luzes da cidade entravam pelas portinholas, iluminando por instantes os nossos rostos e as nossas mãos, e desapareciam; parecia-me estranho encontrar-me ao lado deste homem, do qual algumas horas antes nem conhecia a existência, e rolar num carro na sua companhia para minha casa, para me entregar a ele como a um amante querido. Senti uma espécie de atordoamento ao ver o táxi parar diante da minha porta na avenida tão conhecida.
Na escada escura pedi a Jacinto:
— Não faça barulho ao entrar, peço-lhe, porque minha mãe mora comigo.
— Está descansada, filhinha — respondeu-me.
Chegados ao patamar, abri a porta com a minha chave. Jacinto seguia-me; peguei-lhe na mão; sem acender a luz, fi-lo atravessar a antecâmara e conduzi-o até à porta do meu quarto, que era a primeira à esquerda, entrando. Precedida por ele, acendi o candeeiro da mesa-de-cabeçeira e da soleira da porta deitei um olhar aos meus móveis como se fosse uma despedida. Muito contente por encontrar um quarto novo e limpo, quando julgava que o conduzisse a um quarto sujo e com móveis velhos, Jacinto soltou um suspiro de satisfação e tirou o seu sobretudo, que atirou para cima de uma cadeira. Disse-lhe que me esperasse e saí do quarto.
Dirigi-me directamente à sala grande e encontrei minha mãe sentada à mesa central preparada para coser. Quando me viu afastou logo o trabalho e levantou-se sem dúvida com a ideia de me servir o jantar como nas outras noites. Mas eu disse-lhe:
— Não… não te incomodes… Já jantei… Pelo contrário… Tenho alguém no meu quarto e não vás lá, seja a que pretexto for!
— Alguém? — perguntou-me com cara de pasmo.
— Sim, alguém! — disse-lhe apressadamente. — Mas não é Gino. É um “senhor de posição”!
E saí da sala sem esperar qualquer pergunta. Tornei a entrar no quarto e fechei a porta à chave. Impaciente e corado, Jacinto veio ao meu encontro ao meio do quarto e tomou-me nos braços. Era muito mais pequeno do que eu e para pousar os lábios na minha cara, tive que inclinar-me sobre a cama. Procurava evitar que ele me beijasse a boca, dobrando-me para trás como por voluptuosidade. Consegui. Jacinto possuía da mesma maneira que comia; com avidez, sem discernimento nem delicadeza, começando e largando sem propósito, como se tivesse medo de deixar escapar alguma coisa, cego pelo meu corpo, como o estivera pela comida no restaurante.
Depois de me ter beijado, fez menção de me despir, como estávamos, de pé. Pós a mão num dos meus braços e depois, como se esta carne lhe queimasse as ideias, começou a cobrir-me de beijos. Julguei que com os seus gestos bruscos me rasgasse o fato e acabei por lhe dizer sem o repelir:
— Vamos, despe-te.
Largou-me logo e, sentando-se na cama, começou a despir-se. Eu do outro lado fazia o mesmo.
— Mas a tua mãe sabe? — perguntou-me.
— Sim.
— E que diz ela?
— Nada.
— Desaprova?
É claro que estas informações não tinham outro valor que o de dar um pouco de picante à aventura. É um traço comum a todos os homens; são bem poucos os que resistem à tentação de misturar ao prazer interesse de género diferente, indo por vezes até à compaixão.
— Não aprova nem desaprova — disse secamente levantando-me e fazendo passar a saia pela cabeça. — Sou livre de fazer o que me apetece!
Quando fiquei nua arrumei a minha roupa toda sobre uma cadeira e estendi-me de costas em cima da cama, um braço dobrado sobre a nuca e o outro sobre o ventre cobrindo-o com a mão. Não sei porquê, recordei-me que estava na mesma posição daquela deusa pagã parecida comigo que o gordo pintor mostrara a minha mãe numa gravura colorida, e bruscamente senti desgosto e raiva ao pensar na grande mudança que depois disso se operara na minha vida. Jacinto devia estar admirado com a beleza opulenta e sólida do meu corpo, que não se nota, assim como já disse, quando estou vestida, porque parou de se despir e olhou-me com ar deslumbrado, a boca aberta e os olhos espantados.
— Avia-te — disse-lhe. — Tenho frio.
Acabou de se despir e atirou-se para cima de mim. Já falei da sua maneira de amar, que não sei o que me parecia; quanto a ele, suponho já tê-lo descrito suficientemente. Devo acrescentar que era um destes homens para os quais o dinheiro que pagaram ou que irão pagar inspira uma exigência meticulosa, como se temessem ficar roubados se renunciassem a qualquer das coisas que julgam ser-lhes devidas. Era ávido, já o disse, mas não ao ponto de não ter sempre presente o seu dinheiro e de não querer tirar todo o benefício possível. O seu desejo — depressa compreendera prolongar o mais possível os nossos encontros e tirar de mim todo o prazer a que se considerava com direito. Com este principio, esfalfava-se sobre o meu corpo, como sobre um instrumento, exigindo uma longa preparação antes de tocá-lo, e incitava-me a todo o tempo a fazer o mesmo com o dele. Mas, embora lhe obedecesse, comecei logo a aborrecer-me e a observá-lo friamente, como se os seus cálculos tão transparentes o afastassem de mim e como se estivesse a ver de muito longe, através de uma lente de antipatia e de desagrado — não somente a ele, mas também a mim. Era exactamente o contrário do sentimento de simpatia que me esforçara por experimentar por ele no princípio da noite. De repente senti não sei que vergonhosa impressão de remorso e fechei os olhos. Ele acabou por se cansar e ficámos estendidos lado a lado. Sublinhou num tom de satisfação:
— Tens de reconhecer que, apesar de não ser já muito novo, sou um amante excepcional!
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