Uma vez vestida e arranjada, fui ao cinema e vi passar duas vezes a mesma fita. Quando saí do cinema era já noite; fui directamente à pastelaria onde tinha marcado encontro com Gisela.
A casa não era uma daquelas leitarias modestas onde habitualmente nos encontrávamos com Ricardo, mas uma pastelaria elegante, onde eu punha os pés pela primeira vez. Compreendi que a escolha deste local fora feita com a intenção de elevar o preço dos meus favores. Estes ardis e ainda outros de que falarei a seguir podem, com efeito, levar as mulheres da minha espécie, quando jovens e bonitas, e que os usem inteligentemente, ao bem-estar estável que é o alvo de todas. Mas poucas se servem deles e eu nunca pertenci a esse número. A minha origem popular fez-me sempre desconfiar dos locais luxuosos; nos cafés burgueses senti-me sempre pouco à vontade; envergonhava-me de sorrir aos homens ou de os olhar disfarçadamente; tinha a impressão de que a luz demasiada me expunha num pelourinho. Pelo contrário, senti sempre uma profunda e afectuosa atracção pelas ruas da minha cidade, com as suas nobres construções, as suas igrejas, os seus monumentos, as suas lojas e os seus portais, que as tornam mais belas e acolhedoras que qualquer sala de restaurante ou pastelaria. Sempre gostei de descer à rua à hora do passeio, ao pôr do Sol, caminhar lentamente olhando as montras iluminadas e ver a noite escurecer lentamente o céu e os telhados. Sempre apreciei seguir por entre a multidão, ouvir, sem me voltar, as ofertas de amor que os transeuntes, os mais imprevistos. numa súbita exaltação dos sentidos, se atreviam a murmurar-me às vezes; sempre gostei de subir e descer a mesma rua até à saciedade, ficar sem forças mas continuar com espírito ainda ávido e fresco como numa feira, onde as surpresas nunca se esgotam. O meu salão, o meu restaurante, o meu café, foram sempre a rua. Suponho que o facto de ter nascido pobre deve ter tido influência nestas minhas predilecções; sabe-se que os pobres se divertem com pouco dinheiro, repassando os olhos pelas montras das lojas, onde nada podem comprar, e as fachadas das belas casas, onde nunca morarão. Deve ser pelo mesmo motivo que amei sempre as igrejas, tão numerosas em Roma, abertas para o povo e luxuosas para todos e onde, por entre mármores, ouros e decorações preciosas, o cheiro acre e humilde da pobreza é, por vezes, mais forte do que o do incenso.
Naturalmente os ricos não passeiam pelas ruas, não vão à igreja: quando muito atravessam a cidade de automóvel, recostados sobre almofadas e lendo o jornal. Preferindo a rua a qualquer outro lugar, interditei a mim mesma os encontros nos sítios que Gisela me marcaria — em troca dos meus gostos mais predilectos. Este sacrifício nunca o quis fazer; todo o tempo que durou a minha camaradagem com Gisela o assunto foi objecto de discussões encarniçadas. Gisela não gostava da rua; as igrejas nada lhe diziam; a multidão só lhe inspirava repugnância e desprezo. O que ela mais apreciava eram os restaurantes de luxo, onde os criados espiam com ansiedade os mais simples gestos dos seus clientes, os dancings modernos, com músicos de uniforme e dançarinos de fato de noite. Nestes lugares, ela ficava outra; os seus gestos, as suas atitudes, até a sua voz mudavam. Fingia ser uma mulher bem; era o fim que almejava e que conseguiu mais tarde até certo ponto, como se poderá ver. O aspecto curioso do seu sucesso final foi que a pessoa destinada a satisfazer as suas ambições não a encontrou nos locais de luxo, mas graças a mim e precisamente na rua, que ela odiava tanto.
Na pastelaria encontrei Gisela acompanhada por um homem de meia-idade, um caixeiro-viajante, que me apresentou com o nome de Jacinto. Sentado, parecia ter uma altura normal, porque tinha os ombros largos, mas de pé parecia quase anão, e a largura de ombros ainda o tornava mais baixo. Tinha o cabelo espesso e branco como prata, que usava em escova sobre a testa, talvez para parecer mais grave, um rosto encarnado, cheio de saúde, com traços nobres e regulares de estátua, uma bela testa serena, grandes olhos pretos, nariz direito e a boca bem desenhada. Mas uma expressão antipática de vaidade, de suficiência e de falsa benevolência tornava esta cara, agradável e majestosa à primeira vista, bastante repulsiva.
Sentia-me um pouco nervosa, e depois de acabadas as apresentações sentei-me sem dizer palavra. Jacinto, como se a minha chegada fosse sem importância, apesar de ser na realidade o motivo da reunião, continuou a conversa que sustentava com Gisela:
— Não podes queixar-te de mim, Gisela — declarou-lhe, pousando-lhe a mão no joelho e conservando-a ali todo o tempo em que falou. — Quanto tempo durou a nossa… a nossa aliança, por assim dizer? Seis meses? Bem! Não podes dizer com verdade que no decurso desses seis meses te deixei uma única vez descontente.
Tinha a voz clara, lenta, acentuada, articulada; mas percebia-se que falava desta maneira, não para se fazer entender, mas para se ouvir ele próprio e julgar cada uma das palavras que pronunciava.
— Não, não! — disse Gisela baixando a cabeça com ar aborrecido.
— A Gisela que te diga, Adriana! — continuou Jacinto com a mesma voz clara e martelada. — Não só nunca a lesei em dinheiro pelo… digamos pelos seus préstimos profissionais, mas todas as vezes que voltava de Milão trazia-lhe sempre um presente. Lembras-te, por exemplo, daquele perfume francês que te trouxe uma vez? E doutra ofereci-te uma combinação de seda natural e rendas. As mulheres julgam que os homens não percebem de roupas interiores de senhora. Mas eu sou uma excepção. Hé! Hé!
Ria discretamente mostrando uma dentadura perfeita, mas de uma brancura estranha que lhe dava um ar de dentadura postiça.
— Dá-me um cigarro! — pediu Gisela com secura.
— É para já! — respondeu com uma solicitude irónica. Ofereceu-me também um, tirou outro para si e, depois de o acender, continuou: — Lembras-te também daquela mala que te trouxe uma vez? Uma grande mala de cabedal leve… uma verdadeira obra-prima! Já não a usas?
— Mas é uma mala para usar de manhã! — disse Gisela.
— Gosto muito de fazer presentes! — proclamou, dirigindo-se a mim. — Não por razões sentimentais, entendamo-nos — acrescentou deitando o fumo pelo nariz —, mas por três motivos bem claros: o primeiro, porque me agrada que me agradeçam; o segundo, porque não há como um presente para se ser bem servido; com efeito quem recebe um presente espera sempre outro: a terceira, porque as mulheres gostam de ilusões e um presente dá a impressão de sentimento, mesmo quando ele não existe.
— És um bom maroto! — disse com ar indiferente Gisela, sem mesmo o olhar.
Ele abanou a cabeça com o seu belo sorriso cheio de dentes.
— Não — disse — não sou maroto. Sou um homem que viveu e que soube tirar boas lições das suas experiências. Com as mulheres sei que é preciso fazer certas coisas, com os clientes outras, com os subordinados outras ainda, e assim por diante. O meu espírito é como um ficheiro bem arrumado. Por exemplo, tenho uma mulher debaixo de olho… tiro a ficha, observo-a, e vejo que certas medidas obtém o efeito desejado e outras não; torno a pôr a ficha no seu lugar e vou agir segundo as circunstáncias, e é tudo!
Calou-se e sorriu de novo.
Gisela fumava com ar aborrecido; eu estava calada.
— E as mulheres — continuou — ficam-me reconhecidas porque compreendem logo que comigo não terão desilusões, que eu conheço as suas exigências, as suas fraquezas e os seus caprichos… como eu fico agradecido ao cliente que escolhe depressa… que não perde tempo a tagarelar… que sabe o que quer e o que eu quero… Em Milão, na minha secretária, tenho um cinzeiro com a seguinte inscrição: “O Senhor abençoa quem não me faz perder tempo.” Deitou fora o cigarro, estendeu o pulso e olhou o relógio dizendo :
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