— É verdade — respondi com indiferença.
— Todas as mulheres mo dizem — continuou. — Sabes o que penso? Que é nos pequenos barris que se encontra o melhor vinho: há homens grandes, com o dobro do meu tamanho, que nada valem!
Comecei a sentir frio. Sentei-me na cama e puxei a colcha sobre nós. Ele interpretou o meu gesto como uma atenção afectuosa.
— Muito bem! — disse-me. — Agora vou dormir um bocadinho.
Enrolou-se de encontro a mim e adormeceu.
Continuei imóvel, deitada de costas, com a sua cabeça branca sobre o meu peito. A colcha não nos tapava senão até à cintura; olhando-o, vendo o seu dorso peludo, marcado por pregas moles indicando a idade madura, tive uma vez mais a impressão de me encontrar com alguém que me era perfeitamente estranho. Mas ele dormia, e como dormia, já não falava, não olhava, não gesticulava. Neste sono, dado o seu carácter pouco atraente, não ficava, por assim dizer, mais do que a sua melhor parte, que era a de ser um homem como tantos sem profissão, nem nome, nem qualidades, nem defeitos, nada mais que um corpo humano a quem um sopro fazia levantar o peito. Talvez pareça estranho, mas, olhando-o e observando o seu sono confiante, experimentava por ele como que um impulso de afeição e notei as precauções que tomava para evitar qualquer movimento que o pudesse acordar. Era o sentimento de simpatia que eu tinha baldadamente tentado experimentar até agora; a vista da sua cabeça encanecida molemente apoiada sobre o meu peito jovem suscitara-o por fim na minha alma. Esta impressão consolou-me e pareceu-me até sentir menos frio. Experimentei mesmo, por um instante, uma espécie de terna exaltação que humedeceu os meus olhos. Na realidade, eu tinha então — como ainda tenho — um excesso de ternura no coração. Uma ternura, que, por falta dos objectivos legítimos aos quais se devia consagrar, não temia desviar-se sobre pessoas e coisas, quase sempre indignas dela, para não ficar inactiva e vazia. Ao fim de vinte minutos, acordou e perguntou-me:
— Dormi muito tempo?
— Não.
— Sinto-me bem! — disse saindo da cama e esfregando as mãos. — Ah! Como me sinto bem!… Rejuvenesci pelo menos vinte anos!
Depois começou a vestir-se, continuando as suas exclamações de bem-estar e de alegria. Vesti-me também em silêncio. Quando estava pronto, declarou-me:
— Queria tornar a ver-te, filhinha… Como hei-de fazer?
— Telefona a Gisela — respondi. — Vejo-a todos os dias.
— Mas tu estás sempre livre?
— Sempre.
— Viva a liberdade! — e acrescentou, metendo a mão no bolso: — Quanto queres que te dê?
— Paga o que te apetecer — disse-lhe. E acrescentei com sinceridade: — Se me deres bastante, farás uma boa acção porque não sou rica.
Mas ele respondeu taco a taco:
— Se te dou muito não será para fazer uma boa acção… Nunca faço boas acções… será por seres uma bonita rapariga e por me teres feito passar uma noite agradável.
— Como quiseres! — disse-lhe encolhendo os ombros.
— Tudo tem o seu valor, e tudo deve ser pago segundo o seu valor — continuou tirando o dinheiro da carteira. As boas acções não existem. Tu deste-me certas coisas, de uma qualidade superior às que me tinham dado antes… por exemplo, Gisela… As boas acções nestes casos não contam… Outro conselho! Nunca digas: dá-me o que te apetecer! Deixa fazer isso aos vendedores ambulantes. A mim quando me dizem “faça você o preço” sinto-me sempre tentado a dar menos do que devo pagar.
Fez uma careta significativa e estendeu-me o dinheiro. Como Gisela me dissera, era generoso; a soma ultrapassava as minhas previsões. Senti de novo, pegando-lhe, o sentimento de cumplicidade e sensualidade que me inspirara o dinheiro de Astárito no decurso do passeio a Viterbo. E pensei que isso denotava em mim urna vocação, que eu devia ter de facto jeito para esta espécie de ofício, mesmo se o meu coração aspirava a coisas diferentes.
— Obrigada — disse-lhe.
E, sem quase dar por isso, por gratidão, beijei-o de boa vontade.
— Obrigado eu! — respondeu dispondo-se a retirar. Dei-lhe a mão e conduzi-o, no escuro, através do vestíbulo, na direcção da porta. Durante um momento, logo que fechei a porta do meu quarto e antes de abrir a da casa, caminhámos numa obscuridade completa. E então, não sei que intuição quase física me revelou que minha mãe se encontrava em qualquer canto do vestíbulo enquanto eu vagueava com Jacinto. Ela tinha-se escondido sem dúvida atrás da porta, ou num canto, entre o armário e a parede e esperava que Jacinto saísse. Lembrei-me daquela vez que ela fizera a mesma coisa, na noite em que chegara atrasada depois de ter estado com Gino em casa dos patrões dele e assaltou-me um grande nervosismo à ideia de que, como daquela vez, depois de Jacinto sair ela me saltasse em cima, me agarrasse os cabelos, me atirasse para cima do canapé da sala grande e me enchesse de bofetadas. Sentia-a no escuro; parecia-me quase vê-la; sentia uma impressão nas costas como se tivesse as suas garras atrás da minha cabeça prontas a arrepelar-me os cabelos. Segurava Jacinto pela mão e na outra mão guardava o dinheiro. Lembrei-me de o meter entre os dedos da minha mãe logo que ela me quisesse saltar em cima. Seria uma maneira silenciosa de lhe lembrar que nunca cessara de me instigar a ganhar dinheiro e também uma tentativa de a captar pela avidez — a sua paixão dominante — e assim fechar-lhe a boca. Entretanto tinha aberto a porta.
— Então até qualquer dia… Telefonarei a Gisela — disse-me Jacinto.
Vi-o descer a escada, com os seus largos ombros e os seus cabelos brancos cortados à escovinha, agitando a mão sem olhar para trás, em sinal de cumprimento — e fechei a porta. Imediatamente, como previra, minha mãe surgiu do escuro junto de mim. Mas não me agarrou pelos cabelos, como julguei: pelo contrário de uma maneira desajeitada, que de princípio não compreendi, fez uma tentativa para me beijar. Fiel ao meu plano, procurei a sua mão e introduzi-lhe o dinheiro. Mas ela recusou-o; o dinheiro caiu no chão; ai, o encontrei no dia seguinte de manhã quando saí do meu quarto. Tudo isto com um pouco de angústia de parte a parte, mas sem que qualquer de nós abrisse a boca.
Entrámos na sala grande e sentei-me ao cantinho da mesa. Minha mãe sentou-se na minha frente e olhou-me. Parecia ansiosa e eu estava embaraçada. Disse-me de repente:
— Sabes que enquanto estiveste no quarto houve um certo momento em que tive medo?
— Medo de quê? — perguntei-lhe.
— Não sei — respondeu-me. — Primeiro senti-me só… tive frio… E depois já não me sentia eu, tudo girava à minha volta como quando se bebe, sabes! Tudo me parecia estranho! Pensava: isto é uma mesa, isto é uma máquina de costura… Mas não me chegava a convencer de que era realmente uma mesa, a cadeira, a máquina de costura… Também tive a sensação de que já não era eu… dizia: sou uma velha costureira… Tenho uma filha que se chama Adriana… mas não me convencia… Para me assegurar de que assim era pus-me a pensar no que tinha sido quando era pequenina, depois quando tinha a tua idade, quando me casei, quando tu nasceste… Então tive medo, porque tudo passou como se tivesse sido ontem; de nova, que era, cheguei bruscamente a velha sem dar por isso… E quando eu morrer — concluiu com esforço olhando-me — será como se nunca tivesse existido.
— Porque pensas nessas coisas? — pronunciei lentamente. — Ainda és nova… Que necessidade tens de pensar na morte?
Pareceu não me ter ouvido e continuou com a mesma énfase, que me fazia pena e me parecia falsa:
— Digo-te que tive medo! Pus-me a pensar: se uma pessoa não tem mais vontade de viver, deve continuar a estar neste mundo à força? Não digo que se mate; para se matar é preciso coragem; não, mas apenas deixar de querer viver como se deixa de querer comer, ou de querer andar… Pois bem! Juro-te por alma do teu pai… Já não queria viver mais!
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