Tinha os olhos cheios de lágrimas e os lábios trémulos. Eu estava quase a chorar também, sem saber porque, e levantei-me, beijei-a e fui sentar-me com ela no canapé, ao fundo do quarto. Ficámos uns momentos a chorar nos braços uma da outra. Sentia-me desnorteada, estava muito cansada, e as palavras incoerentes da minha mãe, com á sua ilógica, aumentavam o meu desnorteamento. Mas fui a primeira a recompor-me, porque no fim de contas eu não chorava senão por simpatia. Há muito tempo que deixara de chorar por mim!
— Então! Então! — comecei a dizer-lhe, dando-lhe palmadas nas costas.
— Digo-te, Adriana, já não tenho vontade de viver! — repetia-me chorando.
Afaguei-lhe o ombro sem dizer nada, deixando-a chorar à vontade. Mas pensava, por minha vez, que as suas palavras eram a clara expressão do seu remorso. É certo que sempre me tinha mostrado o exemplo de Gisela e recomendara que me vendesse o mais caro possível. Mas entre dizer e fazer há uma boa diferença. Ter trazido um homem a casa, sentir que lhe punha o dinheiro na mão, era certamente para ela um duro golpe. Agora, que tinha diante dos olhos o resultado da sua educação, não podia deixar de sentir-se horrorizada. Mas ao mesmo tempo havia nela uma espécie de incapacidade para reconhecer que se tinha enganado; talvez também uma amarga satisfação ao verificar que se enganara. Tanto assim que, em vez de me dizer francamente “Procedeste mal… não recomeces”, preferiu falar de coisas que nada tinham a ver comigo, da sua vida, do seu desejo de deixar de existir. Tive muita vez ocasião de observar pessoas que no mesmo momento em que se abandonam a uma acção que sabem ser repreensável, procuram defender-se e resgatar-se discorrendo acerca de coisas mais elevadas, susceptíveis de as rodear, a seus próprios olhos e aos dos outros, de uma aura de desinteresse e de nobreza bem longe da acção que praticam — ou ainda, para voltar ao caso da minha mãe —, daquilo que deixam os outros praticar. Somente, a maior parte actua com inteira consciência; minha mãe, pelo contrário, coitada, fá-lo sem dar por isso, como o seu coração e as circunstâncias a inspiram.
Portanto, a sua frase sobre a vontade de não viver parecia-me justa. Pensava que também eu, logo que descobri a traição de Gino, desejei deixar de viver. Mas o meu corpo continuava a viver por sua conta, indiferente à minha vontade. Este peito, estas pernas, estas ancas, que tanto agradavam aos homens, continuavam vivas; a minha natureza continuava a desejar o amor, mesmo sem que eu o quisesse. Estendida na minha cama, tinha decidido deixar de viver, não acordar no dia seguinte de manhã; enquanto dormia. o meu corpo continuava vivo, o sangue corria-me nas veias. o estômago e os intestinos digeriam, os pêlos despontavam-me nas axilas, onde os tinha rapado, as unhas cresciam, a pele molhava-se de suor e as forças restauravam-se. E de manhã cedo, sem que o quisesse, as pálpebras abriam-se e os meus olhos viam, por mal deles, esta realidade que detestavam. Em suma, percebia que, a despeito do meu desejo de morrer, estava ainda viva e devia continuar a viver. E portanto — concluía eu —, é preciso sujeitarmo-nos a viver e não pensar mais nisso. Nada disto disse a minha mãe, porque sabia que estas ideias não eram menos tristes que as suas e não a consolariam. Mas quando me pareceu que deixara de chorar aproximei-me dela e disse-lhe:
— Tenho fome!
Era verdade; no restaurante, com o nervosismo, quase não tinha comido.
— O teu jantar está pronto — respondeu-me, contente por eu lhe oferecer um meio de se tornar útil e de fazer uma coisa que fazia todas as noites. — Vou preparar-to.
Saiu e fiquei só.
Sentei-me em frente da mesa, no meu lugar habitual, e esperei que ela voltasse. Sentia a cabeça oca; de tudo o que se passara ficara-me apenas o cheiro acre e doce do amor entre os dedos e o traço seco e salgado das lágrimas no rosto. Olhei, imóvel, as sombras que o candeeiro suspenso projectava nas grandes paredes nuas da sala. Minha mãe voltou. Trazia um prato com carne e legumes.
— A sopa não ta aqueci — disse-me —, porque não ficava boa. E depois, já não há muita.
— Não faz mal. Isto chega!
Deitou-me vinho tinto no copo e ficou de pé na minha frente, como sempre que eu comia… imóvel, atenta às minhas ordens.
— O bife está bom? — perguntou-me ansiosamente.
— Está bom, está.
— Pedi tanto ao homem do talho para me dar um bocado tenro!
Parecia ter acalmado; tudo parecia igual às outras noites. Acabei lentamente de comer, bocejei, abri os braços e espreguicei-me. De repente senti-me bem; este gesto bastava para dar ao meu corpo uma sensação de juventude, força e contentamento.
— Tenho sono! — declarei.
— Espera… vou fazer-te a cama! — disse minha mãe, atenciosa, fazendo menção de sair.
— Não, não; eu faço!
Levantei-me; minha mãe levou o prato vazio.
— Amanhã de manhã deixa-me dormir! — recomendei-lhe. — Não me acordes.
Respondeu-me que me deixaria dormir, e, depois de lhe dar as boas-noites é de a beijar, retirei-me para o meu quarto. A cama estava na desordem em que eu e Jacinto a tínhamos deixado. Limitei-me a ajeitar a almofada e a colcha, despi-me e enfiei-me nos lençóis. Fiquei durante uns instantes com os olhos abertos no escuro, sem pensar em nada.
— Sou uma prostituta! — disse por fim em voz alta, para ver o efeito que isso me produzia.
Tive a impressão de que não me fazia qualquer efeito: fechei os olhos e adormeci logo a seguir.
No decurso dessa semana tornei a ver Jacinto todas as noites. Ele tinha telefonado a Gisela no dia seguinte de manhã e Gisela tinha-me dado o recado. Jacinto devia voltar a Milão na véspera da noite do dia que eu tinha marcado para me encontrar com Gino; fora esta a razão pela qual consentira em encontrar-me com ele todas as noites. Doutra maneira, teria recusado, porque jurara a mim mesma que não teria encontros seguidos com qualquer homem. Pensava que era preferível, já que tinha que ter esta vida, fazé-lo francamente, mudando de amante de cada vez, em lugar de me enganar a mim própria e de me dar a ilusão de não o fazer deixando-me sustentar por um homem só, com o risco de me afeiçoar a ele ou de o deixar afeiçoar-se a mim, e perder assim não só a liberdade física mas também a dos sentimentos. De resto, guardara intactas as minhas ideias sobre a vida conjugal e regular; pensava então que se tivesse de me casar não seria com um amante que me sustentasse e que por fim decidisse tornar legais, mas não morais, relações de interesse; isso aconteceria com um rapaz que eu amasse e por quem fosse amada, que fosse da minha condição, com os mesmos gostos e as mesmas ideias que eu. Queria, em resumo, que a vida que escolhera ficasse bem distinta das minhas velhas aspirações, sem contágios nem compromissos. Porque me sentia, num certo sentido, levada a ser uma boa esposa e uma boa cortesã, mas incapaz de escolher, como entendia que devia fazer Gisela, o meio termo hipócrita e prudente entre as duas soluções. Sem contar que, feitas as contas, se podia obter mais do escrúpulo de muitos que da generosidade de um só.
Durante todas aquelas noites, Jacinto levou-me a jantar ao seu restaurante habitual e acompanhou-me a minha casa onde se demorava. Minha mãe renunciou a falar destas noites; limitava-se a perguntar-me se dormira bem quando de manhã entrava no meu quarto, a uma hora avançada, para me levar o café num tabuleiro. Este café, já o disse, costumava engoli-lo na cozinha, muito cedo, de pé, junto da chaminé, ainda com o frio da água nas mãos e na cara. Mas agora minha mãe trazia-mo ao quarto e eu bebia-o na cama, enquanto ela abria as persianas e tratava de dar alguma arrumação ao quarto. Não lhe dizia nunca mais do que já lhe dissera, mas ela percebera por si própria que tudo tinha mudado na nossa vida e mostrava pelo seu comportamento que compreendia que espécie de mudança se operara. Agia como se entre nós houvesse um acordo tácito e parecia, pelas suas atenções, pedir-me humildemente que lhe permitisse, na nossa vida nova, servir-me e tornar-se útil como outrora. Devo dizer que este hábito de me trazer o café à cama devia tranquilizá-la num certo sentido, por que muita gente — e minha mãe era dessas — atribui aos hábitos um valor positivo, mesmo que não tenham, como este, essa característica. Manifestou o mesmo zelo introduzindo todos os dias pequenas mudanças da mesma ordem na nossa vida quotidiana: tanto assim que me preparou uma grande panela de água quente para me lavar ao levantar, pôs flores numa jarra no quarto e assim por diante.
Читать дальше