Dizia-me com frequência coisas no género. Mas por vezes as suas recriminações pareceram-me estranhamente desinteressadas.
Dir-se-ia que não só encarava com antecipada resignação a ideia de que eu ia tornar-me amante do Gino como até no fundo desejava que isso acontecesse. Agora sei que ela esperava sempre o momento próprio para impedir que o meu casamento se realizasse.
Uma manhã, Gino disse-me que os patrões tinham partido para o campo, que as criadas estavam de férias nas suas aldeias e que lhe tinham entregue a casa a ele e ao jardineiro. Não gostaria eu de a visitar? Tinha-me falado dela tantas vezes e em termos tão admirativos que eu estava cheia de curiosidade: aceitei de boa vontade. Mas no preciso momento em que disse que sim, uma perturbação profunda feita de desejo fez-me compreender que a minha curiosidade de ver a casa não tinha passado de um pretexto, e que o verdadeiro motivo desta visita era bem outro. Entretanto, como sempre acontece quando se aspira a uma coisa que não se quer desejar, fingi não acreditar no pretexto, enganando-me a mim própria e a ele.
— Sei que não devia ir — disse-lhe, subindo para o carro.
— Mas não nos vamos demorar muito tempo, pois não? Ouvia-me a mim própria pronunciar estas palavras numa voz ao mesmo tempo amedrontada e provocante. Gino respondeu-me muito sério:
— Só o tempo de ver a casa. Depois vamos ao cinema.
A moradia elevava-se numa ruazinha que descia do novo bairro rico, no meio de outras lindas casas. Estava um dia calmo e todas essas casas estendendo-se pela colina debaixo de um céu muito azul, com as suas fachadas de tijolos vermelhos ou de pedra branca, os seus alpendres ornados de estátuas, as suas pérgulas envidraçadas, os terraços e as varandas repletos de gerânios, os jardins onde cresciam as suas árvores copadas entre uma moradia e outra — tudo isso me dava uma deliciosa sensação de descoberta e de novidade. Era como se entrasse num mundo mais livre e mais belo, onde seria mais agradável viver. Não pude deixar de me lembrar do meu bairro, da grande estrada que corre junto das muralhas, das construções pobres, e declarei a Gino :
— Já estou arrependida de ter vindo.
— Porquê? — perguntou-me com ar desenvolto. — Não nos demoraremos, está descansada!
— Tu não percebes! — respondi. — Estou arrependida porque agora vou corar com vergonha da minha casa e do meu bairro.
— Ah! Isso sim! — disse com um ar aliviado. — Mas que queres fazer? Era preciso ter-se nascido milionário… Neste bairro só moram milionários.
Abriu o portão e levou-me por uma álea coberta de saibro, entre duas filas de arbustos tratados com inexcedível esmero.
Entrámos na moradia por uma porta de vidro espesso e encontrámo-nos no vestíbulo da entrada, vazio, pavimentado de placas de mármore brancas e negras, desenhando enormes quadrados encerados, brilhantes como espelhos. Do vestíbulo passámos ao hall, espaçoso e cheio de luz, para o qual davam as salas do rés-do-chão. Ao fundo do hall via-se uma escadaria toda branca, que conduzia aos andares superiores.
Vendo este hall senti-me tão intimidada que comecei a andar nos bicos dos pés. Gino reparou e disse-me a rir que podia fazer todo o barulho que quisesse porque ninguém estava em casa.
Mostrou-me o salão: uma grande sala cheia de poltronas e divãs; a sala de jantar, mais pequena, com uma mesa oval, cadeiras e credências de uma bela madeira castanha, brilhante; a rouparia cheia de armários pintados de esmalte branco.
Num quarto pequenino havia um bar engastado numa reentrância da parede, um verdadeiro bar com prateleiras para as garrafas, a máquina de café niquelada e o balcão forrado de zinco: dir-se-ia uma capelinha, tanto mais que uma grade baixa fechava a entrada.
Perguntei a Gino onde era a cozinha: disse-me que a cozinha e os quartos do pessoal eram na cave. Era a primeira vez na minha vida que eu entrava numa casa destas; instintivamente tocava cada coisa com a ponta dos dedos, como se não acreditasse no que viam os meus olhos. Tudo me parecia novo e precioso: o vidro, a madeira, o mármore, o metal, os tecidos. Não me saia da cabeça a comparação entre estas paredes, estes pavimentos, estes móveis com os ladrilhos sujos, as paredes enegrecidas e os móveis desconjuntados da nossa casa, e pensei que minha mãe tinha razão quando dizia que nesta vida só o dinheiro conta. Pensava também que as pessoas que viviam sempre no meio destas bonitas coisas deviam por força ser belas e boas, não poderiam gritar, ter questões, praticar enfim a maior parte dos actos que eu tinha visto fazer na minha casa e nas outras iguais à minha.
Entretanto, Gino explicava-me pela centésima vez a vida que se fazia lá dentro, como se qualquer coisa de todo aquele luxo e de toda aquela riqueza se reflectisse nele.
— Têm pratos de porcelana… as travessas são todas de prata… comem cinco pratos diferentes, bebem três qualidades de vinho. À noite a senhora veste um vestido decotado e ele um smoking… Depois do jantar, a criada de quarto leva-lhes uma bandeja de prata com sete qualidades de cigarros, só cigarros estrangeiros, bem entendido!… Depois saem da sala de jantar e levam-lhes o café e os licores nesta mesinha rolante… têm sempre convidados… umas vezes dois… outras vezes quatro… A senhora tem brilhantes deste tamanho!… e um colar de pérolas que é uma maravilha. Só em jóias deve ter uns bons milhões…
— Já me disseste isso! — interrompi, um pouco aborrecida. Mas ele, entusiasmado com o assunto, nem deu pela minha contrariedade.
— A senhora nunca vai à cave… — continuou. — Dá as suas ordens pelo telefone… Aliás na cozinha só se trabalha a electricidade… A nossa cozinha é mais limpa e bonita do que os quartos de dormir de muita gente… Até mesmo os dois cães da senhora andam mais asseados e comem melhor do que muitas pessoas…
Falava dos patrões com admiração e dos pobres com desprezo. Eu, um pouco pela sua conversa, um pouco pela comparação que continuamente estabelecia entre esta casa e a minha, sentia-me horrivelmente miserável.
Do primeiro andar, subindo a escada, chegámos ao segundo. Na escada Gino passou-me o braço em volta da cintura e apertou-me com força. Eu então não sei porquê tive a impressão de ser a dona da casa e de subir a escada pelo braço do meu marido, depois de algum jantar ou de alguma recepção, para me ir deitar, na mesma cama que ele, no segundo andar.
Gino parecia adivinhar os meus pensamento — tinha constantemente intuições deste género — e disse-me:
— Agora vamos deitar-nos… E amanhã trazem-nos o café à cama.
Pus-me a rir, mas com a impressão de que isso era verdade.
Nesse dia, para sair com Gino, eu tinha vestido o meu fato mais bonito (e também a minha blusa e o meu melhor par de sapatos). Lembro-me de que era um vestido de duas peças: casaco preto e uma saia aos quadrados pretos e brancos. O tecido não era feio, mas a costureira do bairro que o cortara tinha pouco mais prática do que minha mãe. Tinha-me feito a saia muito curta, mas mais atrás do que à frente, de maneira que me cobria os joelhos à frente, mas deixava as curvas à vista pelo lado de trás. O casaco tinha ficado muito apertado, com enormes virados, e as mangas tão estreitas que me repuxavam debaixo dos braços. Abafava dentro deste casaco, que fazia sobressair o peito de tal maneira que parecia ter perdido um botão. A blusa era cor-de-rosa, muito simples, de tecido ordinário, sem bordados, e deixava ver à transparência a minha melhor e mais bonita combinação: de algodão branco.
Calçava sapatos pretos muito bem engraxados: a forma era antiga, mas o cabedal era bom. Não trazia chapéu e o cabelo caía-me sobre os ombros; tenho o cabelo castanho e ondulado.
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