—E isso não é bom?— indagou a filha com ar brincalhão.
—Há qualidades que ficam bem em um homem, mas não numa mulher. Você herdou a determinação, a coragem e a ousadia de seu pai, quando devia ser dócil e mansa. Devo acrescentar que também é impetuosa e impulsiva. Se quer me ver partir tranqüila, filhinha, prometa-me ser, na minha ausência, inteiramente feminina e suave.
Caroline riu.
—Prometo esforçar-me para ser assim.
O coche partiu e depois de desaparecer de vista, lady Edgmont comentou:
—Espero que nada aconteça aos primos. Eu não me arriscaria a viajar num desses vapores fumegantes nem por cem guinéus.
—Eu adoraria viajar num navio a vapor. Você precisa aceitar o progresso, Debby. Estamos em 1821, não na Idade Média!— achando que poderia ter magoado a prima, Caroline acrescentou em outro tom—, venha comigo. Vou pedir que nos sirvam chocolate e conversaremos sobre o que fazer nos próximos dias.
As duas foram para a sala de desjejum. Logo depois de terem sido servidas, Caroline perguntou distraidamente:
—Você já ouviu falar no Conde de Brecon, Debby?
Foi tão grande a surpresa de lady Edgmont que ela colocou a xícara sobre a mesa com barulho.
—Que pergunta mais estranha! Sabe que ontem pela manhã, juntamente com a carta de sua madrinha, recebi também uma carta vinda do Castelo de Brecon?
—Do Castelo de Brecon?!— Caroline endireitou-se na cadeira—, você conhece alguém desse Castelo?
—Um momento. Tenho a carta comigo— Debby abriu a bolsa de veludo azul e encontrou o envelope que procurava—, deixe-me ver. Sim, é esta a carta. Castelo de Brecon, Cuckhurst, Kent.
—Cuckhurst! E esse o nome da aldeia onde fica o Castelo?
—Creio que sim.
—O que diz a carta e quem a enviou?
—Fanny Hall, uma velha amiga. Na verdade, meu marido era seu parente distante. Fanny é uma pessoa adorável e de família aristocrática. Ela nunca se casou e depois da morte do pai, achando-se em má situação financeira, precisou arranjar um emprego. Faz um ano que ela trabalha no Castelo de Brecon como dama de companhia da viúva Condessa.
—Sim, mas o que sua amiga diz nessa carta?— Caroline perguntou, impaciente.
—Fanny vai deixar o emprego para morar com o irmão que voltou recentemente da Índia, muito rico.
—Ela não fala sobre as pessoas que moram no Castelo ?
—Sim, elogia lady Brecon a quem é muito devotada e sente deixar. A respeito de certos empregados que estão felizes em vê-la pelas costas Fanny diz na carta: "... são pessoas que conseguem um emprego de confiança e responsabilidade mas têm um comportamento repreensível e abusam daqueles que nelas confiam".
—Mas não fala de quem?
— Minha amiga é muito discreta e não cita nomes, naturalmente.
Lady Edgmont pegou outra folha da carta.
—Aqui há um òutro trecho interessante: "Os criados não param no emprego e ninguém pode culpá-los, dadas as circunstâncias".
—Que circunstâncias seriam?— o interesse de Caroline aumentava cada vez mais.
—Nem imagino. Fanny não iria escrever sobre isso, mesmo porque a finalidade da carta é perguntar-me se conheço uma pessoa detooa aparência, bem educada e de confiança para substituí-la. É uma pena... — Debby ficou pensativa.
—A filha do advogado de seu pai estava procurando emprego mas já está trabalhando…
—Já sei, Debby!— Caroline ficou de pé—, conheço alguém que aceitará o emprego.
—Quem é?
—É… uma ex-colega de escola, de quem eu gostava muito.
—Acha mesmo que uma colega de escola iria sujeitar-se a trabalhar como dama de companhia?— Debby olhou para a prima com desconfiança—, digo isto, porque todas as garotas, eram orgulhosas e filhas de aristocratas.
—Essa colega em quem estou pensando é simples e pobre.
—Trata-se de uma jovem de boas famílias?
—De família muito distinta. Por favor, recomende-a, Debby.
—Bem… não sei… fale-me sobre essa amiga. Onde ela mora? Como você pode saber se o emprego a interessa?
—Minha amiga é orfã e precisa trabalhar. Ela mora com um parente… o pastor da aldeia de Cuckhurst. Tanto ela como a filha do pastor foram minhas colegas. Quem pagava os estudos de ambas era o dono do Castelo de Brecon. Por favor, Debby, escreva para Fanny recomendando minha amiga para trabalhar no Castelo como dama de companhia da Condessa. Posso levar a carta de recomendação pessoalmente.
—Realmente, Caroline, ainda não me decidi a escrever a carta, e mesmo que eu a escreva, não há necessidade de você fazer uma viagem longa como essa. Para que servem as diligências postais?
—Eu adoraria rever essa amiga e Harriet… que é a filha do pastor. Oh, prima Debby, esta casa é muito triste sem papai e mamãe.
—Você me coloca em cada situação… não sei o que pensar ou dizer. Não acho correto recomendar uma pessoa que nunca vi. Sua mãe concordaria comigo…
—Mamãe conhece minha amiga e gosta muito dela— Caroline apressou-se em dizer.
—É mesmo? Por que você não me disse logo que Serena a conhecia?— Lady Edgmont fez uma pausa e disse pouco depois—, acho melhor você escrever para sua mãe e pedir-lhe que ela mesma providencie a carta recomendando sua amiga.
—Já imaginou quanto tempo levaria para termos essa carta de recomendação em mãos? Até mamãe responder a vaga já terá sido preenchida.
—Sim, sim, claro! Como Serena ficou conhecendo sua amiga? Ela já esteve hospedada nesta casa?
—Naturalmente. Mamãe e papai gostam muito dela e tratam-na como se fosse da família... como uma filha. Por favor, Debby, redija a carta, já. Enquanto isso, vou escrever um bilhete para Harriet avisando que irei visitá-la e um cavalariço o levará a Cuckhurst.
—Você não pode viajar sozinha. Eu a acompanharei.
—Não é necessário. Levarei Maria comigo.
—Ainda acho que a carta poderia ser enviada pela diligência postal. Mas se a visita a sua amiga lhe dá tanto prazer, minha querida… além disso, Maria a acompanhará— lady Edgmont disse em voz baixa como se falasse consigo mesma.
Caroline já estava saindo da sala quando a prima chamou-a.
—Caroline! Caroline!
—O que foi?
—Você não me disse o nome de sua amiga. Harriet é a filha do pastor, mas como se chama a outra… a que precisa do emprego?
—Ah, sim. Como pude me esquecer disso? Seu nome é Caroline Fry.
—Caroline?! Vocês duas têm o mesmo nome?— admirou-se lady Edgmont.
—Que coincidência, não, Debby?— Caroline assumiu um ar casual—, admito que sempre achei meu nome comum demais. Conheço várias pessoas chamadas Caroline.
Por fim, Caroline deixou a salá. Em seu quarto escreveu uma cartinha endereçada a Harriet Wantage, colocou-a no envelope, lacrou-o e desceu com ele, indo até o pátio das cocheiras.
—Precisa de alguma coisa, milady?— Harry indagou ao vê-la.
—Quero que você mande um cavalariço levar esta carta, imediatamente, a Cuckhurst. Deverá ser entregue na casa paroquial. Diga ao rapaz que volte em seguida. Aqui está meio guinéu para ele tomar uma cerveja no caminho de volta.
Harry coçou a cabeça grisalha.
—E uma longa viagem para ser feita de uma estirada, milady.
Não dando atenção à reclamação do velho, Caroline voltou para a casa. Sabia que suas ordens seriam executadas com rigor. Quando entrou no quarto já começava a sentir-se empolgada só de pensar na nova aventura que iria viver.
Perdera o sono na noite anterior por se preocupar com lorde Brecon e agora, milagrosamente, surgia a oportunidade de ajudá-lo. O plano que tinha em mente, apesar de envolver riscos, parecia possível de ser executado. Por um momento ela lembrou que prometera aos pais ficar comportada.
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