O ataque, porém, da ala direita francesa não encobria o segundo fim; desfazer a ala esquerda inglesa, cortar a estrada de Bruxelas, fechar a passagem aos prussianos que pudessem sobrevir, forçar o Mont-Saint-Jean, apertar Wellington contra Hougomont, daí contra Braine-l’Alleud e daí contra Hal, nada mais claro. Afora alguns incidentes, este plano foi bem sucedido. Papelotte foi tomado; Haie-Sainte assaltada.
Há, porém, uma circunstância a notar: na infantaria inglesa, e mormente na brigada de Kempt, havia grande número de recrutas, que, todavia, em presença dos nossos temíveis infantes, foram valentes, não lhes obstando a inexperiência a mostrarem-se intrépidos no perigo e fazendo excelente serviço, principalmente como atiradores; o soldado atirador, mais entregue de certo modo a si mesmo, torna-se, para assim dizer, general de si próprio. Aqueles recrutas mostraram ainda alguma coisa da invenção e da fúria francesa, porém o entusiasmo desta infantaria noviça desagradou a Wellington.
Após a tomada de Haie-Sainte, a batalha começou a vacilar. Aquele dia tem um intervalo escuro, desde o meio-dia até às quatro horas; o meio-dia da batalha é quase indistinto e participa do sombrio da refrega. A luz crepuscular do combate, viam-se mil vultos flutuando em nuvens de fumo, uma como miragem vertiginosa, o trem de guerra de então, desconhecido hoje, as barretinas felpudas, os boldriés e as pastas dos hussardos, as correias cruzadas, as cartucheiras, os dólmans, as botas vermelhas de mil dobras, os pesados shakos engrinaldados de torçal, a infantaria quase negra de Brunswick misturada com a infantaria escarlate de Inglaterra, os soldados ingleses com dragonas feitas de grandes borrainas brancas circulares, a cavalaria ligeira hanoveriana com os seus capacetes de couro oblongos de barbicachos de cobre e penachos de cabelo vermelho; os escoceses de joelhos nus, as grandes polainas dos nossos granadeiros; quadros e não linhas estratégicas; o que é necessário a Salvador Rosa e não a Gribeauval.
Uma batalha tem sempre certa semelhança com uma tempestade. Quid obscutum, quid divinum . Cada historiador traça como lhe apraz os lineamentos desta confusão.
Qualquer que seja a combinação dos generais, o choque das massas armadas tem refluxos que se não podem de antemão calcular; na ação, os dois planos dos dois chefes entram um no outro e deformam-se um pelo outro. A linha de batalha flutua e serpenteia como um fio, corre o sangue em torrentes ilogicamente, ondeiam as frentes dos exércitos, os regimentos formam cabos ou golfos, conforme entram ou saem, agitam-se continuamente estes escolhos uns por diante dos outros; aonde está a infantaria, aí chega a artilharia, aonde está a artilharia aí acorre a cavalaria; parecem nuvens de fumo os batalhões. Havia ali não sei o quê; procurar, desapareceu; deslocam-se as abertas; avançam e recuam aqueles vultos negros em meandros sombrios; um como vento do sepulcro leva, agita, alarga e dispersa aquelas multidões trágicas. Que é uma peleja Uma oscilação.
A imobilidade de um plano matemático exprime um minuto e não um dia. Para pintar batalhas é necessário um pintor que saiba formar caos com o pincel; é melhor Rembrandt que Van-Der-Meulen. Este exato ao meio-dia, às três horas mente. Engana a geometria; só o furacão é verdadeiro, e é isto o que dá a Folard direito para contradizer Polibio. Acrescentemos que há sempre uma ocasião em que a batalha degenera em combate, se singulariza e espalha em mil factos, que formam cada um de per si uma circunstância, e que, para nos servirmos da expressão do próprio Napoleão, «mais pertencem à biografia dos regimentos do que à história do exército». Neste caso, o historiador tem obrigação evidente de ser resumido, porque não pode apanhar senão os contornos principais da luta, e não é dado a nenhum, por mais consciencioso que seja, fixar absolutamente a forma desta nuvem terrível, chamada uma batalha.
O que é verdadeiro a respeito dos grandes choques armados é particularmente aplicável a Waterloo.
Todavia, de tarde, a batalha, em certa ocasião, fixou-se.
VI — Quatro horas da tarde
As quatro horas, a situação do exército inglês era grave. Ó príncipe de Orange, que comandava o centro, gritava aos holando-belgas, no desvairamento da intrepidez: Nassau! Brunswick! Nada de recuar!
Hill, que comandava a ala direita, vinha encostar-se a Wellington, mas já enfraquecido. Finalmente, Picton, que comandava a ala esquerda, tinha morrido. Na mesma ocasião em que os ingleses roubaram aos franceses a bandeira do 15° de linha, os franceses mataram-lhe o general Picton com uma bala na cabeça. Wellington nesta batalha tinha dois pontos de apoia Hougomont e Haíe-Sainte; Hougomont resistia ainda, mas estava em chamas: Haie-Sainte estava tomada. Do batalhão alemão que a defendia apenas sobreviviam quarenta e dois homens; os oficiais haviam sido mortos ou feitos prisioneiros todos, menos cinco; o número dos combatentes, vítimas do furor da peleja naquela granja, montava a três mil. Ali morreu às mãos de um pequeno tambor francês um sargento dos guardas ingleses, o primeiro jogador de soco de Inglaterra, reputado invulnerável pelos seus companheiros. Baring retirou, Alten foi morto à espada. Perderam-se muitas bandeiras, uma das quais pertencia à divisão de Alten e outra ao batalhão de Lunebourg, comandado por um príncipe da família de Deux-Ponts.
Os escoceses bêbados já não existiam; os gordos dragões de Ponsonby tinham sido despedaçados; essa valente cavalaria foi derrotada pelos lanceiros de Bro e pelos couraceiros de Travers; de mil e duzentos cavalos restavam seiscentos; de três tenentes-coronéis, dois jaziam por terra, Hamilton ferido, Mater morto. Ponsonby caíra, atravessado por sete lançadas, Gordon fora morto, Marsh morto, e duas divisões, a quinta e a sexta, destruídas.
Tomada Haie-Sainte e aberta brecha em Hougomont, restava um único nó, o centro, que resistia ainda, animado pelo reforço de Wellington, que chamara Hill, que estava em Merbe-Braine, e Chassé, que estava em Braine-l’Alleud.
O centro do exército inglês, um pouco côncavo, densíssimo e compacto, estava situado em posição forte. Ocupava a planura do Mont-Saint-Jean, tendo por trás a aldeia e por diante a encosta, então bastante áspera, e defendido por essa casa forte de pedra, nesse tempo propriedade senhorial de Nivelles, que marca a interseção das estradas, massa do século dezasseis, tão robusta, que as balas recuavam em ricochete, sem lhe abrir mossa. Em volta da planura, os ingleses haviam cortado as sebes aqui e além, fazendo canhoneiras entre os espinheiros para colocar as bocas das peças entre os ramos e abrindo seteiras entre as sarças. A artilharia deles estava de emboscada por trás dos tojos. Este trabalho púnico, incontestavelmente autorizado pela guerra, que admite o laço, estava tão bem feito que Haxo, expedido pelo imperador às nove horas da manhã a reconhecer as baterias inimigas, não dera fé de nada e veio dizer a Napoleão que não havia outro obstáculo além das duas trincheiras que obstruíam as estradas de Nivelles e de Genappe. Como era o tempo em que as searas estavam crescidas, facilmente se pôde esconder na espessura do trigo que cobria a orla da planura um batalhão da brigada de Kempt, o 95.º armado de clavinas.
Assim resguardado e seguro, o centro do exército anglo-holandês podia dizer-se em boa posição.
O único perigo dele era a floresta de Soignes, então contígua ao campo de batalha e cortada pelas lagoas de Groenendael e de Boitsfort. Por ali não podia recuar um exército sem se desfazer; os regimentos desunir-se-iam logo e a artilharia ter-se-ia perdido nos pântanos. A retirada, segundo a opinião de muitos homens da profissão, contestada por outros, seria um verdadeiro salve-se-quem-puder.
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