Teria sido atacado, aos quarenta e seis anos, de uma loucura suprema? Aquele cocheiro titânico do destino, já não seria mais do que um grandioso quebra-costas?
Não o supomos.
O seu plano de batalha, segundo todos confessam, era uma obra-prima. Ir direito ao centro da linha aliada, fazer uma abertura no inimigo, dividi-lo em dois, impelir a metade britânica sobre Hal e a prussiana sobre Tongres, fazer de Wellington e de Blucher dois troços; tomar o Mont-Saint-Jean, apoderar-se de Bruxelas, lançar o alemão no Reno e o inglês no mar. Napoleão tinha tudo isto nesta batalha. Depois ver-se-ia.
Convém dizer que não pretendemos desenvolver aqui a história de Waterloo; uma das cenas principais do drama que contamos tem ligação com esta batalha, mas a sua história não é o nosso assunto; e depois, é uma história que já se encontra feita, e feita magistralmente, num sentido por Napoleão, e noutro por muitos historiadores (Walter Scott, Lamartine, Vaulabelle, Charras, Guinet, Thiers.).
Quanto a nós, deixamos os historiadores e que se avenham; nós não somos mais do que uma testemunha em distância, um caminhante que passa pela planície, um investigador inclinado sobre essa terra amassada com carne humana, tomando talvez as aparências como realidades; não temos direito de resistir, em nome da ciência, a um conjunto de factos, em que há decerto miragem, não temos a prática militar nem a competência estratégica que autorizam um sistema, segundo a nossa opinião, os dois capitães foram dominados em Waterloo por um encadeamento de acasos; e quando se trata do destino, misterioso acusado, julgamos como o povo, juiz simples e ingénuo.
Quem quiser fazer uma ideia clara da batalha de Waterloo, não tem mais do que imaginar um A maiúsculo deitado no chão. A perna esquerda do A é a estrada de Nivelles, a direita é a de Genappe e a corda do A, o carreiro Ohain a Braine-l’Alleud. O cimo do A é o Mont-Saint-Jean, onde está Wellington; a extremidade inferior do lado esquerdo, Hougomont, onde está Reille com Jerónimo Bonaparte; a outra extremidade inferior é a Belle Alliance, onde está Napoleão. Um pouco abaixo do ponto em que a corda do A encontra e corta a perna direita, fica a Haie-Sainte. No meio dessa corda é o ponto onde se disse a palavra final da batalha e onde se colocou o leão, símbolo involuntário do supremo heroísmo da guarda imperial.
O triângulo compreendido entre o cimo, as duas pernas e a corda do A é a planura do Mont-Saint-Jean em cuja disputa consistiu toda a batalha.
As alas dos dois exércitos estendem-se à direita e à esquerda das duas estradas de Genappe e de Nivelles, fazendo Erlon frente a Picton e Reille a Hill.
Por trás da extremidade superior do A, isto é, por trás da planura do Mont-Saint-Jean, fica a floresta de Soignes.
Quanto à planície em si, represente-se uma vastidão de terreno ondulante, cujas eminências se vão imediatamente sucedendo umas às outras, dominando esta aquela e esta a seguinte. As ondulações vão subindo para o Mont-Saint-Jean, até terminar na floresta.
Dois exércitos inimigos num campo de batalha são dois lutadores. É uma luta a braço; cada qual procura deitar a terra o seu adversário, agarrando-se àquilo que encontra; uma sarça é um ponto de apoio; um recanto de uma parede, um encosto; escorrega um regimento por falta de uma casinhola a que se encostar; um rebaixe na planície, uma pouca de terra movida, um carreiro transversal em ensejo oportuno, um bosque, um barranco, podem embaraçar o calcanhar desse colosso chamado exército, impedindo-o de recuar. O que sair do campo fica vencido. Daí a necessidade que tem o chefe responsável de examinar a mais pequena moita de árvores, de aprofundar o menor relevo.
Os dois generais tinham estudado com toda a atenção a planura do Mont-SaintJean, chamada hoje planície de Waterloo. Wellington examinara-a no ano precedente, com previdente sagacidade, como local onde tinha de dar-se uma grande batalha.
Nesse dia de 18 de junho, estava de melhor lado, para o duelo em que se ia empenhar com Napoleão. O exército inglês ficava de cima e o exército francês de baixo.
Esboçar aqui o aspeto de Napoleão a cavalo, de óculo em punho, na eminência de Rosomme, na madrugada do dia 18 de junho de 1815, seria uma coisa quase supérflua. Todos o viram, antes de nós o mostrarmos. Esse perfil sereno, coberto com o pequeno chapéu da escola de Brienne, esse uniforme verde, com o sobrepeito branco a esconder o crachá, o sobretudo a esconder as dragonas, a volta do cordão vermelho no colete, os calções de pele, o cavalo branco com o seu jaez de veludo cor de púrpura, tendo nos cantos NN coroados e águias; botas à escudeira sobre meias de seda, as esporas de prata, a espada de Marengo, toda essa figura do último César, aclamada por uns, encarada com olhar severo por outros, têm-na todos presente à imaginação.
Esta figura permaneceu por muito tempo na luz, livre de certa obscuridade de lenda que se forma em volta da maior parte dos heróis, velando sempre por mais ou menos tempo a verdade; hoje, porém, faz-se o dia e a história.
O fulgor desta é impiedoso; tem isto de estranho e divino: que, apesar de ser luz, e exatamente porque o é, espalha sombra muitas vezes, onde só se viam raios, do mesmo homem faz dois fantasmas diferentes; um ataca o outro, as trevas do déspota lutam com o resplendor do capitão, mas ela faz justiça a ambos. Daí uma medida mais exata para a definitiva apreciação dos povos. Babilónia, violada, diminui Alexandre; Roma, manietada, diminui César; a morte de Jerusalém diminui Tito. A tirania segue o tirano. Desgraçado do homem que deixa após si uma sombra escura com a sua forma.
V — «O quid obscurum» das batalhas
Todo o mundo conhece a primeira fase desta batalha; o seu começo foi caliginoso, incerto, vacilante, ameaçador para os dois exércitos, porém mais para os ingleses do que para os franceses.
Toda a noite havia chovido; a terra estava impregnada de água, que se conservava encharcada nas cavidades da planície como em tinas; em alguns sítios as carretas em que ia montada a artilharia estavam metidas em água até ao eixo e gotejando lama líquida; de modo que, se os trigos e centeios derribados e calcados por aquela barafunda de carretas não tivessem formado um como estrado de palha, sobre o qual se moviam as rodas, seria impossível qualquer movimento, mormente pelos vales que ficam do lado de Papelotte.
O combate principiou tarde, porque Napoleão, como já dissemos, costumava segurar a artilharia na mão, como uma pistola, fazendo pontaria ora a este, ora àquele outro ponto da batalha, e por isso quis esperar até que as carretas que conduziam as peças pudessem rodar e galopar livremente; mas para isso era necessário que aparecesse o sol e secasse a terra, e o sol não apareceu. Já não era a entrevista de Austerlitz. Quando se disparou o primeiro tiro de peça, o general inglês Carville olhou o relógio e viu que eram onze horas e trinta e cinco minutos.
Travada a ação com fúria, com mais talvez do que o imperador quisera, sobre Hougomont, pela ala esquerda francesa, Napoleão atacou o centro, precipitando a brigada de Quiot sobre a Haie-Sainte, e Ney moveu a ala direita contra a ala esquerda inglesa, que se apoiava em Papelotte.
O ataque de Hougomont tinha alguma coisa de simulado; o plano era atrair ali Wellington, fazendo-o inclinar para a esquerda. Este plano teria sortido efeito, se as quatro companhias de guardas ingleses e os bravos belgas da divisão de Perponcher não tivessem guardado a sua posição a pé firme, e se Wellington, em vez de se lhes reunir em massa, se não tivera limitado a mandar-lhes um reforço de outras quatro companhias de guardas e um batalhão de Brunswick.
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