Vendo, pois, a irmã de caridade, o seu primeiro movimento foi para se retirar. Contudo, havia outro dever que o detinha e que impelia imperiosamente em sentido contrário. O seu segundo movimento foi de ficar e de fazer ao menos uma pergunta.
A irmã de caridade que ali se achava era aquela irmã que nunca em sua vida mentira. Javert sabia-o e venerava-a particularmente por essa causa.
— Minha irmã — disse ele — , estava só neste quarto?
Seguiu-se um momento terrível, no qual a porteira se sentiu prestes a desfalecer.
A irmã ergueu os olhos e respondeu:
— Estava.
— Sendo assim — tornou Javert —, desculpe-me a insistência, é o meu dever, não viu esta noite uma pessoa, um homem que se evadiu e que nós procuramos, esse tal Jean Valjean, não o viu?
— Não — respondeu a irmã.
E mentiu. Mentiu duas vezes seguidas, sem hesitar, com a rapidez da dedicação.
— Queira desculpar-me — disse Javert; e saiu, fazendo profundo cumprimento.
Oh, santa mulher! Há muito que sois deste mundo; já há muitos anos vos reunistes às virgens vossas irmãs e aos anjos vossos irmãos, seja-vos essa mentira contada no paraíso.
A afirmativa da irmã de caridade foi para Javert uma coisa tão decisiva que nem reparou na vela que tinham acabado de apagar e que ainda fumegava sobre a mesa.
Passada uma hora, um homem caminhava através do arvoredo, envolvendo-se com o nevoeiro e afastando-se de Montreuil-sur-mer, na direção de Paris. Este homem era Jean Valjean.
Foi provado pelo testemunho de dois ou três carreiros que o tinham encontrado que levava vestida uma blusa, e debaixo do braço um embrulho. Onde tinha ele obtido aquela blusa? Nunca se soube. Todavia, morrera poucos dias antes na enfermaria da fábrica um velho operário, que não deixara senão a sua blusa. Era, talvez, a que ele levava.
Uma última palavra a respeito de Fantine. Todos nós temos uma mãe comum, a terra. Fantine foi restituída a essa mãe.
O cura julgou que procedia com acerto, e procedeu decerto, reservando para os pobres a maior quantia que pudesse do dinheiro que Jean Valjean lhe deixara. No fim de contas, de quem se tratava?
De um forçado e de uma meretriz.
Foi esta a razão porque ele simplificou o enterro de Fantine, reduzindo-o ao estreito necessário, que se denominava vala comum.
Fantine foi pois enterrada no canto gratuito do cemitério, que pertence a todos e não pertence a ninguém e onde para sempre se perdem os pobres. Felizmente, Deus sabe onde há de ir buscar as almas. Fantine foi lançada às trevas entre montões de ossos desconhecidos, atirada à vala comum, onde sofreu a promiscuidade das cinzas. O túmulo assemelhou-se ao leito.
SEGUNDA PARTE — COSETTE
LIVRO PRIMEIRO — WATERLOO
I — O que encontra quem vem de Wivelíes
O ano passado (1861), por uma bela manhã de maio, um viajante a pé, o mesmo que conta esta história, dirigia-se de Nivelles para La Hulpe. Seguia a larga estrada calçada, que por entre duas fileiras de árvores, e em contínuas ondulações, conduz àquele último ponto, ora subindo à crista das colinas, que se sucedem umas após outras, ora descendo ao cavado dos vales, aos altos e baixos, como vagas enormes. Já havia passado Lilois e Bois-Seigneur-Isaac, avistando a oeste o campanário de ardósia de Braine-l’Alleud, que tem a forma de um vaso voltado com a boca para baixo, e deixando atrás uma eminência povoada de arvoredo, e na volta de um atalho, onde se via um poste carunchoso sustentando a inscrição: Antiga barreira n.º 4 , uma taberna em cuja frente se lia o seguinte letreiro: Echabeau, café particular dos quatro ventos .
Meio quarto de légua adiante desta estalagem, chegou ao fundo de um valezinho, cortado por um regato, a cujas águas dá passagem um arco praticado no aterro da estrada e onde o raro, mas verde arvoredo que cobre o vale de um lado da calçada, se estende do outro por dilatados prados, continuando em graciosa desordem até Braine-l’Alleud.
À beira da estrada, do lado direito, ficava uma estalagem, a cuja porta se via um carro de quatro rodas, um grande feixe de varas de lúpulo, uma charrua, uma ruma de mato seco ao pé de uma sebe, uma pouca de cal a fumegar dentro de uma cova quadrada e uma escada deitada ao comprido de um alpendre velho, fechado por um tapamento de palha. Num campo onde ao sabor da viração, volteava um grande cartaz amarelo, provavelmente anunciando o espetáculo de alguns comediantes ambulantes em alguma feira, uma rapariga andava a sachar; da esquina da estalagem, junto de um pântano, onde sobrenadava uma flotilha de patos, partia um carreiro que se entranhava pelo tojo. Deitou o viajante por esse carreiro, e ao cabo de uns cem passos, depois de ter costeado uma parede do século XV, coroada por uma empena aguda de tijolos contrapostos, achou-se em presença de uma grande porta de pedra, construída em arco, com imposta retilínea, no estilo grave de Luís XIV e ornada de dois medalhões lisos. Do frontispício severo em que se abria esta porta partia perpendicularmente uma parede flanqueando-a em ângulo reto. No prado que se estendia em frente da porta jaziam três grades, por entre as quais cresciam à mistura todas as flores de maio. A porta era fechada por dois batentes decrépitos ornados com um martelo velho e cheio de ferrugem.
Estava um lindo dia de sol; sobre uma grande árvore, cujos ramos rumorejavam com esse sussurro mal distinto, que mais parece provir dos ninhos que do vento, balouçava-se um passarinho, naturalmente amoroso, descantando em apaixonados gorjeios.
O viajante curvou-se e pôs-se a examinar uma escavação circular bastante grande, semelhante ao alvéolo de uma esfera, praticada numa pedra no fundo do pé direito da porta. Neste momento abriram-se os batentes que a fechavam e saiu uma aldeã, que, ao ver o viajante e percebendo o que ele estava a examinar, disse-lhe:
— Foi uma bala francesa que fez isso. — E depois acrescentou: — O que ali vê em cima, ao pé daquele prego, é o buraco de uma grande bala que não chegou a atravessar a madeira.
— Como se chama este lugar? — perguntou o viandante.
— Hougomont — disse a aldeã.
O viajante endireitou-se e deu alguns passos para ir olhar de cima das sebes, de onde por entre as árvores que se destacavam no horizonte avistou um montículo, e sobre ele o que quer que fosse, que de longe parecia um leão.
Estava no campo da batalha de Waterloo.
Hougomont foi um lugar fúnebre; o começo do obstáculo, a primeira resistência que em Waterloo se opôs ao grande lenhador da Europa, que se chamava Napoleão; o primeiro nó que ele encontrou sob o machado.
Era um palácio acastelado, agora é apenas um casal.
Hougomont, para o antiquário, é Hugomons. Este solar foi construído por Hugo, sire de Somerel, o mesmo que dotou a sexta capelania da abadia de Villers.
O viajante abriu a porta, empurrou uma caleça que pejava o alpendre e entrou no pátio.
A primeira coisa que lhe atraiu a atenção foi uma porta do século XVI, que ali simula uma arcada, por se haver derrocado tudo em torno dela. O aspeto monumental nasce muitas vezes da ruína Próximo desta arcada abre-se num muro outra porta cujo cimo se fecha pelo modo usado no tempo de Henrique IV, deixando ver as árvores de um pomar. Ao lado desta porta uma estrumeira, enxadas, pás, alguns carrinhos de mão, um velho poço com o seu desaguadouro e molinete de ferro, um galo saltando, um peru todo entufado andando majestosamente de roda, uma capela sobrepujada por um campanariozinho, e tendo a parede exterior coberta de ervilheira em latada, toda florida; tal era o pátio cuja conquista constituiu um sonho de Napoleão. Se tivesse podido apoderar-se deste canto de terra, apoderar-se-ia talvez do mundo. Veem-se ali algumas galinhas espalhando a terra com o bico, e ouve-se ganir: é um grande cão substituindo os ingleses. Neste sítio foram eles admiráveis. As quatro companhias das guardas de Cooke, resistiram ali durante sete horas, ao encarniçamento de um exército.
Читать дальше